Rascunho 7

Torquemada

Ele nunca leu Nabokov. Tomás foi um menino de uma família de classe média baixa de uma grande cidade nordestina que, desde cedo, sonhou em ascender socialmente. Dadas as condições em que foi criado, uma mãe católica extremamente possessiva e um pai relapso, funcionário público muito pouco interessado na educação do filho, suas opções não eram muitas. No auge da adolescência, percebeu que não tinha a menor vocação para coisa nenhuma, além de ser um carola contumaz, comedor de óstias, apreciador da liturgia, completamente desinteressado por sexo com as meninas de sua idade. Certo dia notou que gostava muito da companhia de crianças. Puxa, na vizinhança, adorava dar banho nos filhinhos das vizinhas de sua mãe. Que menino delicado, atencioso, diziam elas. Foi assim que ele começou a sentir um volume sob a calças a cada atividade dessas. Acariciar crianças lhe causava um prazer sexual indescritível e foi assim que ele descobriu as delícias da masturbação. Tomás nunca ouvira falar na palavra pedófilo.

Quando concluiu o ensino médio ficou meio atarantado, sem saber que caminho seguir e foi sua querida mãe que lhe apontou o caminho do seminário. Ela usaria suas influências com o pároco de seu bairro para lhe conseguir uma vaga. Naquela noite mal conseguiu dormir, imaginando os horrores de dividir um quarto com um bando de rapazes de sua idade. Assim como detestava o sexo oposto, ele também odiava homens de sua idade.

Mas aceitou o destino e abraçou a carreira eclesiástica. O período de seminarista foi até relativamente calmo. Estudava só o suficiente para ser aprovado nas disciplinas. Nunca se interessou de verdade para aprender aquelas coisas. Queria era ser consagrado padre e ter a garantia de uma vida tranquila, uma boa casa para morar, proventos e até um carro. Melhor ainda, quando pensou na multidão de meninos que iria ter acesso quando lhe fosse designada uma paróquia… Dormia sonhando com querubins.

O dia de sua primeira missa foi de júbilo! Ao seu lado, por toda a igreja, meninos louros, morenos, magros, gordos, baixos, altos. Tomás teve certeza que estava no céu. Leu um lindo sermão, que escrevera na noite anterior, sobre as virtudes de ser criança. Terminava dizendo, “Jesus disse, vinde a mim as criancinhas!”

Não demorou muito e foi designado para uma paróquia no sertão. Lugar tranquilo e aprazível, onde gozava de grande prestígio na comunidade. Logo começou a planejar seus ataques. Primeiro uma carícia, seguida de um presente. Ia estudando a reação de cada um. os mais ariscos eram logo descartados. haviam os mansos, os tolos. Aqueles eram cobertos de presentinhos, pequenas lembranças, que ele ia distribuindo conscenciosamente. Assim foi conquistando carícias cada vez mais ousadas, até chegar ao clímax.

Muitos meninos foram seduzidos dessa forma, e a maioria preferia silenciar, primeiro para não sofrer as consequências da discriminação social, segundo para poder seguir suas vidas em paz. Alguns até gostaram daquilo e pautaram sua opção sexual de modo que melhor lhes aprouveram. Mas sempre havia algum menino que reclamava em casa ou com amigos. Aí começaram os problemas para padre Tomás.

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Sobre feriasnoinferno

Meu nome é Carlos de Souza, mas todo mundo só me conhece por Carlão. Sou jornalista e andei escrevendo uns livros bestas. Vou continuar fazendo essa merda.
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3 respostas para Rascunho 7

  1. Anchieta Rolim disse:

    …Jesus em prova de humildade
    lavou os pés de uma prostituta
    tem gente que prega em seu nome
    lava o corpo de uma criança e depois a desfruta…

    Carlão, tô aqui pelo Cristovão, vê se aparece homi sumido

  2. Jarbas Martins disse:

    tesão de texto, Carlão.tesão franciscana.

  3. Descobri o blog por um acaso (será que isso existe mesmo?!) e fiquei encantada pelo estilo, pela organização, o processo (todos passam por isso!) e qualidade dos argumentos! Voltarei. Abraço

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