Rascunho 21

Jornalismo

Há muito que Páris gostaria de marcar uma entrevista com Heitor dos Prazeres, mas o bandido não era fácil de ser contactado. A única saída era andar pelo mercado público, pela feira semanal e sair dizendo a tudo mundo com cara suspeita que se queria falar com ele. O estratagema acabou dando certo, porque um diz, ele estava sentado num banco de praça no centro da cidade, quando viu uma picape se aproximando lentamente. De dentro pularam dos cabras de óculos escuros e com os cabos da arma aparecendo sob a camisa. Ele gelou, pois percebeu na hora que seu pedido de entrevista havia sido aceito. Ou coisa pior.

A camioneta embrenhou-se pela mata buscando as picadas mais estreitas, desembocando em clareiras de desertos quase infinitos para depois cair em um emaranhado de vegetação rasteira, típica do semi-árido nordestino. Depois de muita poeira na cara e a sensação de estar andando em círculos, o carro pegou uma estradinha estreita que terminava numa cancela e uma casinha lá no fundo, cercada de algarobeiras. Era o esconderijo do bicho brabo.

Ele recebeu Páris no alpendre, sentado em uma rede, nu da cintura pra cima, desarmado, estendendo a mão para o tamborete em frente. Uma mulher trouxe um copo de suco de cajá com pedras de gelo boiando, o dia estava muito quente. Páris perguntou se podia ligar o pequeno gravador MP3 que sempre trazia no bolso da calça e foi informado que sim, podia sim, gravar a conversa.

Quando o sol começou a se esconder para as bandas da serra, já era quase noite. O visitante foi convidado a ficar para o pernoite, mas agradeceu a gentileza e disse que preferia voltar o quanto antes. Em sua mente, Páris já se via deliciado, enviando a matéria de seu notebook para o jornal que ficaria com a última página aberta à espera de sua entrevista. Ia ser um estouro, sorriu consigo, imaginando a cara de ódio do delegado quando abrisse o jornal de manhã.

A picape embrenhou-se de novo pela caatinga de volta e Páris até pegou no sono de tão tranquilo que estava. Quando chegaram na praça novamente, foi acordado pelos homens que se despediram sem uma palavra sequer. Ele pensou, vou botar pra lascar…

 

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Sobre feriasnoinferno

Meu nome é Carlos de Souza, mas todo mundo só me conhece por Carlão. Sou jornalista e andei escrevendo uns livros bestas. Vou continuar fazendo essa merda.
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Uma resposta para Rascunho 21

  1. carlaodesouza disse:

    Reblogged this on feriasnoinfernodotcom.

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