Paçoca de cinema

Semana intensa, de muitas estimulações cinematográficas. Primeiro uma entrevista com o filósofo Slavoy Zizek (foto), na Globonews, em que ele aparece ridículo, gesticulando muito, falando muito e com um tique nervoso engraçado, tocando o bigode, o nariz e os cabelos da cabeça ao mesmo tempo. O cidadão comum que vê um sujeito daquele falando na TV não vai levar a sério nunca. Ocorre que Zizek é a grande potência do pensamento lacaniano da atualidade (estou me preparando para ler seu livro Como Ler Lacan). Mas o que me chamou imediatamente a atenção foi mesmo a opinião que ele tem sobre determinados filmes. Titanic, por exemplo, que ele considera uma empulhação capitalista para enganar otários. Puxa vida, meus amigos, preciso deixar minha modéstia de lado, mas lembro agora que quando escrevia crônicas no Diário de Natal, há dez anos, coloquei o seguinte título numa crônica: “morra congelado, mas salve uma ricaça linda”. Pois é isso mesmo que Zizek diz. Uma moça rica e mimada em crise usa um pobretão para suprir suas carências e depois suavemente o empurra para o fundo das águas congeladas. Ora, vá para porra, cara! Vá enganar o caralho. Eu nunca embarquei nessas mistificações holywoodianas. Na época muita gente ficou puta da vida comigo, porque eu estava espinafrando o ganhador absoluto de Oscars. Em primeiro lugar, queria deixar claro de uma vez por todas: O Oscar não premia obras de arte, porra!Premia possíveis sucessos de público e ponto final. Pois bem, é difícil não rir concordando com as idéias de Zizek. Ele põe por terra toda a pretensão de intelectualidade que possa existir no mundo. Quando ele fala de religião, está falando para um público que entende o desenvolvimento daquelas idéias, gente como Pablo Capistrano. Não serve para a patuléia supersticiosa que tem medo da morte ou medo do desconhecido, que seja. É demais, esse cara. Principalmente quando defende queimar aquela porcaria de filme que no Brasil ficou conhecido como Noviça Rebelde. Depois vi o filme o Homem Errado, de Alfred Hitchcok, e fiquei ruminando quem nem um boi. O filme conta a história de um homem honesto que é acusado de um assalto, só porque umas mulheres histéricas o confundem com o verdadeiro assaltante. É um pesadelo kafkiano de fazer você roer as unhas. O filme é irritante porque é perfeito. O filme é perfeito porque é conduzido com mãos de mestre e vai se arrastando até a redenção final. O pior é ficar sabendo depois que nada daquilo saiu do cérebro privilegiado do velho Hitch. O filme é baseado em fatos reais. Quando eu pensei que já estava bem suprido de cinema, eis que vejo Estômago, de Marcos Jorge. Aí a paçoca estava feita, mano. Filmaço do começo ao fim. Nunca imaginei ver um Hannibal Lecter nordestino. Mais uma vez o ator João Miguel carrega um filme nas costas (já havia feito isso em Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes), como gostam de dizer os cinéfilos. Eu nem sou cinéfilo nem crítico de cinema. Gosto de ver filmes. Bem como não sou crítico literário. Sou um bom leitor, só isso. Estômago mistura sexo, gastronomia e violência numa panela bem temperada que não deixa você desgrudar os olhos da tela. O recurso de flashback é bem ritmado de modo a não deixar o interesse cair. O diretor não faz digressões psicológicas ou sociológicas que só servem para encher o saco do cliente. Não suporto esse tipo de cinema experimental que faz isso o tempo todo e torra minha paciência. Não quero dizer nomes aqui para não inflamar a íngua. Estômago vai direto ao ponto. Bem feito como uma buchada de bode com jerimum.

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Sobre feriasnoinferno

Meu nome é Carlos de Souza, mas todo mundo só me conhece por Carlão. Sou jornalista e andei escrevendo uns livros bestas. Vou continuar fazendo essa merda.
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3 respostas para Paçoca de cinema

  1. Sérgio Vilar disse:

    Estômago é phoda, mesmo. Assisti ontem Nina, de Heitor Dhália – claramente influenciado por Crime e Castigo, de Dostoiévski. Cada vez mais fico fã desse diretor.

  2. Sei, sei… O tique de Zizek naquela entrevista é bastante característica de hábitos aspirativos bastante populares entre os yuppies na segunda metade da década de 1980. Resumindo: se não tiver dado umas cafungadas antes da entrevista eu cegue!

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