Cidade dos Reis

Tua prata virou borra,

o teu vinho ficou aguado!

Teus chefes são corruptos,

sócios dos ladrões”.

(Isaías, 1,22 )

1

O menino nasceu no dia em que a cidade amanheceu chorando, no dia mesmo em que serraram pelo tronco a velha gameleira da Praça do Mercado, o primeiro de uma série de crimes que os filhos da terra iriam perpetrar através dos tempos e tempos para a ira de Deus e a glória dos homens, amém. Fazia sol, como sempre, e era verão, pois por aqui, abaixo da linha do Equador, inexistem as quatro estações. Ou é inverno e chove até sangrarem os açudes ou é verão e o sol cresta a terra, vincando-a de rugas como nas faces dos homens e das mulheres que envelhecem feito couro curtido.

Mas há também quem diga que isso é sina de quem nasceu a nordeste do Éden e que o melhor é esquecer e deixar que a secura da terra lixe as páginas do tempo. Por muito menos que isso foi que nasceram as grandes obras da saga nordestina.

De nossa parte vamos tratar aqui de um modo de vida bem diferente, de uma maneira de viver ribeirinha, marítima, infensa aos rigores da seca.

Porque por estes lados o sol brilha quase o ano inteiro. Mas não por isso é motivo de calamidades. O sol aqui é motivo de festa e praia. Por isso, no futuro, vão apelidar esta pobre província com o pomposo nome de Cidade do Sol. Mesmo sabendo que nem sempre é assim.

Por aqui o céu fica turvo de vez em quando no litoral atlântico sempre que o mar esquenta para as bandas de Fernando de Noronha, a ilha que já foi nossa, e o vento empurra as nuvens pelo litoral adentro. O que alivia, às vezes, é uma brisa suave que vem sussurrando sobre o mar e vai varrendo com paciência as colinas e planícies atapetadas de uma vegetação lasciva, herança da Mata Atlântica que foi quase toda devastada pela estupidez dos homens.

A mãe do menino, Heloísa Camarão, leu ainda na cama de parto um trecho da Bíblia, escolhido ao acaso. Foi folheando e passando os dedos sobre as folhas sedosas e parou no Livro de Jonas. Então decidiu: vai receber o nobre nome de Jonas Felipe Camarão e, embora este filho legítimo das terras potiguares não ostentasse o brasão e as armas do guerreiro, comandante dos campos de guerra, exterminador de batavos, voraz comedor de camarões, trazia lá o seu garbo. Sim, Felipe, o Imperador dos Camarões, aquele que entregou suas terras aos portugueses para não entregá-la aos holandeses, porque como todos sabem, o herói é aquele que sabe escolher melhor o seu lado. Cada homem tem seu preço, diz o dito popular. Afinal, dá no mesmo ser escravo de um ou de outro… Então, podemos dizer que começamos bem.

Quis o destino que a criança nascesse no primeiro dia do século XX, no primeiro arruado que dá para o poente, uma fieira de casas debruçadas sobre o Rio Potengi, ali nos arredores do que ficaria sendo chamado de Cidade Alta. O rio que escorre lá embaixo rumo ao mar, suas águas faiscando ao sol, o verde do mangue borrando o azul das águas, onde ainda não havia a merda da cidade empesteando o mar, o velho rio que a todos acolhe e todos sentem um imenso prazer em cantar. Hoje se contentam em despejar dejetos imundos em suas águas, diriam alguns mais cínicos, porque este é o objetivo do progresso.

Por essas e outras, o menino apoquentava a todos com perguntas intermináveis, assim que aprendeu a falar. Na sua mente ia se formando todo um mundo de antigas aldeias indígenas para além dos mangues. E mais além, um deserto povoado por bichos e capitães do mato, armados até os dentes, todos nascidos das histórias que seu avô contava, enquanto balançava a rede e o fazia adormecer. Dava-se por contente com isso.

Um dia ele vai perguntar ao professor quem colocou aquele galo de bronze ali.  Foi o governador, capitão-mor Caetano da Silva Sanches quem deu este galo de presente à paróquia de Santo Antônio e morreu logo em seguida. Morreu? Mas morreu como? Morreu de estupor, meu filho, assim sem mais nem menos, de uma hora para outra, pluft. Um dia um raio caiu sobre o galo e rachou a torre, mas o bicho não morreu não. Voltou para o mesmo lugar e continua lá observando a cidade como se fosse um mau agouro.

Assim o galo será uma espécie de emblema no imaginário dessa gente, que sempre vai encontrar um jeito de homenageá-lo como uma lembrança persistente do galo ibérico (o poeta Luís Carlos Guimarães vai cantar: “Galo sem terreiro, cúmplice da solidão circundante dos telhados”) e os boêmios do Beco da Lama vão erguer brindes a este símbolo eterno dos madrugadores… Ninguém vai prestar muita atenção depois.

Foi não foi, a mãe pegava a Bíblia e lia um trecho ao acaso, quase sempre do profeta Jonas, seu predileto. Seu avô preferia o profeta Isaías porque, dizia ele, era um homem das antigas, que sabia falar contra uma cidade: “Ah! Gente pecadora, povo carregado de crimes, geração de malfeitores, filhos degenerados!” Assim o menino cresceu, botando muito pouca fé na humanidade e acreditando muito na força das palavras. Sem precisar saber de Karl Marx e suas teorias básicas da luta entre oprimidos e opressores, ia conhecendo as durezas do caminho. E o termo “luta de classes”, que iria ouvir no futuro, jamais lhe satisfaria plenamente. Tendo a base de sua formação no discurso religioso, tudo o mais passava pelo crivo do meramente prosaico.

Natal cresceu feito uma porca dando cria aos filhotes debaixo do céu que nos protege. Esparramada, desleixada, se espojando em sua pocilga, enquanto iam chegando, aos montes, centenas de retirantes oriundos de toda parte, multidões de praieiros, agricultores e desvalidos expulsos de suas terras pela fome ou pelos fazendeiros ricos. “Como foi que se transformou em prostituta a cidade fiel, possuída pelo direito? Nela, quem morava era a justiça, agora são os assassinos”. E por aí vai, pois quem busca nas palavras sagradas uma explicação para tudo sempre vai encontrar algo que lhe caiba sob medida. Daí a facilidade com que muitos canalhas enganam os mais tolos comercializando a religião.

Muitos chegavam aqui na busca de oportunidades melhores, nessa vila que crescia lentamente, apostando tudo no comércio facilitado pela localização da cidade, numa foz entre o rio e o mar. Sempre havia mais pobres do que ricos e por isso a cidade foi se moldando às circunstâncias. Circunstâncias essas que faziam com que os mais pobres ocupassem as beiras de praias, locais considerados então indignos pelos moradores da Cidade Alta. Assim, as gentes mais simples foram ficando em torno de Santos Reis, Praia do Meio, Mãe Luiza e Ponta Negra. No futuro, a situação toda vai se inverter e os pobres serão empurrados para longe, quando os ricos perceberem que é muito melhor morar de frente ao mar.

Os poderosos da política, do comércio e das finanças eram os senhores absolutos da terra, como sempre foi na história do mundo. E se houve alguma mudança, na passagem de um século para outro, foi muito mais por susto do que por destino. Seus habitantes conheceram os primeiros bafios da modernidade quando passaram a entrar em contato com os rudimentos da República, a velha senhora criadora dos votos de cabresto e seu secular curral eleitoral, costume arraigado na política nacional e que ainda hoje perdura.

Antes, porém, vamos viajar no tempo. Vamos voltar aos primórdios da colonização para entendermos melhor o que veio depois, afinal isso aqui nem é romance, repito, nem livro de história, mas uma conversa de beira de calçada apenas.

O acalentado sonho de um dia ser cidade europeia – a exemplo da capitania de Pernambuco, Recife, com suas pontes e casario colonial, sobrados & mucambos, casa-grande & senzala – foi logo enterrado pela realidade crua da colonização. Natal não conseguiu ser a Nova Amsterdã que queria ser e se contentou em ser mera quinta lisboeta, uma fazendola portuguesa sem vocação para nada, um cisco no olho do conde Maurício de Nassau, uma fazenda iluminada à luz da civilização ocidental.

Logo, o menino aprendeu as primeiras letras, primeiro com a mãe que lia a Bíblia todos os dias para ele e ia ensinando o som e o significado de cada letra. À noitinha, ficava na mesa da cozinha, soletrando cada palavra daquele imenso livro, tão cheio de histórias, sangue, ira e traições.

Depois a mãe o colocou numa escola que ficava logo ali na esquina. Uma sala da casa de taipa do professor Juca Guiné, um solteirão apaixonado por livros. No meio da sala se estendia uma grossa mesa de jacarandá, escurecida pelo tempo, onde se acotovelavam os alunos. Na parede pendia uma palmatória de madeira grossa e escura, dura férula disciplinadora.

O restante da casa era todo tomado por estantes de madeira rústica, repletas de livros em cujas lombadas os alunos se perdiam em devaneios. Não conseguiam entender como uma pessoa podia ter lido tantos livros. Para que serve tanto livro, meu Deus? O povo na rua dizia, ele vai ficar doido de tanto ler. O menino olhou estupefato com a sabedoria do professor e perguntou, o senhor já leu todos esses livros? Ninguém lê tantos livros, meu filho, mas há pessoas que não conseguem viver longe da companhia de tão preciosos companheiros. Junto deles é possível fazer viagens impossíveis e maravilhosas, pescando baleias pelos mares do planeta; convivendo com anões e gigantes; percorrendo os caminhos da Espanha para combater moinhos de vento; invadindo uma cidade na barriga de um cavalo de pau; navegando amarrado ao mastro dos barcos para não escutar sereias…

Para essa pobre criança, o mistério permaneceu até que um dia resolveu também viver na companhia dos livros. A paixão de Juca Guiné pelos livros era tanta que ele preferia passar fome a não poder adquirir qualquer novidade que chegasse, nos mais das vezes, em lombo de burro ou raramente nos navios paquetes que chegavam à cidade.

No entanto, por essa época, ao invés de olhar para as letras dos livros, Jonas preferia olhar os astros no céu. Foi na escola de Juca Guiné que aprendeu a amar a lua. E digo logo o porquê, apressado leitor, é que nas tardes em que a lua cheia assomava no nascente por sobre os telhados das casas, ele preferia deixar seu olhar perdido na superfície esburacada do astro a prestar atenção às aulas de gramática, retórica e matemática. Quase sempre era acordado de seu enlevo por um súbito estalar de régua sobre a mesa e instado a decorar a tabuada e o beabá.

Apesar de ser aparentemente cansativo, o que o menino mais gostava era dessas aulas de história (note que Juca Guiné tinha uma especial preferência por história potiguar), tragédias como a dos massacres de Cunhaú e Uruaçu, Ferreiro Torto, Guerra dos Bárbaros, Guerra Holandesa e outros fatos sangrentos da história potiguar que ficaram guardados para sempre nos livros empoeirados das estantes.

Os homens, através de toda a história, sempre sentiram prazer em promover massacres, dizia o professor. Isso está no centro da alma escura da humanidade e o mal sempre estará presente quando o bem ameaçar sua supremacia.

Ao sair dessas aulas o menino vagava pelas ruas da cidade olhando o movimento de aguadeiros, vendedores, pregoeiros, mendigos e a populaça em geral. Caminhava pelas ruas de areia pensando na tal maldade humana, mas sem entender direito, pois ao seu redor existia tanta gente boa como Juca Guiné, a mãe, o pai e o avô…

2

Havia aquela história dos quatro cavaleiros do fim do mundo e um deles trazia a peste consigo.

Um dia a peste chegou a Natal.

Diz-se que morreu gente como o diabo, uns vinte por dia, as casas fechadas com seus enfermos, as piras de bosta de vaca sendo queimadas para incensar as ruas, os defuntos levados em redes para o cemitério. A sorte é que chegou o padre João Maria, que saía em seu burrico, de casa em casa, cuidando dos doentes. Foi um tempo difícil e a mãe de Jonas conta com um fio de choro na voz, não sei como essa criatura escapou da peste meu Deus, era tanta gente doente que não se podia nem andar nas ruas.

No mais, ele ia crescendo no meio do alvoroço da infância, brincando com barro, pedacinhos de ossos, madeira, garrafas de vidro a guisa de gado, gravetos para fazer o curral. Tudo que encontrava no chão do fundo de quintal era brinquedo. Quando olhou para o mundo, viu que tudo era bem grande, alto e largo para suas medidas de menino. A mesa da cozinha, o quintal, as árvores, a rua, tudo era imenso demais.

Havia a história de um deserto a ser atravessado pelo povo escolhido.

Um dia chegou a seca no sertão.

Os olhos esbugalhados do menino viram a imagem de uma estranha procissão de pessoas andrajosas passando na frente de casa. O comércio todo estava fechando as portas, as mães chamando os filhos para dentro de casa, pessoas batendo as portas da frente. Eram os retirantes.

A seca será sempre um espetáculo ruim de ver, ruim de descrever, ruim de esquecer, meu caro. Quem mora nas cidades perto do mar não sabe dos horrores que ardem no deserto espinhoso das caatingas. Não há palavras que possam descrever melhor tal inferno do que as de Graciliano Ramos, Euclides da Cunha, Rachel de Queiroz e João Cabral de Melo Neto.

Ausência de água, gado morto na paisagem seca, pessoas esquálidas caminhando sob a poeira com olhos estupidificados pela fome e incompreensão do motivo de tanta ira divina. Somente Cândido Portinari para mostrar tal coisa com tanta força de expressão. O pior de tudo isso é que essa imagem se fixou de uma vez por todas como a face do Nordeste no imaginário brasileiro. É como se a tela de Portinari ficasse gravada para sempre em nossa mente,como se os filhos de Canudos fossem obrigados a se espalhar pelo país afora feito os filhos de Caim que se espalharam pela terra para sofrer em uma diáspora de deserdados fadados a encobrir suas feridas para não causar vergonha aos outros. Viver neste lugar era arrastar o esqueleto pelas caatingas, acompanhado de um cachorro magro, a mulher e os filhos sem a esperança de chegar a lugar nenhum algum dia. Vidas tão secas, vidas tão severinas.

Fora isso, o restante das lembranças ia pedindo de empréstimo ao avô, um velho contador de histórias que quando não conseguia se lembrar de todos os detalhes acrescentava alguns de sua própria lavra, como se a mentira não fosse algo tão precioso. É assim que fazem todos os bons contadores de histórias, não é mesmo? Ah, a memória vai se estragando quando o tempo chega, viu? Misturam-se coisas, inventam-se outras, mas no final a gente sempre acaba remendando essa rede puída da memória, colocando outras coisas em seu lugar, retirando algumas, acrescentando outras.

É assim mesmo, sim senhor, desse jeito manso que se vai levando a vida assim, que nem carro de boi: um passo adiante do outro, pisada de jabuti, farsa da boa preguiça, gemido de roda na areia quente, nhénhénhénhém… E o diabo passando a mão na bunda, cão tinhoso chupando manga, cramunhão coçando o saco… Cruz, credo! Não vamos falar no nome do capeta não, pois senão ele vem e toma conta da gente como aquele demônio que quis tentar Jesus por 40 dias no deserto ou aquele que quis enrolar o Fausto e saiu enrolado ou aquele que apostou com Deus o destino de Jó. E o avô ia desfiando histórias, enquanto se ouvia lá dentro o martelo de bater carne amaciando alguma chã de fora para o almoço, carne de sol com macaxeira e esse parecia ser o melhor momento do dia ou era depois? Com a rede estendida na latada olhando o Potengi ao longe antes do sono da tarde.

Os dias iam passando lentos e bons até que um dia Jonas ouviu os primeiros barulhos do entrudo, pois era época de carnaval. A mãe ia lhe explicando, pouco antes de você nascer, o chefe de polícia Chico Farofa proibiu o entrudo de água e massas, sabe? Era o carnaval da gente humilde aqui da cidade. As pessoas saíam jogando água nas outras e soltando pilhérias, era uma farra. O caso é que, no princípio, esguichavam água perfumada e atiravam farinha de trigo, depois foram substituindo por urina e areia e aí muitas brigas aconteciam. Após o carnaval, a cidade toda se aquietava à espera da quaresma. Eram dias de expiação, de medo do demônio, do temor de Deus. Todos iam para a igreja para se lavar dos pecados. Era católico por destino, não por escolha, nascera em uma família católica e por obrigação observava os ritos. É preciso acrescentar que, na maioria das vezes, sem muita convicção, é claro, pois menino obedece sem pensar. O problema é que ele era um garoto perguntador, curioso e isso não dá certo quando se trata de doutrina, de dogma, pois nada precisa de justificação, basta o que já foi revelado. Tal problema iria se agravar com o passar do tempo na cabeça do menino.

Ele cresceu ouvindo essas histórias e cuidando de adequar sua crença a algo que satisfizesse suas necessidades. Cresceu indo à missa com a mãe, olhando aquele homem ensanguentado sobre a cruz, sentindo o cheiro das velas, do breu, da alfazema e dos morcegos dormindo na torre do sino. Gostava da aspereza das mantilhas, do barulho cadenciado do descaroçar dos terços, das vozes sussurradas na oração. Sentia os joelhos doloridos sobre a tábua e pedia a Deus perdão por ser um pecador. Ah, tinha muito medo daquele Deus, aquele ser imenso que detinha os poderes sobre o universo. Só que, como a maioria, ele misturava tudo, não entendia direito o mistério da Santíssima Trindade. Se Jesus era filho de Deus, então era Deus também? Devia ser, pois sua mãe pedia que a mãe de Deus rogasse por nós. E Maria era a mãe de Jesus.

