Chacrinha

Tive o prazer de ver no último final de semana o documentário Alô, Alô, Terezinha!, do cineasta Nelson Hoineff. Se existe um mínimo de vida inteligente no cinema brasileiro, o restante ficou neste filme de Hoineff. A câmera impessoal vai mostrando um desfile de pessoas com suas vidas destroçadas pela passagem na vida do apresentador Abelardo Barbosa, o nosso querido e inesquecível palhaço eletrônico Chacrinha. Quem da minha geração não bolou de rir com as performances deste gênio da comunicação nos finais de semana em que ele aparecia em nossa casa através da telinha? Mas as vidas daquelas chacretes, daquele calouros, cara… São de arrepiar. Demorei muito a dormir depois que vi aquilo, man. Quanta desgraça a ilusão da fama e fortuna podem trazer para a vida das pessoas! As pobres chacretes, coitadas, fingiam não ser tratadas como putas. Os pobres calouros, não todos, mas muitos ainda hoje carregam a dor da vergonha pública. Mas tudo bem, eles toparam sabendo que o humor sempre pode ser cruel. Ainda mais com um sujeito rabelaisiano como Chacrinha. Tem muita dor por trás daquele riso. Fiquei ao mesmo tempo chocado e divertido com aquilo tudo. Pessoas vivendo no passado, como se o relógio não fizesse sua trajetória diária pelo visor; pessoas vivendo ainda a ilusão do sucesso; pessoas com saudade dele (particularmente o assistente de palco Russo). Do outro lado, os bem sucedidos, todos muito agradecidos pela oportunidade dada pelo grande palhaço. Que filme da porra, meu! O que tem de poesia e realidade ali nenhum livro pode alcançar. Direção equilibrada, senso de humor, ironia fina, distanciamento, são algumas das qualidades do filme. Quando a chacrete que morou em Canoa Quebrada, com a memória detonada pela maconha, diz que jogaram uma bomba na lua, você tem vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. Quando a Índia Potira fica nua em praça pública. Quando a ex-caloura canta num karaokê… Como, nós, seres humanos podemos ser tão patéticos!

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Sobre feriasnoinferno

Meu nome é Carlos de Souza, mas todo mundo só me conhece por Carlão. Sou jornalista e andei escrevendo uns livros bestas. Vou continuar fazendo essa merda.
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3 respostas para Chacrinha

  1. Obrigado pela generosa leitura.

  2. Luana disse:

    Eu também estranhei aquilo tudo. Depois tive raiva porque a vida daquelas pessoas foi exposta de forma tão cruel. Depois pensei: poxa, é Chacrinha, é isso mesmo. A gente ri, e quando ri, dói.

  3. Laélio disse:

    Vosmecê, Carlão, é um indivíduo competente!
    Podes crer!

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