Rascunho 20

 

Drogas

Na verdade, Heitor nunca se preocupou com o pequeno tráfico de maconha na região. Seus próprios homens usavam cannabis sativa em sua presença sem causar qualquer aborrecimento. O que incomodava ao moderno cangaceiro era o crescente tráfico de drogas pesadas que começava a tomar conta das pequenas cidades do sertão. O tráfico de cocaína estava crescendo nas classes mais abastadas, filhos de fazendeiros e comerciantes adicionavam cada vez mais ao whisky nas suas festinhas e vaquejadas, o famigerado pó boliviano. Depois, começou a surgir nas classes mais baixas um tipo diferente de drogado que consumia um sub-produto da cocaína, mais conhecido como crack. Uma espécie de zumbi esmulambado começou a circular pelas ruas daquelas cidades honoráveis. O número de roubos aumentou exponencialmente; depois a violência explodiu com um número assustador de assassinatos por causa de dívidas com o tráfico.

Aquilo irritou profundamente Heitor dos Prazeres que iniciou imediatamente uma estratégia de ataques aos traficantes locais. Uma tática que só poderia acabar em guerra. O mais curioso nisso tudo é que tal situação esdrúxula agradou e muito o delegado Starace. Agora, ele podia explorar o lado fraco de seu inimigo nessa guerra sem vencedores. O bando de Heitor estava atacando os traficantes em suas próprias bases e o confronto não era nem um pouco desigual. Os traficantes também estavam fortemente armados e isso transformou a região num verdadeiro caos. O sertão não virou mar. Virou um inferno.

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Sobre feriasnoinferno

Meu nome é Carlos de Souza, mas todo mundo só me conhece por Carlão. Sou jornalista e andei escrevendo uns livros bestas. Vou continuar fazendo essa merda.
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4 respostas para Rascunho 20

  1. Jarbas Martins disse:

    Olha, Carlão adoro este teu folhetim.Não perco um dos teus rascunhos. Deliciosos.Onde os comentários dos críticos mais qualificados do que eu ? Eu não sou de criticar narrativas.O que faço aqui é rastrejar a tua poeticidade.Basta-me. Tenho uma minúscula, uma bobagem de observação a fazer. Por que o adjetivo moderno ao referir-se ao cangaceiro ? Tá na cara que ele é pós-moderno. No grupo de Lampião, por sinal, tinha um cangaceiro de nome Moderno.(Cf. o livro “Guerreiros do Sol”. de Pernambucano de Melo, publicado pela Fundação Joaquim Nabuco). Claro, chamar o cangaceiro de pós-moderno soa ainda pior. Bom mesmo é retirar o adjetivo. Mas quem sou eu, Carlão, pra te ensinar essas coisas…Abração, camarada.

  2. tem razão, meu querido jarbas. vou retirar agora. mas preciso contextualizar esse cangaceiro. preciso de um adjetivo. me ajude. que tal “cangaceiro da era moderna”?

    • Jarbas Martins disse:

      gostei, Carlão. o conceito de “era” é bem abrangente, remete a um tempo mítico. já pensou se no futuro estes nossos pobres tempos, em que que vivemos, passasem a se chamar “era do personagem Heitor dos Prazesres”, ou “era Carlos de Souza” ou “era do leitor Jarbas Martins” ? abraço, amigo Carlão, do seu devotado leitor.

  3. João disse:

    “O sertão não virou mar. Virou um inferno.” É ótimo!

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