Depois, a religião passaria a ser para ele uma vazia série de rituais e deveres a serem cumpridos, sem qualquer explicação racional e que foram perdendo a graça com o tempo. De resto, não havia muita escolha. Heloisa queria que, quando o filho crescesse, fosse padre. Mas o menino queria era ser comerciante como o avô e o pai. Ouvia os rompantes da mãe, tem que rezar muito para se lavar dos pecados do mundo, e que tratasse de adquirir um pouco de cultura para não ser um rude, um tapado, um capiau como a maioria dos garotos da rua. Ele ouvia a tudo em silêncio, mas não queria ser padre, não. Um dia perguntou ao professor Juca Guiné se ele acreditava em Deus. Qual não foi a surpresa do professor, apanhado assim de calças na mão, sem saber responder direito a uma pergunta tão delicada. Ora, menino, você ainda é muito novo para entender, mas saiba que todas as religiões são puras invenções da mente humana. O homem nasce sozinho, nu, com frio e geralmente com uma forte pancada na bunda. Vai passar o resto da vida buscando um amparo que não esteja ao alcance da de sua pobre vida mortal. Corre alucinado na busca do divino. Então, como é que eu posso dizer que Deus existe ou não existe se ele é o espelho do homem? Se eu acredito? Alguma coisa misteriosa deve estar acima dessas nossas vidas miseráveis, caso contrário seríamos meros fungos sobre a face da terra. Alguma força, alguma energia divina deve ser responsável por este nosso sopro vital, essa eletricidade que rege nosso cérebro. Mas aquele deus barbudo… Deus dos católicos, sei não. Acho que é só uma bela invenção literária do autor ou dos autores do Deuteronômio… Agora, não sei o que Jesus Cristo tem a ver com isso. Que grande reformador da religião judaica! Um gênio pobre pregando o amor pelo semelhante… Ora, cristãos, cruzadas, inquisição, genocídio, guerras… sei não… A partir daí o menino não entendeu mais nada do que o professor estava falando.

A mãe costumava colecionar versos, quando a maioria das mulheres de sua condição preferia acumular utensílios domésticos. Costumava sentar na varanda de casa para ficar lendo Camões. Mais tarde aprendeu a gostar de Auta de Sousa, uma jovem poetisa que tivera a sorte de ter seus poemas lidos e apreciados por Olavo Bilac, o mais famoso poeta da sua época. A poetisa faleceu no primeiro ano do século com alguns livros publicados. O professor Juca Guiné, sabedor desse suave passatempo da mãe de seu aluno renitente, passou a frequentar a casa dos Camarão. Entre uma xícara de café e outra soltava seus comentários. Sabia que saíram críticas favoráveis a Auta de Sousa na imprensa do Rio de Janeiro e São Paulo? Heloísa ria dessas futilidades da vida literária e pedia para que o professor lesse mais um verso da poetisa de Macaíba. Contam que, ainda mocinha, a poetisa pegou o filho do Coronel Cascudo e Dona Ana no colo e o choro do menino cessou. Ela o acomodou ao peito, balançando-se na velha cadeira e, cochichando poemas em seu ouvido, fez o menino dormir. Verdade ou mentira? Se não for verdade, que seja agora pelo menos. Será que ela já sentia a respiração pesada, opressa de desgostos, a morte espreitando no sereno? Será que pensava no homem que se fora? Pensava nos entes amados que morreram? Auta de Sousa amou muito. Amou o jovem forasteiro rejeitado pelo irmão Henrique Castriciano. Sofreu com a morte dos pais e do irmão consumido em um incêndio provocado por uma lamparina. Talvez ouvisse estrelas como Bilac, parece que sim, pois escreveu: “Estrelas fulgem da noite em meio. Lembrando círios louros a arder. Eu tenho a treva dentro do seio… Astros! Velai-vos, que eu vou morrer!”. O mestre Câmara Cascudo lembraria tempos depois, com toda ternura, os versos borbulhados em seu ouvido antes do sono chegar. Mesmo tomando a memória de empréstimo dos mais velhos, contará essa história muitas e muitas vezes, até que se torne verdade. É assim que todos fazem. É assim que vamos fazer aqui nessa nossa conversa de calçada.

3

Por isso os cantadores na feira dizem que no princípio tudo era o verbo. Uma voz poderosa troou no firmamento: “Faça-se!” E uma luz explodiu no céu como uma bomba atômica. Essa explosão gerou vida ao invés de morte e a poeira que flutuou no espaço vinha carregada de matéria orgânica. Ao tocar na pedra dura da terra os fragmentos celestes grudaram e aguardaram bilhões de anos até que viesse o dilúvio. Foi assim que os peixes começaram a povoar os oceanos e um dia o Leviatã levantou seu dorso sobre as águas. Começara ali o pesadelo dos homens. Nas margens dos oceanos surgiram florestas e alguns peixes aprenderam a andar na terra firme. Eles sobrevieram à grande catástrofe em que pereceram os grandes répteis e criaram uma nação de gente feliz. Não precisavam trabalhar para ter o sustento. Tudo lhes caía às mãos. A voz, vendo que os homens desejavam também comer o fruto do conhecimento, decidiu expulsá-los dali. Foram mandados para o leste, onde deveriam suar para garantir o sustento a partir de então. Quando seus filhos se espalharam pela terra não encontraram obstáculos nas montanhas mais altas, nos estreitos congelados, nas florestas mais quentes. Um dia eles aprenderam a construir barcos que atravessavam oceanos e descobriram depois a vergonhosa tarefa de matar baleias.

Quando chegaram por aqui, nada havia além de seres nus caminhando pela praia: ariús, curemas, cariris, canindés (nome de cidade no Ceará), caborés, icós, janduís, moxorós (que deu nome a Mossoró, caldeirão dos infernos, senhora das primazias, chuva de balas), panatis, paiacus, pacajus, pajeús, pegas, pebas (nome de bicho tatu que dá no mato e dizem que come carne de defunto), tremembés (nome de praia lá para as bandas do Ceará); a irmandade toda de petiguaras, pitiguares, potiguaras, potiguares, enfim, o nome da terra. Tudo gente boa e preguiçosa, relutante no trabalho e valente nas safadezas de rede. À frente de todos eles, Poti, grande guerreiro, o imperador dos camarões. Salve Poti, tua nação o saúda em júbilo, por que és e sempre serás o mais sábio entre todos. Teu grito de guerra leva ânimo aos nossos irmãos em luta, tua lança atravessa o corpo dos inimigos, teu urro deixa trêmulos os joelhos dos nossos adversários e o teu cocar tremula ao vento até o dia em que aquele sujeito branco de pêlos no rosto vier pisar o solo de Igapó. Aí será a nossa desgraça. Porém, nós também temos uma explicação para a nossa gênese. E vamos contar agora.

No princípio, a água e o céu se tocavam num vazio de lábios que se abrem e não havia nada além do negrume. Uma noite imensa dominava a eternidade no bojo do universo. Nosso deus desceu das alturas cavalgando um vento forte e, no entanto, ele ainda não tinha nome. Percorreu a imensidão aquosa em busca de algo seco para pisar. De tanto procurar, cansou e quando repousou, quase tocou na superfície da água.

E foi daí que surgiu lá do fundo do oceano o pequeno pedaço de terra que enfim pisara. Estava nessa ilha primordial e nesse momento nasceu o sol. Olhou maravilhado para a bola de fogo que singrava os céus e sorriu. Quando o monstro dourado atingiu o centro do firmamento, o calor atingiu o corpo magro deste deus pagão.

As chamas racharam a pele que começou a escorrer pelas pernas abaixo. Então, quando o sol completou a jornada pelos céus, a pele já era uma ilha sobre as águas. No dia seguinte, já havia terra no mundo, mas faltava gente. Quando o sol iniciou de novo a marcha, deus esperou que chegasse ao centro. Pegou a terra e encheu as mãos, amassando bem até virar barro. Com esta argila construiu um homem soprando no nariz e soltando-o no chão.

O homem rolava pelo chão, engatinhava, mas não comia nem chorava. Foi crescendo, crescendo, crescendo e ficando cada vez mais parecido com deus, que sugou um pouco mais no cachimbo, e soprou fumaça em sua boca. Aí o homem falou: “A natureza é bela e sã. A água mata minha sede, o fogo aquece meu corpo. Daqui de onde estou posso ver muito bem o semblante de Deus e posso falar com Ele quando quiser”. Estava tão enlevado nessa ilusão que nem viu quando Deus amassou mais argila, soprou fumaça e deu origem à mulher. Ele então olhou para este novo ser e sentiu uma coisa estranha subindo de seus pés. Um calor esquisito que vinha morrer no baixo ventre. Sentiu uma coisa dura na mão e percebeu que aquilo ficava muito bem quando guardado no ventre da mulher. Foi assim que nasceu a nação potiguar.

Por sua vez, o garoto preferia sempre as conversas do avô nas noites quentes do verão em que ficavam juntos na calçada olhando a vastidão estrelada. O menino nunca chegou a saber por completo o passado deste homem fascinante que povoou sua infância com tantos causos mirabolantes. Sabia apenas que viera do sertão, tocando tropas de burros com mercadorias para a capital e aqui se fixara na companhia da mulher (que viria a falecer pouco depois, vitimada pela varíola) e da filha. Criou a menina com todos os cuidados possíveis. Era só um viúvo solitário e totalmente dedicado ao trabalho no comércio de produtos do sertão.

Todos os dias, à boquinha da noite, o avô costumava contar deliciosas histórias para as pessoas que passavam em frente e paravam um pouco na calçada para dois dedos de prosa. Eles aceitavam um copo d’água, um gole de café e ficavam por ali a escutar. Hum, hum, esse vento que chega aqui, seu moço, e pega a gente nessa calçada, vem de dois lados: um vem varrendo o sertão, assim num arrastão, ganhando quentura, quentura até virar esse braseiro que passa por riba de nossas cabeças, arrasando tudo. O outro vem de baixo e não dá para sentir logo não, pois é um ventinho que vem roçando o barrigão no Atlântico e vai esfriando, esfriando até se tornar essa brisa mansa que roça em nosso rosto e deixa a gente com vontade de ir se deitar. Mas ainda é cedo, Seu Bernardo, conta mais uma história. E o velho se fazendo de difícil. Ah, seu Bernardo, conta outra… E ele contava muitas outras, até que o sono começava a provocar bocejos em todos e ele dizia brincando, chega por hoje, minha gente, vão baixar noutro terreiro!

Tudo conversa fiada, conversa mole, conversa pra boi dormir, miolo de quartinha, arisia, Pois assim é que o velho gostava de viver. Uma boa conversa sempre puxa outra. Isso faz parte do lugar em que vivemos, onde as pessoas gostam de colocar cadeiras nas calçadas para pegar um ar fresco, depois que o sol começa a descer por trás dos mangues. Ali se fala de tudo, da filha da vizinha que está se encontrando com um rapaz às escondidas, do comerciante que comprou casa na cidade, do padre que está moralizando a paróquia, do político que está se aliando com o adversário. A calçada é o espaço da maledicência e do prazer, do deleite de ocupar a vida encontrando prazer com o som da própria voz.

O velho gostava dessa doce ocupação, inventava umas coisas, criava outras e só ficava ressabiado quando o professor Juca Guiné vinha com aquela sua conversa de ateu: sabe essa tradição de divindades que caminham sobre as águas, seu Bernardo? Não é exclusividade do cristianismo, não. Várias culturas têm história semelhante. Ou então criava outras coisas. Você sabia que a lenda sobre a origem da mandioca fala de Tumé que caminhava sobre as águas como Jesus e ensinou os homens a plantar a raiz? O professor deliberadamente misturava crendices populares com passagens da Bíblia, do jeito que o povo gosta.

Também confundia fatos históricos com anedotas populares. Pero Vaz de Caminha, o escrivão da frota, confundiu o fruto que é a base da alimentação indígena com inhame. Ora, a mandioca é que dá a farinha boa que garante o sustento da gente. Quantas batalhas foram ganhas só com um bocado de farinha, pedaço de rapadura e água? Veja, no entanto, como o jornalista primitivo descreve nossa terra. E como lançava os olhos gulosos sobre o sexo das meninas índias! Era astuto como ele só. Previa muitos lucros com madeira, café, cana-de-açúcar, algodão, gado e sexo, muito sexo que culminaria nessa gente de pele morena e olhos rasgados. E a noite ia escoando as estrelas no meio da conversação.

Cá entre nós, ficaremos com a literatura. Foram páginas e páginas amarrotadas ao vento, lambidas por maresia e vinho do Porto que o cronista da frota de Cabral teve que escrever para perpetuar sua glória. À frente o mar espumoso, seus olhos gozando por antecipação a chegada nas Índias. E se as naus de Cabral passaram por aqui, como quer Lenine Pinto, o nobre cronista viu a embocadura deste rio. Oh, rio grande sem sorte, rio grande da morte (vai cantar o poeta Bosco Lopes, no Beco da Lama, naquelas noites de boemia sem fim), rio que se finge enorme, faustoso na foz da fortaleza, rio que molha essa cidade onde tudo parece simulação, cadela de dentes podres no postal das palafitas, aonde tu vais? Perguntaria o Alvissareiro do alto da torre da igreja.

Olha, lá vêm as velas surgindo no horizonte, e logo, logo vão despejar homens brancos, barbudos na praia abandonada. Quanta fanfarra ao redor do Forte dos Reis Magos, quanta pompa e circunstância! E se viram primeiro o Pico do Cabugi, antes do Monte Pascoal? Esse pedaço de vulcão adormecido? Que montes terão sonhado os navegadores? Cantam nossos poetas desgraçados pelo descaso e choram pelos rios desvirginados nos becos da cidadela invadida: Potengi amado, afrancesado, amancebado (você não lembra? Ali, na curva do rio, o refúgio do Refoles, onde a escuna de Jacques Riffault se escondeu? Ora veja, ele só estava em busca de um porto seguro, meu velho, do mesmo jeito que Cabral e sua gente).

Quanto desvendamento, desvelamento, descobrimento e nada de solução para este mistério que nos atormenta desde o nascimento. De onde viemos, para onde vamos? Seríamos franceses, holandeses, portugueses ou meramente americanos? Quantas velas e caravelas e taramelas e ninguém para dizer: vamos por aqui gente, este é o caminho. Quanto discurso no Instituto Histórico e Geográfico, na Academia Norte-Riograndense de Letras (enquanto as ilustres senhoras, senhoritas e senhores tão garbosos mal seguram a vontade de dormir durante o palavrório), quantas loas, quanta farofa, uísque, canapés, toneladas de livros para se fazer louvação e nada de um rumo, uma bússola que nos indique o caminho. Nada de destino que nos dê alguma guarida. Só este silêncio oceânico, este descaso que nos mata de tédio.

Desta forma Jonas Camarão aprendeu seus primeiros rudimentos da história, procurando veredas nas letras dos cadernos e nas lorotas contadas pelo professor, velho negociador de mentiras e verdades. Ah, ele precisava saber como as coisas realmente haviam acontecido, porque senão nunca poderia traçar seu próprio caminho. O que é que pode fazer um moleque nascido nas plagas potiguares, com pele amorenada, cabelo preto, liso, lustroso e olhos puxados de índio? O que fazer para fugir do destino fatal de quem não será nada nunca? Nada, a não ser seguir os passos de seus ancestrais. Disso ele ainda não sabia, mas iria saber logo. Oh, diabos, quer dizer que a gente nasce com o destino entranhado, feito o caroço de uma fruta que vai apodrecendo com o tempo e depois nos mata sem dizer nada? Pois, pois.

Daí que o menino aprendeu logo que a mentira às vezes pode ser necessária. A mentira, não apenas como o mero ardil para enganar, destruir o outro, mas como um atalho para ganhar mais rápido. Afinal, a mentira tem uma longa tradição na história dos povos. Veja, por exemplo, a grande mentira de Américo Vespúcio, que narra em cartas as suas aventuras pelos sete mares do mundo.

Costeava a praia de Touros, quando dois tripulantes foram enviados à terra para fazer o reconhecimento. Viram quando os homens foram rodeados por mulheres indígenas, pintadas de alto a baixo, com suas vergonhas de fora, algumas tão formosas… Oh, delícia das delícias! Aí, uma delas veio por trás e desceu o tacape sobre as cabeças dos pobres desafortunados. A tripulação assistiu a tudo aquilo horrorizada e ainda viu como os homens eram trinchados e levados à fogueira para servir de banquete à noite. “Esse contato inicial com a indiada potiguar, tão diversa dos amáveis tupiniquins de Porto Seguro, deixou impressão duradoura e, até fins do século XVI, falam os relatos da ferocidade indomável dos silvícolas habitantes da terra”, escreveu Vespúcio. Então, será por isso que deixaram o marco de Touros para trás, a terna visão do Cabugi e preferiram um porto mais seguro? Sabe-se lá.

Nas demoradas aulas de história o professor esbravejava no meio da tarde calorenta. Mas, vejam meus caros alunos, essa conversa está, no mínimo, mal contada! E digo por que cargas d’água isso não pode ter ocorrido. Veja que os índios potiguares só matavam para comer os adversários mais corajosos. Não era uma questão de culinária, era coisa de honra guerreira mesmo (lembra das narrativas de Hans Staden?). Essas histórias nos perseguem desde o início da colonização. Quer que conte como toda essa mentirada começou?

