Rascunho 23

Ulisses

Eis que surge o último personagem desta saga sertaneja. O mais dedicado, o mais fiel, o mais astucioso assistente do delegado Aquiles, enfim deu ar das graças. Ulisses percorreu todas as feiras do sertão vestido de mendigo, conversando com um e com outro, pedindo dinheiro para uma bicada, puxando assunto, cuspindo na beira dos balcões de bodegas. Assim, de conversa em conversa, de calçada em calçada ele foi reunindo um cabedal de informações sobre o bandido Heitor dos Prazeres. Ulisses percorreu um caminho quase interminável para chegar ali e colocar essas informações à disposição do delegado. Foi tentado pelo canto das sereias em cabarés infectos dos cafundós de judas, lutou com gigantes duas vezes o seu tamanho que pereceram a golpes de peixeira, ficou à mercê da mais bela sertaneja de pele branca e olhos azuis… mas chegou.

Sua primeira providência foi comunicar seu estratagema para pegar de vez o facínora em seu ponto fraco. Ele descobriu que o único fraco de Heitor era seu amor pelos cavalos. Nem mesmo as mulheres mais lindas eram páreo na dedicação do celerado do que um bom cavalo de raça. Ulisses solicitou então ao delegado que levantasse verba para adquieir um precioso cavalo árabe e o colocasse em leilão, ali mesmo, no parque de vaquejada da cidade. Era a rmadilha perfeita. Heitor não iria resistir a tal apelo. Ele iria chegar com seu séquito e aí a matilha do delegado cairia em cima para aniquilar de uma vez por todas com aquele flagelo.

O delegado abriu um sorriso tão grande que parecia até uma caverna cheia de morcegos. Nunca duvidou da competência daquele cabra bom. Ulisses era o homem da artimanhas, dos truques, das armadilhas. Aí estava a oportunidade para pegar seu desafeto. Uma vaquejada seguidade um leilão de puro sangue árabe. Um cavalo mais branco que as nuvens. Aquiles Staraci olhou para o céu e abriu as mãos em agradecimento. Naquele momento ele pareceu ouvir a voz do Senhor do Hebreus tremulando na sarça ardente lá fora.

 

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Rascunho 22

 

Amor

No embalo da rede em seu quarto de monge, Agostinho olha para o teto e tenta afugentar o desejo. A imagem de Helena insiste em aparecer nua em sua imaginação. Nem todas as preces do mundo nem todos os martírios são capazes e apagar esse vulto que volta para atormentar suas noites. Nessas horas, corpo e alma se confundem, porque para ele não existe sexo sem amor.

Mas ele é um homem de Deus que sente suas forças o abandonando lentamente. é como um alpinista que escorrega para o abismo gelado, os dedos feridos pela fricção da corda. No entanto, seu coração é uma fogueira e ele teme cair nas labaredas do inferno. Agora que ele ganhou uma missão tão importante de sua Igreja, a vontade parece estar lhe abandonando.

Para seu conforto, busca amparo na leitura de Santo Agostinho:

“Poluí a corrente do companheirismo com a escória da luxúria, anuviando sua clareza com o desejo sinistro – o tempo todo me considerando um sujeito urbano e sofisticado quando não passava de vil e desonesto. Era imprudente no amor, querendo ser seu cativo. Ainda assim, você, Deus misericordioso, em toda a sua bondade, lançou a amargura em meus prazeres.”

Os primeiros pios de pássaros prenunciavam a madrugada de dedos róseos. Padre Agostinho olhou para o relógio no criado mudo e viu que passara a noite em claro. Aquilo não poderia continuar assim. Jurou dar um jeito nessa situação assim que o dia clareasse de vez.

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Rascunho 21

Jornalismo

Há muito que Páris gostaria de marcar uma entrevista com Heitor dos Prazeres, mas o bandido não era fácil de ser contactado. A única saída era andar pelo mercado público, pela feira semanal e sair dizendo a tudo mundo com cara suspeita que se queria falar com ele. O estratagema acabou dando certo, porque um diz, ele estava sentado num banco de praça no centro da cidade, quando viu uma picape se aproximando lentamente. De dentro pularam dos cabras de óculos escuros e com os cabos da arma aparecendo sob a camisa. Ele gelou, pois percebeu na hora que seu pedido de entrevista havia sido aceito. Ou coisa pior.

A camioneta embrenhou-se pela mata buscando as picadas mais estreitas, desembocando em clareiras de desertos quase infinitos para depois cair em um emaranhado de vegetação rasteira, típica do semi-árido nordestino. Depois de muita poeira na cara e a sensação de estar andando em círculos, o carro pegou uma estradinha estreita que terminava numa cancela e uma casinha lá no fundo, cercada de algarobeiras. Era o esconderijo do bicho brabo.

