Rascunho 3

Páris

O jornalista Páris de Souza já havia passado por todas as fases que a imprensa moderna havia passado, das máquinas de linotipo até as modernas off set; das máquinas de datilografia até os modernos computadores. Como jornalista de província começara fazendo reportagem policial em um jornal oficial que ainda operava velhos linotipos dos tempos da velha república. Ele era do tempo em que jornalistas eram intelectuais boêmios, principalmente boêmios.

Das poucas qualidades que este homem maduro, mas de aspecto surpreendentemente jovem, tinha era a beleza de um deus grego. Ele usava isso como trampolim para subir na carreira, nas camas das mais variadas damas da alta sociedade e em tudo que lhe fosse vantajoso. Páris era um canalha consumado. Seu grande sonho era conseguir sair dali para um jornal de um grande centro, fazer nome e, quem sabe, um dia ser correspondente internacional de um grande jornal ou televisão.

Naquela tarde modorrenta ele entrou na sala do diretor com cara de poucos amigos. O que é agora, homem de Deus? Que merda de matéria eu vou fazer nos cafundós de Judas? O diretor era um velho jornalista acostumado aos rompantes de diva operística de Páris e deixou que ele se acalmasse para lhe dar a notícia. Explicou que o delegado Aquiles Starace havia embarcado para o sertão no intuito de cercar a quadrilha de Heitor dos Prazeres. Ia ser uma guerra das grandes e o jornal precisava de um repórter experiente para cobrir o caso. Enalteceu a importância do assunto, acenou com possíveis prêmios e garantiu que lhe daria uma promoção caso a reportagem alavancasse as vendas do jornal.

Os olhos enevoados de tédio de Páris emitiram um brilho rápido, ao ouvir a palavra promoção, mas ele ainda fez beicinho exigindo boas acomodações, um carro, um fotógrafo e uma ajuda de custo que daria para ele ficar hospedado num hotel cinco estelas. Milagrosamente, o diretor cedeu tudo eu ele pediu, o que o deixou ainda mais com a pulga atrás da orelha, tem coisa aí.

Na manhã seguinte ele acordou cedo, preparou sua bagagem, tomando todo o cuidado com os produtos de beleza (parecia uma moça com esses cuidados), as camisas de grife, as calças, meias e os sapatos italianos. Arrumou a mecha de cabelo que caía na testa e piscou o olho para seu belo rosto no espelho. Logo ouviu a buzina do caro lá embaixo. Separou seu aparelhinho de som que fazia as vezes de gravador, deixou os headfones à mão, porque não ia aturar a conversa do motorista e o idiota daquele fotógrafo a viagem inteira. Páris não suportava o resto da humanidade.

No caminho ia olhando a paisagem, deliciando com a mistura de cores que iam do verde intenso no litoral, verde claro no agreste e verde-marrom à medida que se aproximava o sertão. O que mais o deixou inquieto foi ver a serra se aproximando. Aqueles paredões pareciam muros de uma cadeia que ia aprisioná-lo para sempre. Páris detestava a idéia de ser preso.

Outra coisa que o sufocava era a idéia de morar numa cidade do interior. Seu espírito fora forjado para as grandes metrópoles Adorava multidões, trânsito, shoppings. Seu sonho de cidade era Nova York e nenhuma outra. Cidades com menos de 10 mil habitantes o matariam de tédio em poucas semanas.

Foi com esse estado de espírito que ele chegou à pequena pensão onde ia ficar hospedado. É indescritível sua cara de nojo ao olhar ao redor. Ah, ia ser difícil atravessar aqueles dias. Mesmo assim, controlou sua natural arrogância e pediu um quarto para si e outro para o fotógrafo e o motorista. Questão de economia do jornal, explicou aos companheiros que mal o suportavam.

Imagine o ódio que sentiu ao saber que iria dividir um único banheiro com o restante dos hóspedes! Engoliu em seco mais essa restrição, tomou um banho demorado demais para os padrões da casa e foi para o quarto descansar um pouco antes do almoço. Pela janela viu a exuberância da vegetação nas abas da serra. Pelo menos isso, pensou, porque apesar de extremamente urbano, adorava parques e muito verde para os olhos e a alma.

Pegou na valise uma edição de capa dura de As Ilusões Perdidas, de Balzac e deitou na rede. Seu trecho preferido era aquele sobre jornal, que ele achava ser a coisa mais moderna e atual sobre sua profissão. E tinha razão nisso. Quando estava no melhor da leitura, foi chamado à realidade pela dona da pensão, avisando que o almoço estava servido.

Descuidadamente saiu com o livro ainda na mão e foi exatamente este detalhe que chamou a atenção do olhar de Helena que estava sentada na mesa à espera da sua principal refeição do dia. O olhar de Páris caiu sobre o corpo daquela moça como uma nuvem de chuva. Seus olhares se fixaram numa admiração mútua, comum aos seres humanos de mesma beleza, e um sorriso derreteu a geleira inicial. Com pouco mais estavam conversando sobre literatura, jornalismo e os problemas sociais da região.

De repente, Páris já não era mais o cara entediado que conhecemos agora há pouco. Conversador, charmoso, inteligente e já convidando Helena para dar um passeio pela região. Ela, todo sorrisos, dizendo que sim, logo na primeira oportunidade, sim, claro que sim.

Na parte da tarde o repórter baixou em Páris e ele foi visitar o delegado Aquiles. Foi recebido sem reservas, imagina, o homem adorava sair na imprensa. Conversaram a tarde inteira e o delegado não poupou informações. Só pediu a Páris que tivesse cuidando na divulgação de certos detalhes que podiam comprometer a operação.

Naquele mesmo dia, Páris escreveu uma matéria detalhada, destacando os aspectos geológicos, vegetais e sociais daquele vasto sertão e, é claro que o editor ao ler aquela profusão de palavras, lembrou de imediato sua edição de Os Sertões que ele guardava com carinho na estante de sua sala na redação do jornal. Só faltou começar a matéria com o subtítulo A Terra.

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Sobre feriasnoinferno

Meu nome é Carlos de Souza, mas todo mundo só me conhece por Carlão. Sou jornalista e andei escrevendo uns livros bestas. Vou continuar fazendo essa merda.
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2 respostas para Rascunho 3

  1. Jarbas Martins disse:

    Estou grudado nesta tua néonnarrativa, deliciosa mistura de Euclides da Cunha,Glauber Rocha, Sérgio Leone e cordéis televisivos. Vai lá, amigo Carlão.

  2. nina rizzi disse:

    faço minhas as palavras de jarbas. e eu quero esse páris, e aquele heitor. todinhos para mim, a ellena antropófaga de palavras.

    um beijo.

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