Pois digo, vou dizer duas ou três coisinhas sobre esse camarada. Américo Vespúcio chegou ao continente seis anos depois de Colombo. Viajava para perpetuar seu nome, não para descobrir novas terras ou inventar um novo mundo. Por isso, de regresso das viagens, escreveu duas cartas famosas. Dedicou sua primeira carta a ninguém menos que Lourenço de Médici. Seus textos, curiosamente, são repletos de sexo, você sabe que isso garante o sucesso de qualquer publicação em qualquer tempo, as pessoas adoram falar em sexo e desconhecido (Thomas Morus se inspirou nele para escrever sua Utopia).

Então, um grupo de tipógrafos-cartógrafos, reunidos para elaborar um novo mapa do mundo, decidiu nomear as novas terras com o nome de América, em homenagem ao popular mentiroso. E assim ficou. Colombo já morrera cego e arruinado, não tinha como reclamar. Assim, nossa história já começa com uma mentira rasteira. Então, somos filhos bastardos de um mentiroso esperto? Ora, deixe de besteira, toda a América é.

Então o velho professor entrava na conversa seguinte: o que dizer do povo potiguar? Nascemos marcados pelo abandono, rejeitados, esquecidos. Vou dizer por quê: João de Barros foi nosso primeiro intelectual, primeiro dono das terras potiguares, gostava de escrever cartas como os grandes cronistas de sua época, Américo Vespúcio, Pero Vaz de Caminha, e coisa e tal. Ganhou o direito às sesmarias, senhor absoluto da Capitania Hereditária do Rio Grande. Nunca botou o pé em suas terras, preferiu mandar um representante.

Um sujeito chamado Aires trazia consigo cinco naus e cinco caravelas abarrotadas de gentalha, cavalos, armas, munições. Decidiu primeiro pernambuquear, para depois passar ao largo boca da barra do Rio Grande e lançar âncora lá pelas bandas do Syara Minor (ou Sihará Menor ou Sahara Mirim). Passou ao largo de Touros, lugar bom para ser carneado, churrasqueado, deglutido antropofagicamente pelos índios potiguaras. Parece até que sabiam disso, pois de uma hora para outra, deu na veneta do homem, meninos, é melhor arribar daqui o quanto antes, danar-se em busca do Maranhão, onde as Antilhas são logo ali, ó.

No caminho ainda deu para salvar a gente de Dom Pedro de Mendoza, náufragos em mar aberto. De modo que, quem pariu Mateus que balance. Eis aí nosso destino, enjeitados de nascença, pobres coitados fadados ao fracasso, fadados a falar para ninguém.

4

Deixemos de lado as futricas históricas, as insinuações fuleiras de um professor de província e vamos ao que viemos. Jonas estava vivendo o desabrochar da juventude, embalado por estas e outras histórias narradas por Juca Guiné (sujeito esquisito que falava como um louco desvairado) e as conversas com o avô.

Falamos até agora da mãe e do avô de Jonas, mas ainda não falamos do pai, o leitor arguto deve ter notado. Os críticos do futuro vão fazer ilações, sondando as motivações freudianas do narrador, vasculhando no fundo de sua alma (em complicadas considerações literárias e psicológicas), destruindo de uma vez por todas sua pequena reputação de autor local. Mas nada disso vai abalar seu terrível senso de humor.

Porém, para falar do pai é preciso começar falando da mãe. Heloisa cresceu naquela casa sem a presença materna, ouvindo os conselhos do pai, indo à missa e seguindo os preceitos de uma família sertaneja. Mulher é de casa para a igreja, dizia o velho. Não havia oportunidades para namoros e coisas do tipo. Mesmo assim, o que parecia impossível aconteceu. Certo dia, a mocinha chegou em casa e encontrou uma família de vizinhos sentada nas cadeiras da sala. Entre eles, um rapaz tímido e cabisbaixo, retorcia o chapéu de palha entre as mãos e gaguejava algo como um pedido de casamento. Era Abelardo, filho de uma família de comerciantes de frutas e verduras. O pai perguntou se concordava e viu que ela tremia e afirmava com um movimento de cabeça, os olhos fixos no chão, morta de vergonha. Foi assim que conheceu o amor, depois do consentimento do velho, de que poderiam se avistar no correr daquele ano, até que se ultimassem os preparativos para o casório.

Mas nada de ficar a sós, nunca, nunquinha de nadica nenhuma, nem mesmo pegar na mão, que isso é coisa indecente. O máximo que podiam fazer era conversar na varanda na companhia do pai. Mas não conversavam, o máximo que faziam era ficar a maior parte do tempo apenas se olhando, imaginando os dias doces que lhes aguardavam. Ela não teve tempo de escolher, é certo, mas os tempos eram outros, a gente precisa compreender. No final, considerava-se até uma moça de sorte, pois o rapaz era honesto, católico e também trabalhava no comércio, tinha tudo para dar certo.

Depois de passado um ano os noivos decidiram marcar a cerimônia na igreja do Rosário, que era mais indicada para os pobres, gente de cor, diziam os vizinhos – ela era mais chegada a uma cabocla e ele mais branco, aportuguesado – e foi realizado o casamento. Sem vestido branco de noiva, sem festa, sem comilança, sem bebedeira. Só o ato religioso, um café com bolo de milho na mesa da cozinha junto com os familiares e depois o quarto para as obrigações matrimoniais, enquanto os parentes se sentavam na calçada para conversar com os vizinhos que passavam para cumprimentar.

Assim nosso herói foi gerado na primeira noite mesma em que sua mãe conheceu o amor entre homem e mulher como mandam os preceitos das Sagradas Escrituras. Foi uma gravidez tranquila, acompanhada com cuidado pelos dois homens da casa. E no dia em que um rio encharcou suas pernas, foi levada às pressas para a cama, foi chamada a parteira, fervida a água, providenciado o álcool, a garrafa para soprar, a pimenta aspergida, o rosário para as rezadeiras e o menino nasceu com um vagido forte, denunciando boa saúde. Mas a parteira anunciou que este seria o último filho dessa moça tão frágil. Observara pouca aptidão para uma nova gravidez. Deste modo, Heloisa não seguiu o destino da maioria das mulheres de sua época, que quando não morriam de parto, produziam uma prole numerosa, até a exaustão e a morte. Cuidou a natureza para que ficasse estéril depois do primeiro filho, porque, na verdade, o parto realizado em casa, mesmo com os cuidados da parteira, fora por demais danoso à sua saúde.

Os tempos eram difíceis, de seca intermitente, era já o término da administração do governador Tavares de Lira, que faria de tudo para evitar o êxodo dos retirantes país afora. Esses pobres homens que saíam em busca do eldorado da borracha no norte ou para a ilusão do café rumo ao sul e não voltavam nunca mais.

Natal era uma cidade boa de morar. Sua posição geográfica entre o rio e o mar facilitava as precipitações de chuva e as terras eram férteis. Havia esperança de progresso. Com os esforços do prefeito, a cidade ganhara o parque Augusto Severo, depois de uma árdua luta contra as terras encharcadas da Ribeira. As ruas das Rocas, Ribeira e Cidade Alta eram agora iluminadas por gás acetileno, tirando um pouco de romantismo das noites enluaradas e enfeitadas com acordes de violão. Era uma cidade bem acanhada, apesar de ser capital e tinha orgulho de ter nascido cidade, não precisou ser vila, povoado ou distrito, como gostava de lembrar o mestre Cascudo em sua história da cidade. Nasceu cidade, sim senhor, com igreja, fortaleza, pelourinho e brasão. Porém arrastaria seus filhos para o interior do estômago da baleia sempre que alguém tivesse a ousadia de sonhar mais alto.

Esse era seu destino, mas vamos falar de outra coisa agora. Todos sabem que a vistosa Macaíba, rio acima, tinha mais prestígio, mais riqueza, casario colonial, senhores de engenho, comerciantes. Bem como a bela Ceará-Mirim, mais ao norte, com seus engenhos de cana de açúcar, seus barões, seus casarões e suas riquezas. Até mesmo São José de Mipibu atraía mais riquezas por causa da cana-de-açúcar e também tinha seus lindos casarões. Natal só ganharia mais prestígio depois de Alberto Maranhão, período que deixaria marcas na cultura potiguar. No geral havia a luz de lamparinas iluminando através da janela o chão das calçadas, onde todos se sentavam para um dedo de prosa, uma boa música, um cafezinho.

Cidade gostosa, de costumes simples, clima ameno nos meses de inverno, de tertúlias entrando pela noite, poemas sussurrados aos ouvidos das moças. Cidade de poucos livros, sim, com uma livraria só (a Livraria Cosmopolita, de Fortunato Aranha, na Rua 13 de Maio), mas de relativa efervescência cultural. Um pequeno universo de letrados, poetas, músicos, trovadores, pintores. Até mesmo o próprio Alberto Maranhão, que era um amante do teatro, um mecenas das artes, um louco por música.

5

Por essa época, andava pela cidade um homem de chapéu Panamá com uma máquina fotográfica a tiracolo. Um sonhador? Um doidivanas? Um profeta? Um homem comum, talvez. Não se sabe. O que se tomou ciência é que esse homem, chamado Manoel Dantas, caminhava por todos os recantos da cidade registrando tudo, dos baixios da Ribeira, das Rocas, nas distâncias das Quintas aos ermos da Cidade Nova, onde ficava olhando as filas de jumentos atravessando o areal. Apontava a velha máquina de fotografar como se quisesse captar a alma dos prédios e das gentes. Mantinha essa mania e fixava as dunas lá no horizonte no rumo do nascente, as ondas remanseando na praia de Areia Preta, os homens andando de paletó e gravata borboleta pelo centro da cidade. Em uma dessas caminhadas, sentou-se ao pé de uma árvore e adormeceu (no colo derreava-se uma brochura estrangeira de Marinetti e na mão uma edição de A República, com o Manifesto Futurista). Dormiu e teve um sonho com uma estrada além dos morros, apelidados então de “perigo iminente”. Uma estrada que chamariam de Via Costeira no futuro. Em toda a extensão pontilhariam luxuosos hotéis com terraços, heliportos e pistas para aeronaves de decolagem e pousos verticais.

Um metrô de superfície percorreria o cocuruto do morro, de uma ponta a outra, se estendendo até descer nos longínquos Guarapes. Por toda parte escadas dariam acesso à praia. Entusiasmado gritava: “Ah, é um misto de progresso e de poesia!” Uma ventania percorria tudo. Eis que chegaria o trem transcontinental que partiu de Londres e percorreu a Europa, a Ásia e chegou à América do Norte pelo Estreito de Bering, desembocando na América do Sul. Agora soltava o apito triunfante na estação da Ribeira. Olhando para a Ponta do Morcego via um dos tentáculos do porto gigante que se estenderia até Jenipabu, onde estava ancorado o transatlântico Cidade do Natal, esta cidade dourada que brilhava ao lado de Paris, Londres e New York. Cidade de sol e progresso, com telefones que transmitiam imagens e palavras impressas, caixas que mostravam imagens, paredes que mostravam luzes, danças, orquestras, óperas. Jornais que apareciam em imensas placas luminosas no alto dos edifícios mais altos. Cartazes luminosos na beira das estradas, luzes, luzes, luzes… Então, subitamente acordou. Que sonho mais louco, maravilhoso, extraordinário! Um vento atirou seu chapéu ao longe e ele falou, preciso correr e passar tudo isso para o papel, será o discurso que vou fazer mais tarde no Palácio do Governo. Um menino vem correndo lhe entregar o chapéu. Percebe seus traços indígenas e pensa huuum, preciso lembrar também que o índio estará “subjugado afinal pela civilização e pela fé”. Dito e feito, o fotógrafo se encaminhou para a redação do jornal e redigiu o texto. Havia um lugar na torre da Matriz onde o Alvissareiro ficava observando os navios que chegavam e as barcaças transportando gente e produtos rio acima, rio abaixo, pois um rio é como o tempo e dele derivam todas as coisas. O Alvissareiro será no futuro tema para muita literatura.

Vivemos em um deserto de dunas cortado pelo mais misterioso rio, que é grande só no nome, mas estreito em sua anatomia. Rio Potengi, grande deflorador de terras, filete descendo sertão abaixo em busca da imensidão do mar, manhoso (de enchentes traiçoeiras no interior, quando o inverno é bom, cantado e fotografado por muita gente que viu ali algo mais que paisagem), de marés altas na lua cheia, acolhedor de fragatas e canhões franceses, holandeses, portugueses, onde a canoa de Felipe Camarão navegou em calmaria repleta de ilusões, pedras e pontes a esperar no futuro.

De longe Juca Guiné observa as correntes de história que boiam ao sabor do tempo, o narrador polifônico lembra a lendária figura do índio Poti. Aquele que parece não ter nascido no solo que dá nome. Não, porque um não é o outro e ambos são a mesma pessoa quando a lenda turva a verdadeira existência do homem. Há quem diga que é pernambucano. Mas há registro de seu batizado na aldeia Potiguassu, hoje Redinha, a aldeia que levava o nome de seu pai. Ganhou o nome cristão de Antônio Felipe Camarão, uma homenagem ao santo casamenteiro, ao rei da Espanha e ao hábito de comer um certo marisco que tem merda na cabeça. O índio Poti, o mais aculturado de todos os índios. Na adolescência perdeu o pai e foi mandado para a aldeia de Meretibe, na Paraíba, depois para Pernambuco, onde foi educado pelos jesuítas. Tomou gosto pela cultura dos dominadores e aprendeu português, espanhol e latim. Esse talento de poliglota o fez destacar-se nas guerras de expulsão dos holandeses do Nordeste. Completamente dominado pelos portugueses, ganhou altos cargos e comendas, este nosso ancestral. E foi morrer longe, no Recife, como se quisesse confirmar sua verdadeira origem. Isso parecia ser uma sina.

São muitas as lendas em torno dos nossos heróis índios, dizia Juca Guiné em suas preleções intermináveis, enquanto Jonas cochilava na mesa de jacarandá. Veja o caso de Sorobabé, índio valente que fez guerra aos Aimorés na Bahia. Não titubeou quando foi chamado a combater os negros fugitivos do Quilombo dos Palmares. Ficou rico com o saque ao quilombo vencido e virou um pavão, queria ser tratado como um rei europeu e comia como tal, vestia-se como tal, falava como tal. Aí começou a beber e viver em delírios de grandeza. Foi mandado a ferros para Portugal onde morreu louco de pedra na localidade de Évora. Seus ossos descansam em solo português. Não há como se admirar um sujeito desses, não é?, perguntava insistente o professor. Mas Jonas não respondia. Ficava olhando o céu lá fora com aquela lua enorme, redonda e amarela tomando toda a moldura da janela. Queria era sair para bater pernas pelas ruas, jogar fura-chão. Nas noites estreladas, Jonas ficava deitado na calçada, sem querer ouvir nada. Não sabia ainda o nome das constelações, mas sentia grande prazer ao olhar o firmamento. Aquelas pedras faiscantes na abóbada celeste… Sonhava, puxa vida, que palavra bonita, abóbada celeste, parecia abóbora celeste, ele sonhava e se perdia em suas viagens interplanetárias, imaginando que um dia a raça humana poderia viajar pelas estrelas. As noites em Natal tinham mais estrelas. A cidade tinha agora luz a gás, todavia, nas casas ainda bruxuleavam lampiões a querosene, faróis de lata com camisas de vidro, lamparinas e velas.

Todas as noites o avô chegava com seu andar titubeante e colocava a espreguiçadeira na calçada. Ficava um tempo ali, absorto, olhando o céu, talvez ouvindo estrelas como queria o poeta. Um pouco mais e chegava Juca Guiné e ia logo puxando conversa. Fazia as saudações habituais e aí embicava em uma nova história. Quem sabe, estas serão as mesmas estrelas que viram o pirata Jacques Riffault, sua nau ancorada na curva do rio? Olho que olha, ouvido que escuta, mão que apalpa o cabo da espada, outra que afaga, carinhosa, descendo sobre a cabeleira lustrosa da índia, pelas costas, pela bunda rija, amorenada. Ô cabra malandro! Amigado, indiado, bem amado senhor das especiarias, do pau-brasil, das conchas, das frutas, dos peixes e de tudo, enfim, que de bom se poderia achar por estes arrabaldes de ninguém. Quem sabe, sonhou um dia com França de além-mar. Os índios até tentavam compreender os outros, os portugueses, que eram também brancos e barbudos e fediam do mesmo jeito (insistiam no estranho hábito de não tomar banho). Os franceses, porém, há muito que vinham chegando, trocando coisas por toras de pau vermelho, fornicando com as mulheres, deixando filhos de cabelos louros, agalegados, aprendendo suas astúcias no arco, tacape e lança.

