Muzak

Eu participei pela terceira vez do MPBeco e depois fiquei sabendo que um monte de gente não gostou de eu ter dado a nota máxima para Maguinho da Silva, o pseudônimo de Paulo Ricardo. Ora, eu já desclassifiquei Paulo Ricardo duas vezes neste mesmíssimo festival. Mas naquela noite ele estava ótimo. Soube através de amigos que alguns caras fizeram comentários desabonadores sobre a minha pessoa. Puxa como eu fiquei feliz de saber disso, pois só mostra que eu não sigo com a maré, a patuléia, os babacas de plantão. Eu tenho opinião própria, meus queridos. Nessa mesma noite eu dei notas baixas para amigos queridíssimos, como Nargélio e Wicliff, que é meu conterrâneo de Areia  Branca.

Aí Alex me ligou e disse que um cara lá, parece que estudante de jornalismo, tinha dito, “um tal de Carlos de Souza, que eu nem sei quem é”.  Puta que pariu, o cara estuda jornalismo em Natal e não sabe quem é Carlão. Tô fudido. Minha vaidade, que todos nós temos em variados graus, foi parar na lata do lixo. Bebi a água da sarjeta. Fiquei puto, mas depois deixei pra lá. Ora, vão se foder, bando de otários!

Eu escuto música desde a pré-adolescência. Era louco pelos caras da Jovem Guarda, até que um dia, um velho amigo veio e disse, escuta isso aqui. Eram os Beatles. Nunca mais tive juízo depois disso. Um outro grande amigo me mostrou um disco de Jimi Hendrix e aí eu me perdi completamente.  Foi como uma queda no abismo. Ou um vôo para o céu. Daí para Thelonius Monk, John Coltrane e Charles Mingus foi um pulinho de nada.

Um dia, uma menina me fez ouvir uma porra chamada música progressiva. Aí eu fui ler na revista Pop que aqueles caras estavam apenas reproduzindo Bach. Então eu caí de cabeça em Beethoven, Chopin e Mozart. Estava perdido de vez. Quando ouvi Rachmaninov pela primeira vez, pensei que meu coração ia explodir de tanta felicidade.

Mas antes, na minha juventude, eu ficava ouvindo as músicas que minhas tias gostavam de ouvir numa velha vitrola na casa de meu avô. Adorei ouvir Chico, Caetano, Gil  e Paulinho da Viola. Mas principalmente Wilson Simonal.  Eu sabia que por trás daqueles caras devia existir gente da mais alta qualidade e aí conheci Noel, Cartola e toda a velha guarda do samba. Descobri que música boa é como as estrelas no céu. É infinita. Não tem calculadora que dê conta. Os caras de minha geração e que conviveram comigo são do tipo que sabem distinguir muito bem Grafith de Miles Davis.

No final de semana fui para meu interior e procurei um bar em que eu pudesse encostar o carro perto da mesa e ouvir minha música em paz, bem baixinho. Impossível. Em todo canto que eu chegava tinha um cara ouvindo aquele tipo de música que serve para dançar, mas não sei porque sentam para ouvir. É assim, ó: um contrabaixo horroroso se sobrepõe ao resto. Você ouve uma percussão chata, monótona, com muitos breques, e lá longe um fiapo de naipe de metais. No meio uma mulher canta (canta?), grita como um ganso esganiçado. Eles chamam isso de forró. Para mim forró é Luiz Gonzga e Jackson do Pandeiro. Em todo lugar que você for tem essa porra de música (música?) tocando. Quando não é isso somos obrigados a ouvir Grafith. É uma toada marcada pelo contrabaixo, monótono, pesado, com letras chulas. Eu devia gostar dessa merda, pois sou louco por Rabelais, por aquela linguagem escatológica, sexual, destacando os baixos instintos, mas não gosto. Sinto que sou um exilado em meu próprio ambiente. Só posso ouvir minhas músicas no carro ou em casa.

Meu amigo Lula Augusto gosta de dizer que eu sou o tipo do cara que ouve de Odair José a Stockhausen. Elogio melhor impossível.

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Sobre feriasnoinferno

Meu nome é Carlos de Souza, mas todo mundo só me conhece por Carlão. Sou jornalista e andei escrevendo uns livros bestas. Vou continuar fazendo essa merda.
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5 respostas para Muzak

  1. Jarbas Martins disse:

    Isto é Natal, Carlão. Levianíssima.

  2. Karina Lanzillo disse:

    Meu Deus!! Ainda não tinha conseguido desvendar tão bem a índole de uma pessoa num texto como soube da sua neste acima, “Carlão”. As pessoas não têm noção de como ouvir tanta música boa faz de alguém uma pessoa melhor! Assim como eu devo ser muita boa, né!?? Afinal escuto música desde que tinha dois anos e meu vasto acervo inclui muitas das citadas por Vossa Senhoria.
    Talvez tenha havido inteligência demais para se entender o que estava em discussão.
    Se um jurado gosta de concorrente X, é um direito seu. Mas quem entende de música, sabe que nenhum daqueles concorrentes merecia notas baixas. Tampouco aquele que seria o vencedor na avaliação dos demais, não fosse sua suposta “imparcialidade” ao atribuir sua nota baixíssima. Boa-fé?… Mas deixa pra lá. Seu texto foi ESCLARECEDOR. Qualquer sombra de suposto desvio de conduta, prejudicando outras pessoas, está plenamente justificado e perdoado pelo seu extraordinário conhecimento musical. Que bom!! O RN agradece a suas justificativas! Ah, e os estudantes potiguares de jornalismo que desconhecem o consagrado CARLOS DE SOUZA… péssimo pra vocês, heim (isso prejudicará toda sua carreira)! Atualizem-se lendo seu texto, “Muzak”.

  3. “That’s just the way it is
    Some things will never change…”

    Pô, eu te conheço cara! hahahahaha E olha que eu moro nos “states”.

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