Ele recebeu Páris no alpendre, sentado em uma rede, nu da cintura pra cima, desarmado, estendendo a mão para o tamborete em frente. Uma mulher trouxe um copo de suco de cajá com pedras de gelo boiando, o dia estava muito quente. Páris perguntou se podia ligar o pequeno gravador MP3 que sempre trazia no bolso da calça e foi informado que sim, podia sim, gravar a conversa.

Quando o sol começou a se esconder para as bandas da serra, já era quase noite. O visitante foi convidado a ficar para o pernoite, mas agradeceu a gentileza e disse que preferia voltar o quanto antes. Em sua mente, Páris já se via deliciado, enviando a matéria de seu notebook para o jornal que ficaria com a última página aberta à espera de sua entrevista. Ia ser um estouro, sorriu consigo, imaginando a cara de ódio do delegado quando abrisse o jornal de manhã.

A picape embrenhou-se de novo pela caatinga de volta e Páris até pegou no sono de tão tranquilo que estava. Quando chegaram na praça novamente, foi acordado pelos homens que se despediram sem uma palavra sequer. Ele pensou, vou botar pra lascar…

 

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Rascunho 20

 

Drogas

Na verdade, Heitor nunca se preocupou com o pequeno tráfico de maconha na região. Seus próprios homens usavam cannabis sativa em sua presença sem causar qualquer aborrecimento. O que incomodava ao moderno cangaceiro era o crescente tráfico de drogas pesadas que começava a tomar conta das pequenas cidades do sertão. O tráfico de cocaína estava crescendo nas classes mais abastadas, filhos de fazendeiros e comerciantes adicionavam cada vez mais ao whisky nas suas festinhas e vaquejadas, o famigerado pó boliviano. Depois, começou a surgir nas classes mais baixas um tipo diferente de drogado que consumia um sub-produto da cocaína, mais conhecido como crack. Uma espécie de zumbi esmulambado começou a circular pelas ruas daquelas cidades honoráveis. O número de roubos aumentou exponencialmente; depois a violência explodiu com um número assustador de assassinatos por causa de dívidas com o tráfico.

Aquilo irritou profundamente Heitor dos Prazeres que iniciou imediatamente uma estratégia de ataques aos traficantes locais. Uma tática que só poderia acabar em guerra. O mais curioso nisso tudo é que tal situação esdrúxula agradou e muito o delegado Starace. Agora, ele podia explorar o lado fraco de seu inimigo nessa guerra sem vencedores. O bando de Heitor estava atacando os traficantes em suas próprias bases e o confronto não era nem um pouco desigual. Os traficantes também estavam fortemente armados e isso transformou a região num verdadeiro caos. O sertão não virou mar. Virou um inferno.

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Os números de 2011

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um comboio do metrô de Nova Iorque transporta 1.200 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 5.200 vezes em 2011. Se fosse um comboio, eram precisas 4 viagens para que toda gente o visitasse.

Clique aqui para ver o relatório completo

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Rascunho 19

Linhagem

Folheando o livro Raízes do Privilégio: Mobilidade Social do Mundo Ibérico, o leitor mais atento vai encontrar no artigo Os Vaaz de Nápoles, de autoria de Gaetano Sabatini o seguinte trecho:

“Nesses anos estava ainda bem viva, tanto na plebe napolitana como nas elites dirigentes da cidade, a lembrança da revolta popular de 1585, causada pela falta de pão e que culminara no linchamento de um importante expoente do poder municipal, o Eletto del Popolo Gian Vincenzo Starace, considerado responsável por ter consentido a exportação de trigo para fora do reino, apesar da fome de que padecia a cidade”.

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Rascunho 18

 

Marx

 

Padre Agostinho ainda guardava o gosto amargo do desejo de vingança em sua boca ao acordar naquela manhã. Ao seu lado, ao pé da cama, um volume de um livro qualquer escrito por Karl Marx. Nas paginas marcadas com umas folhas de cajazeira, ele encontrou o que o deixou inquieto antes de dormir.

 

“A religião é a teoria geral desse mundo, seu compêndio enciclopédico, sua lógica sob forma popular, seu ponto de honra espiritual, seu entusiasmo, sua sanção moral, seu complemento solene, sua razão geral de consolo e de justificação. É a realização fantástica da essência humana, porque a essência humana não tem uma verdadeira realidade. A luta contra a religião é, indiretamente, a luta contra esse mundo, do qual a religião é o aroma espiritual”.

“A miséria religiosa é, de um lado, expressão da miséria real e, de outro, protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida pela infelicidade, a alma de um mundo sem coração, e é o espírito de uma época sem espírito. É o ópio do povo”.

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