Os franceses pareciam ser mais amigos. Os índios tentavam também compreender os outros estranhos homens brancos, que só queriam as cascas de búzios que estavam enterradas aos montes nas areia da praia. Para que serviria aquilo depois de comer as carnes tenras dos mariscos? Jamais poderiam saber que os búzios serviriam de moeda de troca em lugares distantes, na Ásia, África, Oceania, quem sabe? Essas conchas podiam até ser trocadas por gente! É, gente mesmo, pessoas de pele escura que eram atiradas ao largo pelos navios e depois apareciam, corpos putrefatos na praia. Ora, isso será muito depois ou era nesse tempo mesmo? A memória só serve para atrapalhar quando a idade avança. O velho parecia ver nas constelações o desenho de uma batalha antiga, os canhões a postos, marujada correndo pelo convés, caravelas à vista, capitão! E a indiazinha sorridente, feliz, pensando, como é gostoso o meu francês. O pirata manobrando a caravela, procurando abrigo nas dobras do Potengi, que coisa maravilhosa estamos vivendo aqui, hein, meu rapaz?

Jonas piscava os olhos inocentes, deslumbrado com todas aquelas histórias. Menino quieto, de bons modos, sempre atento às descobertas, ao novo, ouvindo tudo e tudo aprendendo. Ah, é sempre bom voltar ao passado e ver o Forte dos Reis Magos sendo construído, o professor conta satisfeito, enquanto seus olhos faíscam na escuridão. Os portugas perderam a paciência com a petulância dos piratas, sabe? Dom Francisco das Manhas não queria mais saber de manhas (com o perdão pelo trocadilho, perco o amigo, mas não perco a piada). Ficou irritado com a presença daqueles malandros fedorentos que se davam tão bem com os índios. Fora com esses franceses! Não quero saber de invasores aqui na minha praia.

E assim começou a ser erguido o panteão dos vencedores, os que contam as histórias e ficam com as batatas. Que nomes de cavaleiros tão principais nesta guerra! Mascarenhas Homem, Feliciano Coelho, Jerônimo de Albuquerque. Foi um pipocar de pólvora e zumbir de flecha. Era uma confusão de bacamartes e lambadas de facão, espadas, punhais. Tomou-se a Capitania à unha. Manda ferro nesses pilantras e vambora daqui, ó pá! O avô, impaciente queria interromper a prosopopeia do professor e aí começava o bate boca. Conte aí sua história, home, que eu conto a minha! Não, deixe primeiro eu terminar a minha! Então Heloisa acudiu e deu a palavra ao professor. Ele agradeceu e engatou a história: apesar de tudo o Forte dos Reis Magos estava pronto. Com esse danado de incomum traçado estelar, num sabe?

Nascido das mãos e miolos do jesuíta Gaspar de Samperes, brilha para sempre no horizonte à luz do sol. Seus defensores não dormem nunca! E as almas dos heróis arrastam os pés pelos seus corredores. O inimigo é o que se diz dono das terras: portugueses contra holandeses. No meio deles, Camarão Grande, meu ancestral, Potiguassu, o imperador dos camarões, pai do que ganhou nome de rei e tomou a frente dos combates. Mosquetes, canhões, lanças e espadas contra flechas, tacapes e lanças dos grandes chefes Ibiratinim, Paraguaçu, Zorobabe e Ipãguaçu. Todos caíram na conversa do jesuíta.

O velho índio gritaria antes de cortar seu último cacho de cabelo: “Jesuíta execrável!” Entre a cruz e a espada, a saliva e o sorriso, armas poderosas, sedução. Irmãos contra irmãos. “Os selvagens manteriam o contrato, morrendo por ele, em duzentos anos, até o último”, dirá o mestre Cascudo. Surge no horizonte o grande inimigo, mais forte, destemido, poderoso. A frota do almirante Jan Corneliszoon Lichthardt aproxima-se. A guarda do Forte dá um tiro de canhão de aviso. Os holandeses passam ao largo, frouxos, ancoram na praia de Jenipabu para fazer um churrasco. A festança ficou na memória do soldado Ambrósio Richshoffer, o morro ainda intacto, o coqueiral, a areia fina e o reflexo do sol na lâmina d’água.

Eles voltariam, sim, voltariam. E Natal haveria de se chamar Nova Amsterdã, seu sonho mais fugaz. Vejo traços deste sonho nos cabelos ruivos, alourados das moças, na pele muito branca, nos nomes à holandesa. Pois é. Mas não deu. Os portugueses venceram e trouxeram para cá os jesuítas, fundadores de aldeias. De modo que as terras foram sendo ocupadas por essa gente mesmo.  Um dia, o Marquês de Pombal resolveu varrer dos domínios portugueses a presença dos jesuítas. Ele desconfiava das intenções dos padres junto aos gentios, defendiam demais os índios da escravização, isso não era bom para a Coroa. Os primeiros a sair foram os padres de São Miguel do Guajiru, a primeira vila potiguar, que viria a se chamar Estremoz. Depois foi a vez de Guaraíras, conhecida mais tarde como Vila Nova de Arez. E foram saindo assim de Vila de Portalegre; Vila de São José do Rio Grande, Mipibu; Gramació, Vila Flor; Vila Nova do Príncipe, Caicó; Arraial de Nossa Senhora dos Prazeres do Assu, Vila Nova da Princesa. Quantos nomes bonitos que seriam desvendados depois por Câmara Cascudo.

O professor falava como se estivesse em transe. Imagine o índio atravessando a aldeia de Igapó, com sua roupa feita de nada, colares, miçangas, pulseiras, tabocas. Carrega ainda os adornos, armas e honra de seus antepassados. Desconhece domingos e feriados. Para ele, todos os dias são iguais, sempre ideais para louvar os deuses. Toma banho de rio, caça e mata os inimigos. Impossível conviver com o progresso, ser predestinado a perecer diante de outra civilização mais forte. De vez em quando aparece na aldeia um homem vestido com um pano grosso, e fala em um filho de Deus que morreu na cruz para salvar a todos. Estranho Deus que sacrificou seu filho pelo bem dos outros.

Todos ouvem com atenção e não concordam com aquilo. Mas escutam. Não vou lhes contar a história dos mártires de Cunhaú e Uruaçu porque todos já conhecem, mas vou explicar uma coisa: tudo não passou de uma disputa pelo poder territorial e econômico entre duas potências, a Portugal católica e a Holanda protestante. No meio de tudo isso, um alemão com nome judeu, Jacob Rabbi. Apenas um homem de seu tempo, ambicioso, cruel como os selvagens da terra. Eles massacraram dezenas de pessoas em Cunhaú, na divisa com a Paraíba, e em Uruaçu, nas proximidades de Macaíba, hoje São Gonçalo do Amarante, tudo por cobiça de terras e ânsia de poder. Depois resolveram dar uma conotação religiosa à tragédia. O tempo faz dessas coisas.

Ora, meus amigos, a vida de Jonas não era só ouvir histórias do professor. Como todo menino de cidade pequena nas proximidades de um rio e do mar, o grande divertimento era pescar, andar de canoa, fazer bichos de argila, jogar bolão (uma meia velha repleta de trapos) nas várzeas do Potengi.

Foi durante essas estripulias de menino que ele conheceu Cícero, um negrinho de sorriso largo e esperto nas artes de subir em árvores para colher os frutos mais doces, que doravante ficará conhecido apenas como Ciço, que é a pronúncia comum nesses lugares para o nome do ilustre romano. Todos os dias eles se encontravam para tramar uma nova aventura e no fim do dia, cansados, voltavam para casa trazendo sempre algum prêmio, um passarinho abatido por baladeira, uma palha de peixes, um saco de mangas.

O que é a infância senão esse nebuloso passado em que as lembranças se esgarçam e as brincadeiras vão sendo apagadas pelo tempo? Se nos fosse dado um pouco mais de talento seria possível lembrar um período inteiro da infância apenas ao sentirmos um suave aroma de frutas, um tilintar de xícaras no café da manhã, a luz de um vitral escapando pelas frestas de uma velha igreja. Perceberam que estou falando de Proust? Juca Guiné lia o escritor francês no original, por isso a lembrança aqui.

Ciço morava na parte baixa do rio que viria a se chamar Passo da Pátria. Garoto pobre, ele dividia o barraco com os pais e uma dezena de irmãos e irmãs. Nas noites que a mãe deixava Jonas ficar até mais tarde na rua, ele gostava de ficar ali, naquele barraco aglomerado ao redor do fogareiro onde a mãe do menino fritava peixe e servia com tapioca e café. Eram noites de curiosidade e espanto quando o pai de Ciço se sentava ao redor do fogo para contar antigas histórias d’África. Agora eram os deuses das selvas que rondavam as cabeças espantadas daqueles meninos encantados com a voz rouca daquele homem rude. Deuses da guerra e das caçadas, deusas da água, do vento, do fogo e do ar. Candomblé, xangô, macumba, catimbó. Tudo vinha em enxurradas de informações que se entrelaçavam ensandecidas.

Outras noites, Ciço juntava-se à família do amigo para ouvir as lorotas do avô. Achava divertido quando o professor chegava e ia logo se metendo no assunto, gosta de histórias de guerra, meu rapaz? Então lá vai mais uma: holandeses são desembarcados na praia, o morro é uma ponta negra, carregam os troços de guerra pela areia no rumo da embocadura do rio. A esquadra segue para a boca da barra. As baterias do forte disparam a artilharia com toda a potência dos canhões. O canhoneio cerrado, navios holandeses envoltos na fumaça dos estampidos, imaginem que bela imagem. Então os portugueses revidam com violência.

O combate foi decidido ao pé das muralhas do Forte. Holandeses tomam um poço de abastecimento d’água, tem inimigos por todo canto, vige nossa senhora, vem gente até dos alagados da Ribeira. A fortaleza está cercada, porém resiste com artilharia pesada. Os holandeses têm uma súbita ideia: posicionam a artilharia nos morros vizinhos e atiram sobre as defesas do Forte. Desse jeito não há quem resista. O Forte dos Reis Magos foi conquistado. Portugueses hasteiam uma ridícula bandeira branca por sobre as ameias, sitiados, famintos, com sede. Foram três dias de artilharia cerrada. Os holandeses entram triunfantes. Espere, tem um ferido importante: o capitão-mor Pero Mendes de Gouveia.

Vejam como são as coisas, não há heroísmo nenhum nessas pequenas guerras. Há mortes, ferimentos, padecimentos e o trivial de sempre. Os comandantes do Forte podiam sair com os pertences, até com os criados, e fica tudo entre amigos, não é? Não mexa no meu pirão que a farinha é pouca. A soldadesca é que se dana rio acima em busca de algum abrigo e algo para comer. É sempre assim. A cidadela passa a se chamar Castelo Keulen (ou Ceulen, sei lá), em homenagem a um dos comandantes holandeses.

E pronto. Estávamos prontos para um insípido domínio holandês. Sem pontes ou qualquer traço do Velho Mundo. Nem um arremedo de sobrado nem belo casario. Só uma visita do conde Maurício de Nassau para provar os quitutes da terra, nada mais. Foi saudado pelo centenário Janduí, índio velho macerado pelas guerras. O conde o saudou, “grande Jan du Wy!” E a ema correu pela caatinga. É assim que se vence e assim se perde tudo de uma vez, não é? E mais não digo.

Juca Guiné pediu a Bíblia de Heloísa e leu então um trecho: “Ah! Vou rir dos meus inimigos! Vingar-me dos adversários! Voltarei minha mão contra ti! Vou cozinhar a tua borra até limpar e te arrancar toda a sujeira! Farei que teus juízes voltem a ser como eram antigamente, teus conselheiros como eram no princípio. Depois disso, poderás ser chamada cidade da justiça, capital fiel”. Vocês vejam como essas palavras servem para nossa realidade atual. E olha que este homem estava falando de uma cidade antiga.

O professor falava feito uma matraca, ao que o velho Bernardo replicava importunado, êita homem falador, parece que bebeu água de chocalho! Juca Guiné não se importava e continuava com sua ladainha: e assim Natal marcou sua bandeira na história deste encontro que se chamará para todo o sempre a Guerra Holandesa. O fim do domínio holandês no Rio Grande do Norte foi fugaz e indigno de grandes notas.

Nenhuma batalha cruel dessas de entrar para os anais, aliás, como quase nada em nossa humilde história, está entendendo, meu jovem? Uma tropa de 1.500 homens, sob o comando de Luís Barbalho Bezerra desembarcou em Touros e veio em varredura planejando arrastar tudo quanto fosse inimigo até a Bahia. A guarnição de 60 soldados e 200 cariris do Forte não ofereceu qualquer resistência. Favas contadas, nada a acrescentar. O velho dava um tapa no joelho e dizia, tá na hora de entrar, seu Juca, cada um que procure seu rumo. Mulher feia e jegue só quem procura é o dono. Entrava para dormir resmungando impropérios.

O professor olhava para os meninos. Então os holandeses se foram e nada de Nova Amsterdã, coisa nenhuma, nem mesmo Nova Lisboa ou coisa que o valha. Não fomos tocados pela beleza, pelo diferente, pelo maravilhoso, como a cidade do Recife, por exemplo. Não ganhamos pontes, canais, engenhos, casario colonial. Só casas incendiadas, gado morto, lavouras devastadas. Aí o menino retrucava, mas o senhor já contou essa história, professor. É mesmo? Ora, então vamos contar de novo, pois acho que estou ficando gagá. Nessas horas, Heloísa intervinha a tempo. Vamos tomar mais uma xícara de café, seu Juca? Ele olhava pesaroso para todos como se quisesse contar toda a história do Rio Grande do Norte em uma única noite. Ao que Heloisa retrucava, chega, seu Juca, já está na hora de dormir, não acha? Amanhã é dia de branco. O professor concordava a contragosto e todos iam para suas casas dormir.

6

Em uma tarde de lua cheia, o professor Juca Guiné interrompeu a aula de gramática e entrou em mais uma digressão histórica. Meus queridos alunos, fiquem sabendo que Natal foi se recompondo aos poucos depois da Guerra Holandesa, os arredores foram sendo povoados e muita história pequena se desenrolou.

O tempo passou monótono na capitania até eclodir outra grande convulsão. Foi a primeira revolução, em torno de um sonho falso de independência, que pegou a província de surpresa e balançou seus alicerces feudais. Uma revolução de intelectuais, com a participação de gente do clero, em que despontou um novo herói, André de Albuquerque. Este seria o primeiro grito de revolta contra a monarquia em terras potiguares. Conspirava também o padre João Damasceno, juntou tropas, entrou na capital, trocou bandeiras. André de Albuquerque assumiu o governo sem grande alarde e caiu no descuido, o herói. Então os inimigos prepararam a reação. Chegou o dia fatídico, o sino da Matriz tocou nove badaladas, veja bem, nem oito nem sete, nove badaladas. Sinal de que tinha gente nascendo neste dia.

No entanto, era tudo engodo, estava nascendo a reação dos monarquistas. Homens avançaram em direção ao palácio com armas em punho. André estava sozinho com o padre, não tinha mais ninguém, a cambada de frouxos desertara. Olhe o que é uma tragédia, a turba entrou e deu voz de prisão aos combatentes. Um soldado mais afoito brandiu a espada, sempre tem gente assim, mais açodada (foi acusado o tenente-coronel Antônio José Leite do Pinho, que também morreu vítima de ferimentos), desgraça, o golpe atingiu a virilha do homem.

O padre também foi preso, ó horror, ambos foram arrastados para a masmorra do Forte, em procissão macabra pelas ruas da cidade. André, o poderoso Senhor de Cunhaú, implorou por água e uma almofada para apoiar a cabeça. Nada de água, alguém passou uma pedra pela fresta da porta, eis o travesseiro, traidor. O mar batia raivoso nas paredes do Forte. Ah, que noite de desespero! Alguém passou moringa com água e uma camisa à guisa de travesseiro. André de Albuquerque agonizou mais um pouco e morreu quando o dia estava nascendo. O sangue escorria formando uma poça sinistra no pátio. Seu corpo foi amarrado em um pau e levado pela cidade, em mais um cortejo sinistro.

Enquanto isso, o povo pacato acompanhava incrédulo. Ritinha Coelho se compadeceu do mártir e envolveu o cadáver em uma esteira de piripiri. O padre foi levado para Recife, mas no caminho o barco naufragou e ele foi dar na praia de Pititinga. Lá, morreu misteriosamente. Outro mártir desta mesma causa foi o Padre Miguelinho. Era um sujeito bom, baixinho, estudioso e idealista. Talvez por ter ido estudar em Lisboa. Sua grande atuação política, porém, não foi em solo potiguar. Destacou-se em Recife, preparando um projeto de libertar o Brasil do pesado jugo patrocinado pela Coroa Portuguesa.

Mas o padre era ingênuo, quando foi apanhado por seu algoz, o Conde dos Arcos, teve chance de sair ileso. O conde ofereceu uma saída, disse que as assinaturas dos documentos comprometedores poderiam ter sido falsificadas, um típico jeitinho brasileiro de resolver as coisas, mas o fradinho não aceitou a burla, queria ser herói. Foi morto a tiros de arcabuz, no Campo da Pólvora, em Salvador. Veja como são as coisas, nós também tivemos nosso Tiradentes, também demos nosso grito pelo sonho de liberdade, mas ninguém nos ouviu. Ninguém nunca ouviu nossa voz, crianças. Ficamos para sempre em silêncio.

7

Não se pode contar uma história só com ação, fala por fala, fornecendo doses homeopáticas de mistério só para mantê-lo até o fim da narrativa. É preciso dar um tempo para o descanso da mente e buscar outros caminhos na sabedoria, na memória, na metafísica ou na poesia, pois toda obra de arte guarda um segredo. Mas, por enquanto nos contentaremos com essas poucas notícias do cotidiano de um tempo que já se foi.

O tempo escorre como um rio de leite na noite estrelada.

