Syara Minor

A manhã de domingo já ia alta e uma neblina suave cobria o Vale do Ceará-Mirim com um véu de noiva. Pensei, dia ideal para tomar um conhaque. Fui dirigindo lentamente até meu quiosque preferido e estacionei debaixo de uma algaroba. O dono do quiosque veio sorrindo e me avisou logo que não tinha conhaque, mas a cerveja estava bem gelada, pernoitada, com aquela camada fina de gelo na superfície. Aceitei a cerveja e perguntei se poderia ligar o som do carro bem baixinho para ouvir um disco de Altemar Dutra. Ele disse que sim, e foi logo me informando nas primeiras músicas que estava uma beleza aquele disco. A idéia de inserir vozes de convidados ao lado da voz de um falecido. Ah, sim, ele percebeu o truque da gravadora que repetiu o macete de Natalie Cole ao lado do pai. O dia estava ficando mais lindo com essa informação… Mas, na metade da audição um sujeito ligou o paredão de seu carro, a um quarteirão de distância de nós, “vai,vai,vai… pega na maromba!” Eu vi o desastre no rosto do dono do quiosque antes mesmo de ouvir a porcaria que infectava nossos ouvidos. “Eu queria tanto ouvir o resto desse disco…” lamentou ele, e eu respondi, puto, “eu também”.  Desliguei meu som, pedi a conta e fui para casa remoendo meu ódio. Chegando em casa escutei Altemar Dutra até cansar, até esquecer a raiva.Não entendo porque as pessoas gostam de transformar os ouvidos dos outros em latrina. Cada um ouve o que quer, mas obrigar as pessoas a ouvir sua merda, é demais. Depois que inventaram potenciômetros que transformam um simples carro popular em um trio elétrico, ninguém tem mais um fim de semana sossegado, ouvindo o que gosta. Pelo menos, em certos locais em Ceará-Mirim, não. Mas agora eu estava em casa e podia ouvir Altemar Dutra e depois Jim Morrison e mandar esses otários para a puta que os pariu. “This is the end, my friend”, cantava o Rei Lagarto. Lá fora caía uma chuva generosa e eu sabia que o vale a esta altura estava mais bonito ainda, mais lindo e mais verde. Eu estava feliz, cara.

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Sobre feriasnoinferno

Meu nome é Carlos de Souza, mas todo mundo só me conhece por Carlão. Sou jornalista e andei escrevendo uns livros bestas. Vou continuar fazendo essa merda.
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3 respostas para Syara Minor

  1. Jarbas Martins disse:

    pra você o mesmo comentário que fiz pro texto de jota mombaça: poesia e prosa (va)porosa

  2. joão batista disse:

    porra, carlão, demais!

  3. carito disse:

    pegar essa via dutra é altomar! uma dose de jim e ver-te que te quero verde vale do fim do mundo é logo aqui – ceará-mirim, terra do meu pai, que nasceu ali na rua da linha do trem… gosto dessas linhas de carlão tão bem, me fazem também!

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