Rascunho 4

Cangaço

Era manhã alta em plena caatinga. Ao redor só se ouvia um e outro pipilar de pássaro aproveitando as negas de sol por entre a vegetação esparsa. No terreiro da casa um grupo de homens se reunia ao redor de uma trempe com um pedaço de carne de sol à espera do almoço. Súbito ouviu-se um crepitar de mato. Os homens ficaram atentos, aguçando os ouvidos. Então a manhã se transformou num inferno.

Do dentro do mato surgiam os homens de Aquiles pulando por sobre os galhos, disparando, as pistolas, os revólveres, os fuzis, as metralhadoras. Em meio aos tiros só se ouvia a gritaria e o pipocar da refrega. Os homens de Heitor, calejados de emboscadas, pulavam mato adentro, sacando suas armas e revidando os tiros.

Em meio ao tiroteio só ouvia por cima de tudo os berros enlouquecidos do delegado. As balas zuniam quebrando pedaços de matagal, cortando o vento, rasgando carnes, quebrando ossos e o terreiro ia ficando de repente salpicado de sangue. Quando cessou o barulho só se ouviam os gemidos de uma parte a outra.

Homens feridos se espalhavam por todo canto. Logo adiante, um corpo jazia sobre a cerca derrubada na correria. Depois de feito o levantamento, o delegado contabilizou três feridos de seu lado, cinco feridos e um morto do bando de Heitor. Depois de amarrados e enfileirados no terreiro os feridos foram submetidos a um demorado interrogatório.

Aqueles mais renitentes que se recusavam a falar tinham seus ferimentos pisoteados pelo delegado. Ao final, o dono da fazenda foi o mais torturado. Ele se recusava a dizer onde estava o chefe do bando, o famigerado bandido Heitor. Ah, o homem apanhou que ficou mole, mas não abriu o bico. Quando a paciência de Aquiles finalmente se esgotou, veio o desfecho fatal: o homem foi executado friamente com um tiro na nuca.

Toda essa selvageria nem podia ser comemorada pelo delegado, porque ali só estava a arraia miúda do bando. Os graúdos escapuliram pelo meio da mata e era francamente impossível encontrar aqueles homens num ambiente que eles conheciam a fundo. Qualquer grota, qualquer beirada de rio servia de refúgio para aqueles cangaceiros modernos.

Aquiles Starace praguejou muito e deu a ordem para embarcar os prisioneiros nos carros fechados. Os mortos iriam na caçamba de uma picape. Ele não parava de resmungar que aquilo não era nada, era só um combate, a guerra só estava começando. Um homem de seu esquadrão perguntou o que fariam com os prisioneiros feridos.

Podiam ser executados ali mesmo. Mas o delegado não concordou. Precisava interrogá-los com mais tempo. Decidiu levar todos antes para o hospital, depois para a delegacia. Ademais, alguns de seus homens também estavam necessitando de atendimento médico.

Heitor só ficou sabendo da refrega dois dias depois, quando os primeiros homens dispersos no tiroteio foram chegando ao seu esconderijo. No dia seguinte organizou um conselho para decidir novas estratégias de defesa e ataque.

Anúncios

Sobre feriasnoinferno

Meu nome é Carlos de Souza, mas todo mundo só me conhece por Carlão. Sou jornalista e andei escrevendo uns livros bestas. Vou continuar fazendo essa merda.
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s