A cidade já mostrava sinais de amadurecimento quando encontramos o menino em um dos mais belos dias de sua infância. O dia da inauguração do sistema de iluminação elétrica em Natal. Que belo espetáculo, ver os bondes elétricos que substituíram os antigos bondes puxados a burro! Jonas, porém, não podia andar nos bondes, era muito pequeno e o preço, dizia o pai, era proibitivo. Natal expandia-se morro abaixo, pela Cidade Alta, Ribeira, Rocas. O pai costumava descer ao largo da Ribeira, onde estava sendo construído o teatro e sempre levava o menino junto para brincar no parque em frente. Estava lá, no dia em que os operários ergueram a estátua (construída especialmente pelo escultor francês Mathurin Moreau, diriam os professores de arte mais tarde) para colocá-la no jardim da entrada.

No dia da inauguração, a família Camarão, pai, mãe e filho juntaram-se a uma multidão de curiosos para ouvir a banda de música tocar dobrados. Espetáculo com sua nota triste, pela presença de flagelados que vinham receber donativos do Governador. Lá dentro, os ilustres convidados assistiram a uma pequena peça de Henrique Castriciano e ouviram o barítono Luigi Maria Smido cantar uma ária de O Guarani, de Carlos Gomes, e outra do Barbeiro de Sevilha, de Rossini, acompanhado pela orquestra.

Uma grande festa que entrou pela noite. A família Camarão, porém, não pôde assistir aos festejos até o fim. O menino dormia no colo da mãe e precisavam voltar para casa, subir para a Cidade Alta. Já era tarde e os vadios boêmios das turmas de xarias e canguleiros já andavam pelas ruas, tirando o sossego das pessoas decentes. Eram os arruaceiros da época, que costumavam entrar em confronto cada vez que se encontravam. Em casa, o menino dormia acalentado pelo som da festa ao longe, a mãe o cobria com o lençol de algodão, solfejando alguma canção de ninar que ficara dos tempos de outrora, “boi, boi, boi… boi da cara preta, pega essa criança que tem medo de careta”.

Aos domingos, a família voltava ao coreto da Praça Augusto Severo, para ver o maestro Tonheca Dantas afinar os instrumentos, aprumar a batuta e começar a tocar a valsinha Royal Cinema. Mocinhas passeavam ao redor, sob os olhares severos das mães, pais fumavam charutos e conversavam sobre política em voz baixa enquanto os rapazes desamarrotavam um vinco imaginário do paletó e ajeitavam o lencinho no bolso, olhando de esguelha para as moças. Em tais ocasiões o bairro se enchia de cor e alegria. Pois era tarde e a cidade espreguiçava-se toda em sua beleza dominical, chapinhando entre o Potengi e o Atlântico.

A música percorria os telhados do casario, e os trabalhadores que passavam a caminho do porto paravam um pouco, para escutar, acompanhando o ritmo da música que fluía como um barco a vagar. Até o rio retardava sua marcha para ouvir melhor os acordes da valsa. O motorneiro não se atrevia a tocar o bonde e deixava o tempo valsar, valsar, valsar… Aos domingos também era um bom programa fazer um passeio às margens da lagoa Manoel Felipe, subindo a margem do pequeno riacho a partir do Baldo.

Foi mais ou menos por essa época que Jonas ia passando pelo Largo da Ribeira, quando viu uma movimentação de operários ao redor do Teatro Carlos Gomes. Menino curioso, perguntando a um e outro, ficou sabendo da reforma que o governador Alberto Maranhão mandara fazer e o prédio, que já era bonito, ficou mais lindo ainda, com a beleza que o acompanharia pela vida afora até a velhice. No centro da cidade era inaugurado o Cine Politeama.

O avô lhe contava da primeira exibição de filmes em Natal, quando um tal Nicolau Parente exibiu em um armazém da Rua do Comércio, na Ribeira, imagens do Jubileu da Rainha Vitória, um sucesso de público. Ia longe o tempo dos teatros de palha, dos quais tanto falava o avô; da intolerância que reprimia pelo fogo a ousadia dos atores e queimava sucessivamente as casas de espetáculo; da brutalidade da polícia, cercando o teatro para levar “Voluntários da Pátria” à Guerra do Paraguai. Um jornalista chamado Carlos de Souza vai contar essa velha história em uma peça de teatro intitulada É Tudo Fogo de Palha, divertimento inocente para a patuleia.

Os tempos eram duros. Mas agora a arte de representar recebia aplauso e incentivo do homem poderoso da província, Alberto Maranhão. O menino passaria os próximos meses visitando o local para ver o desenrolar das obras. Sempre que ia ali, olhava encantado o teatro com sua fachada majestosa; a entrada larga dando passagem ao jardim, vendo-se aos lados os pisos paralelos; compartimentos forrados de madeira nobre, além de mosaicos importados da Europa, tudo em tons rosa. A imponência dos portões de ferro, especialmente fundidos em Paris e chegados (trazidos?) de navio paquete.

Toda uma beleza antiga que enchia o menino de admiração. A família Camarão também descobriu, maravilhada, a novidade do bonde elétrico, da energia elétrica e sabia até de pessoas que tinham telefone funcionando em casa. E os trilhos, que antes só iam até a Hermes da Fonseca, levavam agora os passageiros até o Alecrim. À noite, sob a luz do poste de energia elétrica defronte da casa, o avô falava da Guerra do Paraguai. Menino, essa guerra não teve nada de heroico para os pobres.

Certa noite, os soldados saíram à cata de qualquer coitado que encontrassem pelas ruas. Na Ribeira, Rocas e arredores, foram presos pescadores que iam para o mar. Mulheres e crianças choravam a partida dos entes queridos. Muitos foram para nunca mais voltar. Olinto Meira era o presidente da província. Nos discursos, incitava ao voluntariado, mas poucos se ofereciam ao sacrifício. O conselheiro Brito Guerra também não media esforços. No mais, era a brutalidade do recrutamento na marra. No interior, injustiças, abusos foram cometidos. Até deficientes físicos eram recrutados. Tinha um sujeito chamado Alferes Rolim que não respeitava ninguém. Até mesmo um teatro de palha na Cidade Alta foi invadido e alguns atores foram recrutados à força. Artistas eram tratados como vagabundos. Muita gente fugiu e se embrenhou pelo interior, muita cidade surgiu disso, sabe? Locais de difícil acesso como os confins das salinas de Grossos e Areia Branca eram muito procurados pelos fugitivos.

Os pobres pagaram caro por essa guerra idiota, totalmente inventada pela Inglaterra por razões estratégicas, para sufocar o avanço da nação paraguaia. Foi um genocídio, matamos quase a totalidade da população adulta daquele país, sabe? Devíamos ter vergonha disso. Dizia o profeta: “O herói vai ser a estopa, sua valentia, a faísca, as duas juntas queimarão sem ninguém que as apague”. É sempre a mesma merda. O menino ouvia a tudo sem entender direito, imaginando como seria a vida dos soldados no Paraguai. Em dias de chuva olhava os pingos caindo na bacia do quarto de uma goteira no telhado, como se o tempo fosse contado em gotas. As coisas simples parecem às vezes ser tão estranhamente belas que é melhor nem falar. Por isso ele guardaria só para si essas horas passadas ao lado do avô, ouvindo velhas histórias, sempre ao anoitecer, quando sentavam na calçada, o avô na espreguiçadeira, desfiando uma e outra lembrança.

Um dia Juca Guiné chegou para Jonas e Ciço e disse, meninos vamos sentar aqui um pouco na praça que eu tenho uma história muito antiga para lhe contar. Estão vendo aquela igreja ali, é a do Rosário. Foi em meados do século passado que um viajante tropeiro, de passagem por Natal, disse-me que assistiu consternado à execução de Zé Pretinho. A forca encravada no alto da ladeira, bem ali onde se descortina essa ladeira que vai dar na Ribeira, Rocas e Santos Reis.

O pobre homem morreu espumando, os olhos esbugalhados, olhando pela última vez o rio, o mar, as dunas da Redinha. As poucas pessoas que assistiam à execução naquela manhã de sol não acreditavam na culpa do pobre diabo, talvez só os homens da lei. Que crime hediondo cometera o pobre homem, além do fato de ser desmiolado e negro? Nunca se saberá. Suas últimas palavras parecem ter sido: “Olha, daqui de cima dá para ver as jangadinhas…”

Não foi a única execução daqueles tempos terríveis de pena de morte. Foi também enforcado Inácio José Baracho. Depois, o soldado Alexandre Barbosa ia passando de madrugada pelo Baldo, quando viu uma mulher sozinha. Era Ana Marcelina Clara, uma velha alemã apelidada de Hamburguesa. Não se sabe o que aconteceu ali, um assalto, uma tentativa de estupro? O fato é que o soldado assassinou a mulher e foi enforcado no ano seguinte. E, por fim, a última execução de condenados em nossas terras: o réu Valentim José Barbosa foi fuzilado na Campina da Ribeira, sem dó nem piedade.

É o que digo sempre, meninos, não há mistérios no mundo, apenas os que Deus deixou entre o céu e a terra. São demais para o entendimento de uma cabeça de menino… O professor era incansável e pouco se importava se os meninos estavam bocejando, continuava sua ladainha sem parar. Imagine o grande Felipe, o Camarão, provavelmente seu ancestral, Jonas. Estava por ali comendo camarões e matutando, matutando, o que posso fazer para expulsar esses branquelos da minha vila? Todos eles, não só o galego de fala atrapalhada, mas o outro de voz mansa, o rei da traição, ora, mas o que estou dizendo? Sou um fiel vassalo d’El Rey, deve ter pensando ele, puta que pariu, nem mesmo entendo esse Deus deles que mandou o filho ser crucificado, só para salvar uma meia dúzia de putos. Eu que deveria dominar todas essas terras, meus irmãos espalham-se do baixo Jaguaribe até a Serra de Apodi, descendo pela várzea do rio Assu, se espraiando pelos litorais intermináveis. Agora ali estavam todos escravizados, aprisionados em aldeamentos cristãos… Ah, meu sangue ferve por vingança! Por que fizeram guerra aos holandeses? Não sei porque escolheram o lado dos portugueses, cada um faz o que quer da vida, né?

Ah, temos alguns heróis, sim senhor. O nome de um deles era Jaguarari, de nascença, Simão Soares, por obrigação de dominador português. Veja só, isso lá é nome de gente guerreira, meu caro? Jaguarari, sim, nome de homem valente, tio de seu ancestral Potiguassu, Jonas, ele mesmo, o imperador dos gentios.

Quando os holandeses desembarcaram na Baía da Traição, foram logo escravizando mulher e filho do grande guerreiro. No auge da dor, ele decidiu se entregar ao inimigo. Os holandeses, percebendo sua liderança sobre as tribos, resolveram trocar a família por outros jovens índios que seriam levados para conhecer a Europa (ora, vejam só, nossa vocação para o turismo nasceu cedo).

Os portugueses não gostaram da transação e prenderam Jaguarari, acusado de traição, logo que os holandeses deram o fora. Foram longos oito anos de prisão no Forte dos Reis Magos. Você não imagina o que é ficar preso ali, rapaz, por tantos anos. Não é bom ficar preso em lugar nenhum. A prisão não foi feita para o homem. É uma violência contra a natureza. Tanto faz na Ilha do Diabo como em qualquer cadeia do interior. As coisas são como são e ponto final. Jaguarari estava lá, a ferros, vivendo de pão e água. Isso estava enfurecendo a tribo e os holandeses estavam prestes a tomar o Forte.

Não era uma boa política para o capitão-mor Gouveia. Veja bem o que nossos políticos herdaram da velha tradição. Decidiram jogar o homem por sobre a muralha. Já viu como é alto? Mentira ou não, o fato é que ele conseguiu escapar das pedras e das ondas e nadou para o mar aberto sobre uma tábua, cansado e ferido. Nadou uma légua até chegar a uma praia onde havia uma aldeia de índios amigos, pras bandas de Jenipabu. Deixou um depoimento para os tempos futuros. Lutara com os portugueses na conquista do Maranhão ao lado de Jerônimo de Albuquerque, prestara fidelidade a El Rei de Portugal e estava pronto a lutar novamente ao lado de Felipe Camarão, o Grande. E, no entanto, não se pode confiar nunca nem em heróis e muito menos em políticos, que isso já vem de longe.

Contam que, na Guerra Holandesa, soldados batavos eram atacados de vez em quando por um regimento de mulheres, comandado pela guerreira Clara Camarão, nossa avó ancestral. Dizem que é mentira, pura lenda, mas li isso em algum lugar, não lembro bem agora. Só sei é que em meio à fumaça do canhoneio surgiam de repente umas guerreiras, saltando sobre as trincheiras abertas na areia da praia, semeando o pavor entre os combatentes. Mulheres nuas, banhadas em sangue, empunhando lanças, tacapes e facões. Uma visão difícil de esquecer para quem sobrevivesse.

Jonas ouvia encantado o professor contar todas aquelas histórias, mas também prestava muita atenção nos comentários feitos à surdina na hora do jantar. O pai, pequeno feirante, temia pelos anos vindouros. O estado tinha atravessado anos de seca terrível, peste de varíola e agora ouviam que o governador Alberto Maranhão ia pedir um empréstimo aos franceses. Uma família pobre e apegada aos valores tradicionais do sertão não conseguia admitir a ideia de se pedir emprestado a quem quer que seja. Em sua humildade, achavam precipitada essa atitude do governador, mesmo em nome do progresso. O avô retrucava, fazia considerações. Isso é perigoso, é perigoso. Não sabiam que, há muito, o Brasil já estava endividado com outras nações.

O governador era um político moderno, amigo das artes, das festas, das tertúlias literárias, é um homem bom, precavido, pelo menos reformou o mercado velho no primeiro mandato, ou você já esqueceu? Aquilo estava em vias de desabamento, papai. Ninguém tinha mais coragem de comprar nada debaixo do antigo teto.

O velho lembrava os tempos difíceis de tropeiro, trazendo farinha do agreste e carne seca do sertão para vender, de porta em porta, em Macaíba e Natal. Nesse tempo falava-se muito de política em casa. Havia um homem corajoso na oposição. O capitão José da Penha falava abertamente dos gastos do governo, no pendor para favorecer a família, a oligarquia dos Albuquerque Maranhão. O povo ouviu atento e na eleição seguinte elegeu um antigo aliado dos Maranhão, mas que agora se transformara no mais feroz opositor: Ferreira Chaves, que já havia sido anteriormente o primeiro governador eleito pelo povo.

E o avô ia contando coisas que sabia sobre a cidade. Você precisava ter visto o padre João Maria, meu filho. Quando cheguei para comprar o terreno e construir essa casa, ele era o pároco daqui. Um dia, o velho padre José Hermínio adoeceu e propôs ao padre João Maria, que era pároco de Papary, uma troca de paróquias. O bispo Dom Vital aceitou e ele assumiu a paróquia de Nossa Senhora da Apresentação, em Natal. Era um homem santo, meu filho. Sempre maltrapilho, andando em lombo de burro ou a pé para atender qualquer pessoa que estivesse doente ou sentisse fome, sempre disposto a dar sua camisa e até a batina para quem não tivesse roupa ou então dava sua rede de dormir e dormia no chão duro.

Quando as beatas reclamavam ia dormir num sofá, na entrada do Consistório. Assumiu a luta pela libertação dos escravos em solo potiguar, tínhamos poucos, mas era uma vergonha, isso, num sabe? Foi padre João Maria quem começou a construção da Catedral Metropolitana, aquela igreja que está sendo construída na Cidade Nova. Era um homem ativo, menino, matinha a publicação de vários religiosos que combatiam a maçonaria. E como ele trabalhava, parecia incansável. Ao seu lado, alguns natalenses lutaram pela sua causa. Homens notáveis, como o poeta João Gotardo Neto. Padre João Maria enfrentou o problema da peste de varíola, expondo sua pessoa a todos os perigos. Parecia não temer a contaminação. Isso não foi bom para ele, pois no ano seguinte viria a falecer, não de varíola, mas de tantas privações para ajudar aos outros. Um santo de verdade, meu filho. Jonas ia escutando essas conversas e gravando tudo na mente (mais tarde, estaria presente na inauguração do busto de bronze do padre João Maria na praça que leva seu nome).

8

O tempo passou e agora Jonas era um garoto na flor da adolescência, rapaz que gostava de ajudar o pai no mercado da Cidade Alta, amava o cheiro das frutas, mangas, cajás, cajus, jabuticabas e do vozerio da feira; a gritaria dos marchantes, vendedores de peixe, meninos, ajudantes e cabeceiros. Era alvoroço e festa para um adolescente. Olhava para tudo com o encanto dos descobridores, ouvindo as conversas, sentindo o cheiro, admirando as cores, provando o gosto dos alimentos, das especiarias.

Para ele, o melhor fruto era aquele de formas arredondadas, gomos salientes, casca verde e dura que se abria leitoso para mostrar no interior a cor do sol poente: jerimum. Seu avô costumava dizer que para se fazer um bom jerimum basta água e sal. Mas vamos em frente com nossa história que a noite já vai alta. Vou lhe contar uma história verdadeira, meu neto. Conheci um homem que viveu 120 anos, acredite. Foi o preto velho Carlos Borromeu da Silva, morava no bairro de Lagoa Seca. Você não acredita, né? Mas é verdade.

