![O rapto das sabinas [1582] de Giambologna](http://feriasnoinferno.files.wordpress.com/2011/11/o-rapto-das-sabinas-1582-de-giambologna.jpg?w=640)
Assédio
Depois de passar algumas noites mal dormidas numa rede estendida numa das dependências da delegacia, Achiles Staraci decidiu alugar uma residência nas redondezas da cidade. Escolheu uma casa bonita, avarandada, que dava para uma lagoa de médio porte bem próximo do centro, no caminho de uma das saídas da cidade, serra abaixo. A visão que ele tinha dali era uma das mais privilegiadas para quem mora num altiplano em pleno sertão. Foi ali que ele resolveu receber a visita intimada de Helena Ramos para uma conversa mais séria sobre os boatos de envolvimento dela com o bandido Heitor dos Prazeres.
Ela chegou ao meio da tarde e foi recebida com um sorriso gélido e um copo de suco de cajá. Que calor é esse? Foi a primeira frase proferida pelo delegado, uma pergunta retórica a qual ela respondeu mentalmente, é o aquecimento global. Mas ele foi direto ao assunto. Queria saber se era verdade mesmo que ela andava se encontrando com aquele malfeitor e em que local, precisamente. A resposta dela foi calma e fria. Sua vida sexual não era da conta de ninguém e não tinha interesse de revelar os locais que visitava, pois como cidadã tinha o direito de ir e vir.
Isso provocou em Staraci uma fúria que foi subindo do estômago para a garganta como uma convulsão, uma ânsia de vômito. Ela ficou olhando para aquela explosão de fúria calmamente, como se observasse uma experiência científica. Depois de algum tempo ele se acalmou e perguntou se ela acreditava nos poderes da lei. Sim, ela acreditava sim. Mas já havia lido suficientemente A Última Década de Tito Lívio, do grande Maquiavel, para saber dos limites entre os poderes e deveres do Estado.
Aquela guinada filosófica, intelectual, de Helena, foi como alguém soltar uma brasa na língua do delegado. De repente ele mudou a expressão de fúria para algo mais sutil. Um leve baixar de sobrancelhas, um brilho mais intenso nos olhos com a língua passando suavemente pelos lábios anunciou nova catástrofe. A senhora por acaso obedece a alguma coisa, a senhora de alguma forma teme a providência divina.
A mudança de tema pegou Helena de surpresa. Ali ela queria discutir tudo, menos religião. Olha, seu delegado, se o senhor me chamou aqui para discutir teologia, vá me desculpando, mas prefiro falar nesses assuntos com padre Agostinho. Isso ela disse sem tirar os olhos dele e já esboçando um movimento de saída. Foi aí que ela viu uma mão pesada como aço se fechar em torno de seu pulso. O gesto veio acompanhado de uma profusão de palavras de baixo calão do tempo, então, sua putinha, você só gosta de bandidos e de padres, né? Pois então venha provar de um homem de verdade.
Ele foi soltando essas palavras e a arrastando para o quarto onde ela foi atirada na cama de sopetão e ele foi arrancando suas roupas com força, rasgando-as em alguns pontos . Helena estava vestida com uma fina blusa indiana mostrando o sutiã por baixo e saia do mesmo estilo. Aquilo se rasga muito fácil, pois em poucos segundos ela já estava quase completamente nua, só de calcinha e aquele homem forte deitado pro cima tirando suas próprias roupas e arremetendo entre suas pernas.
Foi nesse momento que ela percebeu todo o perigo que estava correndo e lançou de uma estratégia antiga, quando havia passado por momento semelhante no alojamento da faculdade. Parou de se debater, abriu bem as pernas e ficou estática, esperando o ataque final, dura e fria como um cadáver, olhando fixamente para o rosto de seu agressor e dizendo, é assim que você quer? Então tome, sou toda sua! Você gosta de boneca inflável, seu bosta? Então aqui está uma! Isso funcionou com uma balde de gelo na libido do delegado.
De repente ele percebeu que o fraco ali era ele, não aquela mulher indefesa. De repente ele percebeu que seu cargo não condizia com aquele tipo de atitude. De repente ele lembrou que era um homem puro, exemplo máximo de sua congregação religiosa. Aí tudo parou, o tempo parou, o ar ficou rarefeito. Ele se recompôs, esperou que ela se vestisse novamente e pediu com uma voz trêmula que El o desculpasse. Perguntou se ela ia prestar alguma denúncia, que ele tinha como provar o contrário, que ela rasgara as roupas de propósito para comprometê-lo, que ela não tinha moral para acusar um homem como ele.
Ela olhou para o homem à sua frente, vestiu as roupas e foi saindo calmamente, sem olhar para trás. Ele sentiu um estremecimento quando o barulho da porta batendo chegou aos seus ouvidos.