Selvagem

Olhei na prateleira de acrílico da livraria do shopping e lá estava o cobiçado livrinho. Walden ou A Vida nos Bosques, de Henry David Thoreau. Era um dia de nuvens negras, não no céu, mas sobre minha cabeça. Um sorriso maroto coloriu minha boca. Catei uns últimos trocados, separei o da cerveja e peguei o livro. Sempre quis ler esse danadinho. Agora leio devagar, pulando as partes chatas, moralistas, bolorentas e paro nas partes poéticas. Pulo os exageros e faço uma pesagem do que pode ser aproveitado. No fundo ajo como ele mesmo agiu com relação aos outros. Sem dúvida, eu já sabia o que Thoreau ia falar, antes mesmo de pegar neste livro, porque a vida inteira procurei praticar um pouco do que ele prega. Simplicidade. Se uma bota é confortável, então ela fica comigo enquanto durar. Não uso relógio, ouro ou pedras preciosas. Amo mais uma árvore do que um ser humano. Inconscientemente venho agindo assim desde minha adolescência, como seu eu fosse o jovem Christopher McCandless, aquele do livro Na Natureza Selvagem, que também rendeu filme, mas sem seus exageros. Walden também é o nome de uma distopia do psicólogo Skinner, que certa vez disse, “me dê um ser humano na infância que faço dele o que eu quiser”. Sim, claro que todo mundo viu logo o perigo que era esse tal de behaviorismo. Aldous Huxley já tinha avisado. George Orwell também. Ray Bradbury igualmente. De modos que leio Thoreau deliciado com sua extravagância, seu desprezo pela sociedade moderna e seus luxos desnecessários. “Eu não preciso de muito dinheiro, graças a Deus…” solfejava o divino Jards Macalé no meu toca-discos de antanho. Os hippies também amaram Thoreau, mas alguns viraram fanáticos e aí a merda deu na cintura. A barra pode estar pesada (agora nem tanto), mas eu tenho meu Walden dentro da bolsa para aliviar os dias. Choro pelos fluminenses arrastados pelas águas, mas cultivo o meu ódio pelos políticos que agrediram ou permitiram que agredissem a natureza e provocaram a catástrofe.

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Sobre feriasnoinferno

Meu nome é Carlos de Souza, mas todo mundo só me conhece por Carlão. Sou jornalista e andei escrevendo uns livros bestas. Vou continuar fazendo essa merda.
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4 respostas para Selvagem

  1. Jarbas Martins disse:

    Puta texto, Carlão.Já disse, por esses blogs da vida, que quando li suas primeiras crônicas senti inveja porque não dava pra imitá-lo.Também, com minnha cara de sacristão, nascido em Angicos, como podia ter esse seu charme underground? E esse seu estilo relaxado, exalando suor, birita, jazz,liberdade, gim, angústia?.Um abraço do fiel leitor e amigo.

  2. Que nada Jarbas, você é fera e sabe disso.

  3. FFF disse:

    Ainda lembro da minha revolta ao ficar sabendo que não se pode simplesmente ser, sem ter que pagar impostos, sem ter que declarar imposto de renda. Saber que não existe lugar no mundo que não seja controlado por uma nação, que impõe regras a quem não as quer, é revoltante. Com o aumento da velocidade da troca de informações e da globalização tá cada vez mais difícil sentir o gosto da utopia de Thoreau, McCandless (ótimo livro e filme), e outros.

  4. Alex de Souza disse:

    Cabeção, saiu uma tradução nova de Walden naquela coleção de bolso da L&PM, boa toda.

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