De vez em quando ficava pensando na finitude humana. Que grande mistério era esse que regia o nosso relógio biológico. O que fazia com que alguns organismos resistissem tanto enquanto outros pereciam tão rapidamente? Uma tartaruga pode viver 200 anos. Por que o ser humano não pode? Jonas sonhava com o dia em que a ciência descobriria a chave deste mistério e prolongaria a vida muito mais do que imaginávamos. Vidas tão longas assim não seriam bom motivo para se evitar os grandes massacres?  O menino cismava balançando na rede.

Um dia o pai o levou à inauguração da Ponte de Igapó, uma incrível ponte de concreto e aço, construída sobre o rio Potengi para a passagem do trem até Ceará-Mirim e Extremoz. Foi sua primeira viagem de trem, uma aventura que se tornaria inesquecível para o menino. Antes disso, essa viagem só poderia ser feita atravessando o rio de barco até a Estação de Coroa (garanto que as pessoas preferiam chamar o local de Estação da Croa), em Igapó. Desta forma transcorriam esses dias maravilhosos de sua infância.

Como a maioria dos garotos pobres de sua idade, não frequentara a escola na idade mais tenra. Aprendera as primeiras letras com a mãe, professora primária de uma dezena de alunos. Heloisa dava aulas na mesa da cozinha mesmo e era uma apaixonada leitora de poesia. Tinha em seu quarto um baú cheio de livros. Com o dinheiro que arrecadava nas aulas ministradas aos meninos da vizinhança comprava, para seu luxo, as bijuterias trazidas pelos mascates, que vendiam todo tipo de quinquilharias, na maioria das vezes, vindas do Ceará ou de Recife em lombo de burro. Esse costume provocava sempre a ira do marido. Quem é que pode com uma mulher dessas? Gastando as poucas economias com besteira, onde já se viu tanta vaidade nesse fim de mundo? hum, hum! Eram os raros momentos de briga, de destempero doméstico. Ao que ela retrucava sempre, compro com meu dinheiro suado, não estou tirando da boca para o bolso, você é que devia trazer mais para dentro de casa, e saía emburrada para catar feijões na cozinha.

Isso era bem verdade, pois era mulher de economias, cuidadosa com o orçamento doméstico; o marido é que ganhava pouco mesmo. Depois do arranco, ficava arrependida das palavras, cercava o marido de dengos, preparava um doce para a sobremesa, um feijão com toucinho e ficava tudo bem de novo.

Sabe-se que o menino concluiu a segunda fase dos estudos no Grupo Escolar Augusto Severo, na Ribeira. Agora o pai fazia complicadas contas, sonhava em vê-lo no Atheneu Norte-Rio-Grandense, que ficava num antigo prédio de longa balaustrada que dava para a Rua da Cruz (e que viria a se chamar depois Junqueira Ayres), ali pertinho de casa. Era uma escola construída para os filhos dos ricos e mantinha no corpo docente os mais respeitados mestres, uma das mais antigas escolas do Brasil, anterior mesmo ao Colégio Dom Pedro II, no Rio de Janeiro.

Era difícil para a família Camarão, exigia muitas despesas. Não era uma escola para pobres, repetia o pai. A opção óbvia era a Escola de Aprendizes Artífices, na Avenida Rio Branco, insistia, o menino precisava aprender uma profissão. A interferência da mãe foi providencial e definitiva. Ela foi ao quarto e trouxe um embrulho de pano de renda cheirando a alfazema. Do interior faiscaram as moedas e as notas de mil réis. Eram anos e anos de dura economia. Ele iria, sim, para a escola dos ricos e ponto final. O Atheneu ficava a meio caminho do mercado, assim podia dividir a atividade de feirante junto ao pai, pela manhã, e se dedicar aos estudos no resto do dia.

O avô ouvia a tudo com atenção e até com um certo alvoroço, pois temia perder as horas de delícia que passava junto ao neto na boca da noite, contando antigas histórias. E foi o que fez naquela noite, ao vê-lo deitado na calçada olhando as estrelas…

Na escola, Juca Guiné interrompia a aula de matemática para dizer: Vocês acreditam na força do destino? Pois vou lhes contar a mais absurda de todas as histórias. Sabia que Napoleão Bonaparte poderia ter vindo parar em Natal, quando esteve preso na ilha de Santa Helena? É sim, um sobrinho do marechal Grouchy (o mesmo que, como se descobriu depois, foi um dos culpados por sua derrota em Waterloo) esteve em Natal, na época do governador José Inácio Borges. Espere, o nome dele era Luís Adolfo de Pontecoulant, isso mesmo. Estava conspirando para tirar o homem da prisão e trazer para cá, acredita? Mas, por que Natal? Imagine se isso tivesse acontecido. O que seria de nós e da história da humanidade? Pensem nisso.

Sem perder o prumo, o velho professor já encadeava outro discurso através da história potiguar. Lembram que os holandeses foram expulsos e deixaram Natal em ruínas? Pois bem. Passaram-se mais ou menos duas décadas de paz, quando surgiram os primeiros rumores de guerra. Índios pegaram em armas contra a escravização de seus guerreiros. Desciam pelo vale do Assu destruindo e matando tudo que encontravam pela frente.

Eram os Pegas, Paiacus, Icós, Caratiús, Caicós, Panatis, Janduís, índios valentes, e os Cariris, pouco afeitos à colonização. A cidade alarmou-se. Índios atacaram o Ferreiro Torto, em Macaíba, ninguém conseguia mais dormir direito. Depois atacaram Ceará-Mirim. Ai, Deus nos acuda! Felipe Camarão, meu ancestral (que vergonha!), foi convocado para combater seus irmãos. Juntou-se às tropas do negro Henrique Dias e aos paulistas, criando essa balela das três raças tristes. Tudo é uma questão de sobrevivência, meu nego, nessas horas a ideologia é a dos que mandam no ouro, nas terras e nas armas.

Não tem esse negócio das três raças, não. Guerra esquisita, feita de encontros e recontros, avanços e recuos, guerra de guerrilhas, cansativa, feia, sujeita a crueldades. As tropas iam para o interior e ficavam às custas do fazendeiro. Acabavam dizimando o gado mais rápido que os ataques indígenas. Soldados famintos desertavam. Um inferno! Um certo capitão Faleiro foi mandado a Lisboa dar notícias a El Rey. Uma desgraceira geral, majestade, mais de duzentos colonos mortos, rebanhos dizimados, cavalos roubados, lavouras destruídas, tropas desmoralizadas. Até Domingos Jorge Velho, acostumado a estripar negros, botando-os pelo avesso lá pelas bandas de Palmares, foi escorraçado do Assu pelos gentios. Era assim mesmo. Lá, o feroz Cunhanbebe aterrorizava os inimigos com seu colar de dentes humanos.

Não era fácil vencer aquela gente. A guerra só teve fim com a nomeação do capitão-mor Bernardo Vieira. O homem jogou toda a força das armas e da persuasão. Os índios não resistiram, foram amansados e ganharam glebas de terra para plantar. Aos poucos, as terras foram sendo retomadas pelos poderosos locais e tudo voltou ao normal, ou seja, quem manda nessa porcaria? A guerra dos gentios, guerra dos índios, guerra dos bárbaros serviu pelo menos para alguma coisa.

Todos os caminhos e veredas do sertão ao litoral da Capitania do Rio Grande do Norte ficaram conhecidos. Índios apaziguados e aldeados. A raça potiguar se diluíra nos olhos puxados, a pele amorenada e beiços acaboclados. Nada se dirá depois deste grande, valente e valoroso povo, apenas nos nomes das tribos que se transformaram em ruas no bairro das Quintas, Alecrim e Lagoa Nova. E assim se deu.

O professor estava diferente naquele dia. Alguns alunos até vislumbraram alguma água em seus olhos. Estava terminando a primeira fase de estudo daqueles meninos. Por hoje é só, vamos que está na hora de ir para casa. Hoje é o último dia de vocês aqui na minha escola. Agora vocês vão seguir seus caminhos sós, cada um com as suas possibilidades. Desejo a todos uma boa sorte e muitas felicidades. O professor virou o rosto para o quadro negro e pareceu enxugar algo no rosto. Os meninos saíram e ele ficou ali sozinho de pé. Jonas ainda o viu caminhar encurvado até a estante e retirar um velho livro, sumindo no interior da casa.

Nesta noite, Jonas foi dormir pensando na guerra dos índios e sonhou com um pássaro que soltava penas que eram bombas explodindo sobre a cidade. Acordou suando muito e com a respiração opressa, mas não descuidou em tomar banho e arrumar as coisas para ir à nova escola no primeiro dia de aula. Passou a manhã nessa angústia, entrou pela tarde e não queria contar o sonho para ninguém.

Ademais, não tinha amigos para conversar, era muito reservado. Ficou com aquilo preso no peito. Na escola, não gostou do ambiente, os meninos bem vestidos nos paletós de estudante, a gravata em laço, os sapatos lustrosos. Entretanto, do que mais se admirou foi ver como o filho do Coronel Cascudo se destacava dos demais. Era um menino meio gordo, de olhar manso que observava a tudo em silêncio, como se fosse dono de uma sabedoria reservada a poucos. Fazia parte das turmas mais avançadas, mas no intervalo era sempre visto misturado aos outros das séries inferiores, trocando ideias, ouvindo, participando. Ou então ficava lendo algum livro pelos cantos enquanto a maioria ia olhar a passagem do bonde, que passava em frente à escola e agora ia até Areia Preta. Jonas procurou saber mais sobre aquele rapaz e aos poucos ia reconstruindo uma imagem toda própria de Cascudo. Voltou tarde da escola naquele dia e só pensava nas horas de descanso que teria depois do jantar, na conversa com o avô, para ver se esquecia o sonho ruim. Percebeu que os pais também estavam agitados, falava-se em surdina pelos cantos, a mãe andando nervosa, torcendo as mãos no avental; o avô com o ouvido colado no velho rádio de madeira; o pai balançando a cabeça, feito um lagarto diante do prato de sopa.

Foi aí que ouviu a palavra fatídica: Guerra! E isso o assustou muito. Onde, meu Deus? Onde, por caridade, pode estar acontecendo algo tão assustador? O pai disse que leram um telegrama para todos lá no mercado. A Europa estava em guerra. Mataram um arquiduque, um tal de Ferdinando, num lugar distante chamado Sarajevo. E isso é lá motivo para se começar uma guerra, minha nossa senhora?

Na cabeça do rapaz tais problemas de adultos eram difíceis de entender. Ah, complicações da política no mundo, por que não resolvem com uma boa conversa? E isso vai nos atingir? Ninguém sabe. Guerra é guerra e pode sempre chegar até nós. Não, não chegará, Deus nos proteja, rezou alto, a mãe. De fato, não chegou. Os anos vindouros foram de sustos, apreensões a cada nova notícia.

A vida seguia tranquila em Natal, como a de qualquer rapaz dessa época. Pelas páginas do jornal A República, que o pai trazia da feira, ficava sabendo notícias da guerra distante. Na escola era um rebuliço. Cascudo era o mais agitado de todos, tinha opinião para tudo, sempre pronto para as mais acaloradas discussões. Neste mesmo ano, o Coronel resolveu montar seu próprio jornal, A Imprensa. Foi aí então que Cascudo escreveu os primeiros ensaios.

Os jornais estampavam as notícias: alemães torpedeiam o navio mercante brasileiro Paraná, a dez milhas de Barfleur, na costa ocidental da França. Comoção geral. Nos meses seguintes mais dois navios foram atacados por submarinos alemães: Lapa e Macau (notem a coincidência do nome). Indignação geral, mas como pode ser isto? Vamos ter que suportar essas humilhações? Depois foram afundados os navios Acaré e Guaíba. Esta foi a gota d’água. O Brasil entrou na guerra sem qualquer preparação para ações de combate.

No início, o país enviou uma missão médica e forneceu navios para auxiliar no transporte e abastecimento. Depois, aviadores navais foram enviados para treinamento na Royal Air France. Então, o almirante Alexandrino de Alencar resolveu que a Marinha Brasileira participaria do teatro de operações de guerra, já em 1918, quase no final da guerra. Neste mesmo ano, nove embarcações brasileiras contornaram a ilha de Fernando de Noronha e entraram na área de combates do Atlântico, rumaram para Serra Leoa, depois para Dacar.

No caminho, enfrentaram um submarino alemão que atacara o navio Belmonte. Porém, foi o navio Rio Grande do Norte que atingiu o navio inimigo. É a glória, pensaram todos, mas, os combatentes navais brasileiros não tiveram muito tempo para comemorar a vitória. Pouco depois, grande parte da tripulação dos navios foi atingida pela gripe espanhola. E em seguida a Alemanha e os aliados assinaram a capitulação. Era o fim da guerra, noticiavam os jornais. Dessa forma, a guerra entrou para o cotidiano de muitos potiguares, sem maiores atropelos nem episódios de grande monta.

Foi a partir daí também que Jonas percebeu melhor aquele garoto meio gorducho, de olhos claros, cabelos escorridos, lábios finos e sobrancelhas de coruja. Aquele rapaz era algo mais que um simples estudante mais brilhante que a maioria. Desde este dia, começou a acompanhar sua trajetória. Câmara Cascudo inaugurou neste período uma coluna de crítica literária chamada Bric-à-Brac e partiu para a Faculdade de Medicina de Salvador.

Aí Jonas ficou sabendo que Cascudo mudara-se para a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e acabara de lançar o livro de crítica literária Alma Patrícia. Nele, Cascudo faria algo impossível como criar uma literatura a partir do nada. Como alguém perdido nestes confins do Nordeste poderia desenvolver uma convivência literária sem a presença dos grandes nomes brasileiros? O intelectual Moacy Cirne tem uma reposta para isso. Em Natal existiria “um acontecimento cultural à procura de luz própria”. Ou seja, a cidade se bastava como lugar e como fonte de poesia. O livro não tem grande importância como crítica literária. É um livro de impressões e admirações do autor que mostra a face provinciana de nosso lar. E o mais estranho: Cascudo não gostava de Rimbaud.

Com o passar do tempo Jonas se transformara em um rapaz alto, magro, de pele amorenada e feições indígenas. Era desajeitado, pouco afeito a esportes e amizades, gostava mesmo era de ficar lendo, trancado no quarto, tudo que lhe caía às mãos. Por sorte não parecia totalmente com o tataravô Felipe Camarão, que era um homem feio, de cabeçorra desproporcional e cabelos ralos no alto, o desenho de sua figura tosca nos livros de história era de provocar risos nos mais iconoclastas. Esse esguio descendente do guerreiro potiguar, um rapaz filho de pobres, revelava um inusitado interesse pelos livros. A mãe lhe ajudava nessa tarefa, conseguindo quantos livros e revistas o rapaz quisesse ler. Muitos chegavam nos paquetes oriundos do Rio de Janeiro a caminho de Fortaleza e que paravam em Natal. Sempre que ia com a mãe ver a chegada desses navios, ficava admirado de ver os grandes pacotes de impressos que eram levados para a chácara do coronel Cascudo, no Tirol.

Outra diversão era ficar ouvindo o noticiário no rádio do avô. Notícias do mundo inteiro jorravam por aquela pequena caixa de madeira. Algumas até interessantes como a daquele grupo de escoteiros potiguares que estavam iniciando uma marcha rumo a São Paulo, que loucos, andar tudo isso a pé! O avô estava bem velho, mas ainda lúcido e cheio de histórias. Já não conseguia ouvir direito, comia pouco e conversava menos ainda, a memória prodigiosa, porém, ainda persistia. De vez em quando vinha um lampejo e ele ria lembrando seus dias de tropeiro, suas caminhadas pelo sertão vendendo e trocando mercadorias, conversando com as pessoas em cada lugar, dormindo ao relento ou em qualquer alpendre de pessoas amigas.

Uma noite, estavam todos sentados ao lado do avô na calçada de casa, quando chegou de repente o professor perguntando, já lhes contei a história da botija? Não? Pois escutem. Conta-se que num belo dia irrompeu em Natal, que ainda era uma pequena aldeia com nome de cidade, um grupo de estrangeiros. Ninguém sabia, mas eram os rebeldes amotinados do navio holandês Nyenburg. Chegaram carregados de ouro e prata e fizeram a festa da mulherada.

Compraram chapéus, bebidas e comidas, farrearam muito e se amigaram com algumas mulheres locais. Alguns decidiram até casar com algumas delas. Aí começou a complicação. Eles precisavam ir a Recife pedir a permissão das autoridades para se casar. Alguns deixaram todo o dinheiro com as famílias das noivas, outros enterraram suas fortunas em qualquer arrabalde. Chegando lá, o crime foi descoberto e todos foram mandados de volta para a Holanda, onde a justiça secular apertou o nó em alguns pescoços e pôs a ferros o restante.

Pois bem, foi ordenado o confisco desse dinheiro por El Rey. Os mais alarmados enterraram no fundo de suas terras as preciosas moedas. E nunca mais se falou nisso. Em 1819 foram presos três negros, denunciados pelo porte de algumas dessas moedas que encontraram enterradas na localidade de Pirituba. Era uma botija. Devem existir muitas dessas ainda enterradas em velhas construções potiguares. Aí o professor olhou misteriosamente para Jonas e disse, se você um dia for procurar por alguma botija, por favor, tome cuidado, não conte nunca para ninguém, pois elas trazem consigo muita desgraça. Aquele olhar e aquelas palavras calaram fundo na alma do rapaz.

A palavra botija (anotaria Cascudo anos depois em seu Dicionário do Folclore Brasileiro) vem dos antigos recipientes de barro que continham genebra da Holanda e Bélgica. Para o nordestino, isso significa dinheiro enterrado, moedas de ouro e barras de ouro ou prata, fortuna para quem descobre. Para localizar um tesouro desses é preciso seguir um complicado ritual, procurar sempre à noite, sozinho, em silêncio total e procurar os sinais comunicados no sonho revelador. Não é bom levar tudo, sob o risco de cair em maldição, é preciso deixar nem que seja uma moedinha. Muitos já se danaram por causa da ganância, meu caro. Eu te digo: o mundo se fará em cinzas antes que uma moeda de ouro tilinte no piso de mármore de nossa consciência.

Então, um dia, o amor surgiu na vida de Jonas e não era um amor com feições potiguares. Era dona, sim, de um belo cabelo escorrido que lembrava o cabelo das índias, mas a pele era branca como o marfim. Seu porte era elegante, escorreito, com as panturrilhas e coxas grossas, mais para espanholas que portuguesas de tanta beleza ibérica. Quem era aquela moça? Inquietava-se insone, sem coragem de fazer a pergunta de público. Não podia perguntar ao pai, pois poderia não compreender a intenção. À mãe, nem pensar. E o avô, estava velho demais para saber de tais coisas. Quem era aquela menina que passava na porta de casa rumo à igreja todos os domingos? Cismou quieto, esperou, acompanhando-a com o olhar quando ela ia com a mãe fazer a feira no mercado público. O coração disparado ao levar o embrulho de legumes até as mãos tão brancas e finas, naquela pressa dos dias de feira agitada. Arre, que deleite é esse que vem acompanhado dessa dor fina no peito, como um tumor que estoura e escorre pus pelo peito adentro?

Pobre Jonas, tão jovem e já envenenado pelos sentimentos que iria evitar pelo resto da vida. Um dia, quando viesse a descobrir os perigos do amor, garantiria ser mais prudente, mais cuidadoso e não se entregaria assim de maneira tão avassaladora. Entretanto, um dia, saindo da missa dominical, os olhares se cruzaram e se mantiveram assim por segundos que valeram séculos para ele, que a esperou passar pela praça e então reuniu toda a coragem do mundo e sorriu para ela, esperando o desastre iminente do desprezo, do desdém, da rejeição afinal.

A menina sorriu de volta e se aproximou calmamente. Disse que já o conhecia das manhãs de sábado no mercado e gostava desse seu jeito tímido, calado, bem educado. Não gostava de pessoas falantes demais, enxeridas demais. Como é seu nome? Jonas. Então ela perguntou, ah, aquele que foi engolido pela baleia? Ele riu encabulado e disse, é talvez. E o seu? Elisa, ela respondeu. Aí ele brincou, que coisa! Parece uma palavra estrangeira, assim tipo ventos elísios, ventanias elisias, sei lá… E riram juntos.

Jonas ficou encantado, abestalhado pelo fato da menina ter lembrado aquele livro que gostava tanto, puxa! Ela era filha do dono da padaria. Ah, que bom, então moravam tão perto e nem se conheciam ainda direito. Despediram-se com a promessa de um novo encontro. Agora poderiam conversar um pouco no intervalo das aulas, no caminho de casa, nos finais de semana. E ele sempre, sim, sim, sim, todo solícito. Posso lhe acompanhar um pouco até perto da sua casa? Ela sorridente, suave, caminhando leve como um pássaro que flutua sem bater as asas, sem tocar o chão. Claro, vamos caminhando, assim podemos conversar um pouco, você gosta de ler a Bíblia? Sim, minha mãe lê todos os dias trechos da Bíblia para mim e foi de lá que ela tirou o meu nome… Ela disse, é um bonito nome… Ele, de olhos brilhando, encantado com tanta delicadeza, não, o seu sim é que é um belo nome, menina.

Voltou para casa com a cabeça nas nuvens, mal tocou na comida na hora do almoço. A mãe desconfiou, mas ficou em silêncio. Não disse nada, não queria preocupar o pai com tolices juvenis do filho. Secretamente ria daquilo tudo, meu filho, tão novinho ainda e já descobrindo os mistérios do amor… À noite, sentava-se como sempre na calçada com o avô e ficava olhando as estrelas, ouvindo as velhas histórias e sonhando com o negro olhar da menina. O que é o primeiro amor se não esse doce engano, esse torpor dos membros, esse alumbramento? A primeira e tão inocente experiência que marcará todos os jovens de todas as latitudes. Será como um porto seguro em nossos sonhos de adultos, quando a tempestade da vida açoitar os velames do nosso navio à deriva.

Muitos outros amores virão, mas este sentimento primordial será uma marca nos sentimentos que virão. Será como a baliza na boca da barra para guiar as embarcações. A partir daí sempre que o ser humano sentir um estremecimento de amor ou paixão vai lembrar daquela inquietação remota que mudou sua vida para sempre. O amor é uma dádiva para poucos. Somente aqueles que são tocados pelos deuses terão a felicidade de desfrutar a vida inteira daquele primeiro amor, o mais precioso, o mais fugaz. Jonas vai descobrir isso muito depois.

O tempo foi passando assim, entre a suavidade de momentos doces ao lado daquela menina e dos sobressaltos de momentos ruínas quando ele não a via surgir na esquina do colégio, com os livros apoiados no braço, os cabelos presos em um camafeu, linda, muito linda, como nenhuma outra do lugar, pensava Jonas. Ficava ansioso pela hora do intervalo para poder conversar com a moça. Esqueceu até dos passeios pelos afluentes do rio na companhia do amigo Ciço para pescar o peixe mais gordo, mais arisco, mais difícil de pescar.

O menino era um exímio pescador e sabia até a arte de pescar dos indígenas, suas técnicas primitivas, perdidas no tempo. Jonas gostava de vê-lo na proa da canoa atirando uma lança certeira no peixe que brilhava sob a lâmina da água salobra do rio. Para ele, este pequeno pescador iria lembrar sempre o arpoador Queequeg do romance Moby Dick (curiosamente até mesmo pela sonoridade do nome) do malfadado navio Pequod, a maior aventura de sua juventude através das páginas da literatura universal.

Aos poucos, Jonas foi se descuidando até mesmo dos estudos. Já não era um aluno tão aplicado, tirando apenas as notas necessárias para passar. Passava as manhãs em uma agonia lenta, prenhe de ansiedade, lutando para conciliar os devaneios amorosos com a necessidade de concentração para os estudos. Suas tardes, porém, eram de puro deleite, caminhando ao lado de Elisa, aspirando o perfume que vinha no vento através dela, sentindo o roçar dos cabelos da menina em seu rosto, hipnotizado por aquele olhar de um negro profundo, os dentes de marfim orlados por lábios finos e bem rosados. Ah, aquilo era de endoidecer…

E quando cuidou estava na flor idade, um rapaz quieto, sonhador e tolo, vivendo dias que pareciam saídos de um sonho. Jamais esqueceria o dia em que, na sala escura do cinema, o coração aos pulos, tocou delicadamente a mão e beijou os lábios da menina. Tinha um gosto de erva doce e malva de que jamais esqueceria. Um dia, ela lhe pediu para que ele levasse um vestido à costureira, vizinha de Jonas. O vestido ficou em sua casa durante uma noite inteira, estendido sobre a cama ao seu lado, o perfume impregnando o lençol de uma fragrância doce, inesquecível. Que noite incrível, de sonhos doces, sentindo o aroma do vestido, aquele perfume que ficaria gravado para sempre em sua memória olfativa, um certo cheiro de jasmim, de amor, de passado.

Na manhã seguinte consultou o dicionário e encontrou a palavra: Jasminum. Gênero de arbustos e trepadeiras lenhosas, da família das Oleáceas, cujas espécies são quase todas notáveis pelas flores fragrantes. Qualquer planta desse gênero, particularmente a espécie Jasminum officinale, da qual se obtêm óleos etéreos para perfumaria. É também o perfume extraído das várias espécies de jasmins. Jasmim-amarelo: o mesmo que gelsêmio. Jasmim-bogari: o mesmo que bogari. Ai, que cheiro tão doce, que sensação de desfalecimento, que gozo…

As dores da paixão juvenil atormentavam a alma frágil do rapaz. Mas a moça, por sua vez, não aparentava sentir os mesmos ardores. A vida é assim mesmo, as meninas amadurecem mais rápido que os meninos. Além do mais, esse era um jeito comum das meninas mais belas, um modo de ver a vida como um sonho a ser realizado com um príncipe encantado, nunca com um garoto cheio de acne e coração amolecido. Enfim, naquela aparência meiga havia alguém que tinha sonhos de grandeza, da busca de um homem forte bonito e rico que a tirasse daquele mundo tão pequeno em que vivia. E ele não era o rapaz certo para aquele voo tão alto.

Certa manhã, Jonas acordou mais cedo que o habitual e ficou sabendo que pousara no Potengi um avião, ou melhor, um hidroavião. Que alvoroço, que sensação de ansiedade… Da varanda de casa dava para ver ao longe a aeronave flutuando nas águas… Que maravilha! Coisa que só havia visto em fotografias de jornal, agora estava ali materializada na sua frente, maravilhoso. Pensou, preciso mostrar isso a Elisa, e como é comum a falta de discernimento aos mais jovens, correu para a casa da moça sem pensar direito nas consequências de ir procurar a namorada em plena manhã, sem qualquer aviso. Ele foi e ela não gostou. Parecia amuada, diferente, falava olhando para os lados. Ficou desconfiado, aquilo não estava certo. Ela nem dera o beijo costumeiro de despedida. Que coisa estranha! Saiu matutando.

No caminho encontrou um colega de escola que nunca se dirigira a ele e, no entanto, sorria agora um sorriso de deboche. Parou e voltou sobre os próprios passos. Era um garoto tímido, mas não se podia dizer que fosse medroso ou covarde. Segurou o sujeito pela gola da camisa e perguntou do que estava rindo. Ainda não está sabendo, rapaz? Pois Elisa não está de namoros com o sobrinho do padre? Na hora deu um branco, depois uma vontade de encher o atrevido de cachaços e bofetões pela ousadia, mas foi prudente.

Ensimesmou-se, abismou-se, ficou casmurro. Pois não fazia nem uma semana que haviam se encontrado na pracinha da igreja e ela lhe fizera tantas juras de amor! Isso não está certo. Vou falar com ela, disse aborrecido. Mas não falou. Deixou para averiguar o assunto depois. Ninguém notou essa sua nova disposição, porque era de seu natural ficar ensimesmado, calado, afastado de tudo. Dias depois se encontrou com Elisa ao sair da missa no domingo e notou que baixou a vista, evitando o encontro.

Ficou ali parado na calçada, as mãos nos bolsos, olhando-a seguir em frente. Então seus olhos foram aos poucos percebendo o tamanho da tragédia. Viu quando ela sacudiu os cabelos, apertou o passo e correu ao encontro do moço que a esperava na esquina. Era o sobrinho do padre, recém-chegado na cidade. Um moço de boas feições, bem mais velho que ele. Vinha para ocupar um bom cargo público. Só aí percebeu o desmoronar de seu sonho. Não sabia se o súbito formigamento que agora tomava conta de seu corpo era o avançar de uma geleira na direção de seu peito ou se era uma descarga elétrica devastando seu sistema nervoso central.

O choque violento provocado pelas forças misteriosas que se abatiam sobre ele o fez sentar no banco da praça para respirar melhor. O que sentia de imediato era um desejo louco de vingança. Sentia aquele gosto de sangue na boca que poderia ser o indício de uma violência que culminaria num banho de sangue ali na praça. Uma autêntica tragédia italiana como aquelas que ele lia nos livros. Mas nada aconteceu. Ficou ali plantado durante horas sem poder se mover do canto, olhando as folhas das árvores, acompanhando o movimento das nuvens. Pensou melhor, melhor esquecer isso, tocar a vida, retomar o rumo normal das coisas.

Voltou para casa quando já era noite e trancou-se no quarto. Não soltou um suspiro sequer, mas sentiu como se um deserto estivesse se formando em seu peito, se alastrando pela sua alma até se transformar em ódio puro pela humanidade. Ninguém vale nada, pensou. Tudo um bando de canalhas, interesseiros, aproveitadores. Ninguém liga para a dor alheia. Em sua ira juvenil, esquecia que a dor de cada um é sempre maior do que os problemas universais. Que cada um deve carregar o seu fardo de decepções sem sair colocando a culpa nos outros. Ficou remoendo suas mágoas até a madrugada anunciar a chegada da manhã com o canto dos galos e deixou o sono chegar.

Acordou tarde, quase na hora do almoço e sua mãe estranhou, mas não disse nada. Comeu pouco e voltou para o quarto. Mergulhou na leitura de seus livros queridos e ficou assim por vários dias. Aos poucos sua rotina foi voltando ao normal e dias depois procurou o amigo para combinar uma pescaria. Já não sorria da mesma forma, com aquela franqueza de antes, notou o amigo, mas ainda era o bom camarada Jonas. Naquele dia conseguiram pescar a maior quantidade de peixes já vista em suas pescarias. Os olhos dos rapazes brilhavam de pura alegria. Levaram todo o peixe para a casa de Ciço e prepararam uma farta refeição onde se conversou de tudo um pouco até a exaustão. É, amigo, a vida continua, dizia tentando consolar a si mesmo.

Levantou na manhã seguinte com a disposição de fazer uma longa caminhada para a longínqua praia de Ponta Negra. Foi uma aventura de cansaços e prazeres inesquecíveis. Pegou uma mochila com frutas, pão e água e saiu no caminho que dá para a estrada velha de Parnamirim. A partir de certo momento começavam a rarear as casas e só se via aqui e ali um sítio isolado, uma lagoa, um pomar. Tomava-se uma picada de terra que ia serpenteando em meio ao matagal. Lá na frente, dobrava-se à esquerda no rumo do nascente e já se podia ouvir ao longe o rugir das ondas quebrando na praia. Depois de suar muito debaixo do sol que já ia alto no céu, vislumbrou então uma enseada lá embaixo, coroada na ponta por uma duna, que mais tarde iria ser conhecida como o Morro do Careca, e apresentava um estreita faixa de terra em meio ao verde do mato. Ele desceu correndo para a praia e mergulhou nas ondas com volúpia, absorvendo com olhos, pele e alma a imensidão daquela beleza absoluta.

Em seguida, caminhou até a duna e resolveu subir pela picada aberta. Olhando para os lados do poente podia ver apenas pequenos casebres de pescadores: era a antiga vila de Ponta Negra que vicejava em meio à mata fechada de mangueiras, mangabeiras e coqueiros. Lá de cima da duna, abarcou com os braços toda aquela paisagem e sentiu que o amor pode ser algo bem maior do que nossos pequenos sentimentos pontilhados de desejos. Do fundo de seu ser prometeu nunca mais pensar em Elisa ou qualquer outra mulher daquela forma tão arrebatada. Iria se tornar um homem racional, sóbrio, dono de seu destino. Iria se dedicar mais aos estudos e ao trabalho, assim poderia organizar melhor seu futuro. Prometeu a si mesmo que daquele momento em diante seria um homem mais sensato.

Após este dia passado inteiro no Morro do Careca, nunca mais foi o mesmo. Odiava qualquer referência à palavra traição. Qualquer livro sobre o assunto, ao mesmo tempo em que lhe causava prazer, também lhe proporcionava asco. Madame Bovary, por exemplo, fazia com que admirasse o gênio criador de Flaubert, mas odiasse qualquer mulher que fosse parecida com a grande personagem da literatura francesa. De todas as obras de Shakespeare, a única que amava e detestava profundamente era Otelo. Sabia da grandeza do texto, da imensa criação que era o personagem Iago, mas não suportava a fraqueza daquele homem negro que, mais preconceituoso com a cor da sua pele, não podia suportar o amor de uma mulher branca e se deixava embeber do hálito venenoso de Iago. Aquele fraco homem que acreditou piamente no infortúnio das palavras de um invejoso e levou sua amada à morte de forma tão infame. Pobre e virtuosa Desdêmona. Detestava também Capitu, aquela criação maléfica de Machado de Assis, e ao contrário da maioria, não duvidava, tinha certeza, de que ela traíra mesmo Bentinho. Mal conseguia ler O Primo Basílio, de Eça de Queiroz… E assim por diante.

No confiou mais nos homens e menos ainda nas mulheres. Passaria um bom tempo evitando ver Elisa. Um dia, porém, na Missa do Galo, viu quando ela passou ao lado do namorado, de braços dados, feliz, satisfeita. Tão linda como sempre fora. Ele percebeu que o rapaz era branco, de cabelos bem lisos como os dela e pensou, bem, até que estão de acordo um com o outro. Ambos são bonitos, brancos e confiantes no futuro. Que sejam felizes, não me importo mais, disse para si mesmo e saiu tranquilo no rumo de casa pensando em conversar um pouco com o avô.

Olhou para o próprio braço e ficou observando a cor de sua pele, bem mais chegada ao escuro. Passou a mão sobre os cabelos, lisos e negros como a noite. Afinal, sou o mais legítimo descendente de índios, não é mesmo? Riu de si mesmo e cumprimentou uma pessoa que passava. Muitos anos mais tarde é que entenderia melhor, ao ler Gilberto Freyre, que há mais preconceito entre o rio e o mar nesta terra de Poti do que possa imaginar nossa vã sabedoria.

Anos mais tarde veria Elisa passar, mais uma vez, com o marido e filhos, a caminho da igreja. Uma senhora gorda, mas ainda dona da antiga beleza, pele acetinada, cabelos negros escondendo os primeiros fios prateados, toda orgulhosa, senhora de si. Realizara seu velho sonho pequeno burguês e ninguém tiraria isso dela. Jonas guardaria essa imagem até a velhice, sempre perdoando um pouco os outros pelas decisões que vão tomando pela vida afora.

Tomou o rumo de casa pensando muito. O avô o esperava na calçada para mais dois dedos de prosa. Estava uma noite linda. Nada melhor que uma boa conversa. Foi logo saudando o velho, ainda acordado a essa hora? O velho olhava a Via Láctea. Olhou para o neto e disse, sabe, filho, a lua nunca vai poder beijar o sol. Eles são a explicação de Deus para o bem e o mal, a noite e o dia, o branco e o preto. E ficou ali cismando com aquilo que o avô dissera, sem entender direito o significado das palavras.

9

Depois dessa primeira desilusão amorosa, voltou a se interessar mais pelos estudos e concluiu a segunda metade de sua formação escolar, sempre com boas notas. Agora, tinha poucas opções pela frente. A maioria dos colegas era mandada para Recife, a fim de cursar Medicina ou Direito. Ele não podia fazer isso, pois sabia que sua família não tinha condições de arcar com tais despesas. Depois de conversar calmamente com a mãe e o pai, chegou à conclusão de que não poderia deixar a cidade. Cursaria então a Escola de Comércio, recentemente fundada. Apenas para não ficar parado, como gostava de dizer. Queria continuar ajudando o pai na feira, mas achava que aquela vida não tinha futuro. Precisava encontrar um jeito de ganhar mais dinheiro. Ele via as dificuldades que o pai enfrentava e não gostava nada daquilo. Sua paixão dirigiu-se mesmo para os negócios. Mas de um jeito que ele jamais imaginara.

Um dia conversando com um comerciante rico que distribuía mercadorias no mercado, ouviu sem querer algumas palavras misteriosas. Alguma coisa como azeitar mãos, fazer atalhos, encontrar o caminho mais rápido. Ouviu um nome. Fernando Andorinha, um colega da escola. Era um sujeito importante ligado ao governo, iminência parda sem cargo nem comissão. Lembrou que já haviam conversado e ele se mostrara bastante simpático. Um dia, enquanto tomavam um café no intervalo das aulas, puxou conversa. Queria saber como fazer para conseguir um empréstimo para iniciar um negócio. Andorinha olhou para ele com aqueles olhos profundos e faiscantes de cobra, ave de rapina, sei lá, que prevê sempre o risco. Que empréstimo que nada, Jonas. Posso lhe ajudar com uma coisa. O silêncio entre os dois durou uma eternidade até que os olhos se acostumaram um com o outro. Qual a minha contrapartida, Fernando? Apenas quero fazer parte do negócio, disse ele com uma tapinha discreta no ombro. Vamos que a aula já vai começar.

Não vamos aqui ser hipócritas e fazer qualquer juízo moral deste episódio. As pessoas são o que são a partir das circunstâncias. Percorra os livros de Dostoiévski e você verá lá a gênese da corrupção na alma humana. “Oh! Dizei-me qual foi aquele que primeiro declarou, que proclamou primeiro que o homem não cometeu vilanias senão porque não se apercebe de seus próprios interesses, e que se fosse esclarecido, se lhe abrissem os olhos sobre seus verdadeiros interesses, sobre seus interesses normais, cessaria imediatamente de cometer vilanias, e se tornaria no mesmo instante bom e honesto, pois, esclarecido pela ciência e compreendendo seus verdadeiros interesses, encontraria no bem sua própria vantagem?”

O crime subjaz sob a pele e as aparências. Descreva quais são seus objetivos e metas que lhe digo seu grau de probabilidades, seu percentual de possibilidades de vir a se corromper. Espere, você me dirá, existem homens que são rochas. É verdade, meu caro. Mas esses são raros. De modos que na semana seguinte, Jonas estava sentado diante de Fernando Andorinha em seu luxuoso escritório na Ribeira, ouvindo sua proposta como a coisa mais simples do mundo. Uma carga de secos e molhados estava chegando de navio àquela noite e única coisa que Jonas tinha que fazer era apresentar uma nota fria e desviar a carga para um depósito em local previamente escolhido pelos dois. Na semana seguinte a mesma carga seria vendida ao Governo pelo triplo do preço, tendo Fernando como negociador privilegiado junto ao Secretário. Simples assim, como um estalar de dedos. E em poucos dias ele começou a sentir a volúpia de um grosso volume de cédulas no bolso de sua calça. Logo em seguida, abriu um escritório na Cidade Alta, para não ficar muito próximo do novo amigo.

Apesar de novo rico, ainda sentia as pontadas no peito do amor não correspondido. Continuou assim por um tempo, meio triste, meio calado, mas inteiro na sua solidão, descobrindo a cada dia o quanto valia o silêncio. Foi então que leu no jornal sobre uma Semana de Arte Moderna que havia se realizado em São Paulo. Gostou muito daquilo. Que coisa interessante, dizia, que rapazes corajosos, atrevidos, inteligentes! E ficou satisfeito ao saber que alguém de Natal, Câmara Cascudo, também concordava com este novo olhar sobre a cultura brasileira. Bem, Cascudo terminara o livro Histórias que o Tempo Leva, com prefácio do historiador Rocha Pombo, e estava totalmente mergulhado nas raízes da cultura popular brasileira. O Modernismo estava em seu ser como o caroço em um fruto maduro, só esperando a hora para rebentar. Mas como alguém poderia ser moderno em uma província como Natal? Quem sabe assumindo sozinho todo o fardo de uma cultura. E foi o que ele fez, criou a cultura potiguar a partir de si mesmo.

Jonas viveu esses dias como uma série de bem-aventuradas descobertas. Lembra que uma noite foi ao Teatro Carlos Gomes e ouviu um sujeito chamado Deolindo Lima, acompanhado ao violão, cantar aquela que seria para sempre a canção símbolo desta cidade bela e besta. Era a primeira audição de Serenata do Pescador, de Othoniel Menezes e Eduardo Medeiros: “Praieira dos meus amores, encanto do meu olhar. Quero contar-te os rigores, sofridos a pensar em ti, sobre o alto mar.” Os versos podem ser um tanto antiquados, mas a música é tão linda! Nunca mais deixaria de ouvir essa melodia, sempre que possível, pedindo a alguém que a cantarolasse ao violão.

Os dias iam transcorrendo lentos e iguais na província. Jonas via seu avô sendo lentamente consumido pela velhice, o brilho nos olhos se apagando aos poucos, conversando menos e buscando, cada vez mais, o refúgio da rede. Da mesma forma, observava os cabelos da mãe ficando cada vez mais brancos e seus movimentos perdendo aquela firmeza e agilidade de antes. O pai também já não demonstrava a mesma vitalidade. Era o tempo virando suas páginas inexoráveis e o romance da vida se desenrolando sem pressa, um dia após o outro. As pessoas não gostam muito de pensar nisso, mas a morte é nossa mais confortável companheira. Ela não nos aborrece lembrando que a cada minuto, a cada hora, a cada dia estamos caminhando rumo ao aniquilamento. Nós apenas acordamos ansiosos para viver mais um dia, ganhar mais um pouco de dinheiro, realizar mais um sonho, aguardar mais uma festa.

Um dia, ao ouvir um discurso do governador José Augusto, falando sobre o futuro da indústria algodoeira no Estado, ficou atento. Procurou o amigo poderoso e tocou no assunto. Fernando sorriu mostrando o dente de ouro que adquirira há pouco. Já está tudo arrumado, amigo. Esse negócio é nosso e ninguém vai ter o topete de passar na frente, piscou maldoso. Jonas sorriu nervoso e disse em tom de brincadeira, mas não vamos precisar matar ninguém, né, amigo? Fernando apenas sorria e palitava os dentes. Nunca se sabe, nunca se sabe… Jonas sentiu uma agulhada fria na boca do estômago. Sabia em que estava se metendo, mas algo em sua mente dizia que era preciso ir em frente.

Certa vez viajou até Macaíba na companhia do pai, que queria acertar a compra de frutas, legumes e verduras diretamente com os produtores, na tentativa de eliminar os atravessadores. Ficou sabendo das dificuldades e dos caminhos que deveriam seguir para vender a mercadoria com a melhor margem de lucro possível. Na volta, conversou com os feirantes e tomou para si a incumbência de comprar os produtos diretamente nas fontes, acertando o preço do frete, conseguindo descontos, selecionando produtos, enfim, tomando as rédeas do negócio para que nada se perdesse na transação. Estava virando um verdadeiro negociante.

Seu pai via tudo aquilo com muito orgulho, o filho estava virando um homem esperto, cuidadoso, honesto, mas não entendia como ele conseguira capital tão depressa. Procurava não pensar muito nisso. Jonas foi descobrindo aos poucos que era isso mesmo que gostava de fazer. Quando não estava lendo em casa, só pensava em transações de compra e venda de produtos, economia no transporte, qualidade da mercadoria, preços mais atrativos, etc. Depois de um tempo lutando com isso, foi ganhando cada vez mais experiência.

Um dia juntou tudo que havia economizado, comprou um terreno em Macaíba e construiu um armazém. Entrou de vez para o ramo de compra e venda do algodão. O produto era trazido do sertão do Seridó através da rodovia criada pelo então governador Ferreira Chaves. Mas seu pai, de pronto, desaprovou o empreendimento. Onde já se viu, gastar dinheiro com algodão, se com a mesma quantia podia-se comprar um bom lote de frutas e verduras? Mas não deu ouvidos ao pai. Compreendia essa tendência dos mais velhos de não aceitar mudanças.

Depois de muita discussão acabou convencendo o velho da excelência de seu projeto. Não ia só negociar com algodão, estava também acertando a compra de um bom partido de farinha, açúcar, rapadura, carne seca, feijão, milho, para a venda dentro e fora do Estado. Isso é que é comércio, meu pai, e comércio dos bons, dizia ao velho cada vez mais assustado com a audácia do filho. Podia ser um tanto arriscado, mas que rendia um bom dinheiro, ah, isso rendia sim.

O pai ainda retrucava que, com esse dinheiro, ele podia comprar um bom terreno na Cidade Nova, que era o novo bairro da cidade. Essas terras se estendiam para as bandas de Tirol até chegar às proximidades do Morro de Mãe Luíza (sua extremidade iria ganhar depois o bonito nome de Petrópolis, em homenagem à cidade serrana do Rio de Janeiro). Com um terreno desses, dizia o pai, um homem pode até pensar em construir casa, constituir família… Ele olhava para o pai e ria. Não, não pensava em casar tão cedo. Precisava trabalhar mais, ganhar dinheiro. E além do mais não queria comprar terreno ali onde só os ricos estavam se instalando, de jeito nenhum. Ia para Macaíba mesmo. O pai deu por perdida a discussão, faça como você achar melhor, eu vou é cuidar da minha vida.

Agora sempre que via o pai emburrado ia pedir à mãe que o convencesse, era sempre assim. O avô ouvia tudo aquilo com paciência e compreensão e ia acompanhando o noticiário pelo rádio e pensando, meu neto, de fato, tem razão. Era mesmo um bom momento para negociar algodão, pois o preço que vinha oscilando muito desde o início da guerra estava ficando estabilizado nesse início de década. Conscientemente, ia fazendo estoque, quando todos queriam apenas vender e se livrar do excedente. Quando as coisas ficavam ruins para o algodão, era só investir mais em açúcar, feijão, milho, farinha, etc. No final da tarde passava sempre no escritório de Fernando Andorinha e os dois saíam para tomar umas xícaras de café.

Este também foi um período de efervescência na cultura potiguar. Certo dia estava chegando à livraria quando notou uma movimentação diferente. Já era acostumado com o grupo de intelectuais que frequentava o local (o mesmo grupo que ia ao badalado Café Magestic). Eles costumavam ficar num canto conversando baixinho, às vezes discutindo acaloradamente. Jonas conhecia alguns de passagem: Henrique Castriciano, os irmãos Wanderley ao lado das irmãs Palmira e Carolina, Nascimento Fernandes, Virgílio Trindade, Anfilóquio Câmara. Eles eram a nata da intelectualidade local.

Notou que um livro circulava de mão em mão. Espiou por cima dos ombros e viu o título na capa: Joio. Ficou curioso. Era mais um livro de Câmara Cascudo, uma seleta muito particular de literatura e crítica. Chegou-se a um canto do balcão e pediu um exemplar ao livreiro. Saiu dali com pressa e leu o livro de um fôlego só. Era mais uma passagem de Cascudo pela crítica literária. Mais uma vez são exercícios de admiração, como avisava o autor logo no início. Porém aqui o autor lança um olhar ao cosmopolitismo, para autores que ele conhecera no Rio de Janeiro, alertando para o abismo entre o sul e o norte, como bem observa o pesquisador Humberto Hermenegildo. É neste livro que Cascudo diz acreditar que o verdadeiro romance brasileiro teria que nascer no Nordeste.

No ano seguinte, Ezequiel Wanderley levaria ao palco do Teatro Carlos Gomes a revista Papa-Jerimum, talvez a primeira referência ao nosso gosto peculiar pela abóbora, fruto gostoso, adocicado, contraponto ideal para acompanhar o feijão com arroz e carne de sol; misturado com leite no café da manhã ou, na forma mais sofisticada, transformado em purê. Vem do latim apopores, fruto da aboboreira cuja polpa, de cor característica, é usada em numerosos pratos, doces e salgados; as sementes, depois de secas, são utilizadas como vermífugo, fruto que no Nordeste transforma-se em jerimum, fruto da jerimunzeira, o mesmo que aboboreira.

Pode ser sinônimo de homem irresoluto, preguiçoso. Diz-se também da cara de abóbora: de feições mal-acabadas, rosto edemaciado. Ou de mulher gorda. Em suas variedades apresenta o almíscar: o mesmo que abóbora-cheirosa; a cabaça: variedade de cabaceiro amargoso (Lagenaria vulgaris); a cheirosa: planta da família das Cucurbitáceas (Cucurbita moschata), cujas flores cheiram a almíscar; a chila: planta cucurbitácea trepadeira (Cucurbita ficifolia); a d’água: o mesmo que abobrinha; a danta: variedade de taiuiá. O fato é que, com um pouco mais, todo o povo potiguar foi ganhando a alcunha de Papa-Jerimum e isso ainda ia dar panos pras mangas para muita literatura. O músico Cleudo Freire vai publicar um alentado livro chamado Papo Jerimum, um dicionário com o nosso peculiar modo de falar.

Cascudo anotaria mais tarde na História da Alimentação no Brasil: “O português trouxe, na primeira metade do século XVI, abóboras da Guiné para o Brasil, plantando-as com proveito. Eram as chamadas em Lisboa ‘abóboras de quarentena’. Cucurbita pepo Linn., a citrouille dos franceses, pumpkin dos ingleses. Existiam as nativas, Cucurbita maxima Linn., jurumu, jerimum, potirom dos franceses e gourd dos ingleses. Abóbora é vocábulo português e jerimum, brasileiro. As duas variedades, coexistentes, espalharam-se”.

Na política potiguar tudo caminhava como “dantes no quartel de Abrantes”, como gostava de dizer sorridente o povo nas feiras, nas praças, nos botequins. Voltava ao governo Antonio José de Melo e Souza, para um mandato de quatro anos (a Constituição revogara o antigo mandato de seis), transmitindo o cargo em 1924 para o sucessor José Augusto de Medeiros. Ano de enchentes em toda a bacia fluvial potiguar, causando grandes prejuízos para os negociantes, mas também da criação de um Serviço Estadual do Algodão que facilitava as coisas para os comerciantes. A Coluna Prestes atravessava o Estado, passando pelos municípios de São Miguel e Luís Gomes, deixando um rastro de saques e antipatia (o escritor Eulício Faria de Lacerda iria transformar mais tarde este momento no romance O Dia em que a Coluna Passou). O esfarrapado exército de Prestes encontrou a mais feroz resistência do Exército Brasileiro ao passar por terras potiguares. Curiosamente, o Exército contava em seus pelotões com o jovem sargento Othoniel Menezes, o poeta que eternizaria a cidade com sua canção de pescador.

Este foi o ano em que Cascudo decidiu estudar Direito em Recife. Foi também o início da correspondência com Mário de Andrade. Neste mesmo ano, ele produziu o livro López do Paraguai. Eram os ecos da Semana de Arte Moderna chegando a Natal. Na beira-mar, o poeta Jorge Fernandes aprumava o chapéu e limpava um cisco de pó imaginário de seu terno de linho branco. Ajeitou a gravata vermelha, enquanto caminhava pela praia de Areia Preta, como se ali os seixos fossem pedras do sertão amado. Ansiava o futuro, mas não esquecia jamais o cheiro da flor do mufumbo, os odores de seu sertão amado. Estava começando a escrever sua obra-prima. Uma rede atrevida atravessaria a sala da cultura potiguar para nunca mais sair de lá. O poeta gostava de patrocinar brincadeiras inocentes com os amigos nos bares de Natal.

Era costume cortar pedaços das camisas e sair escandalizando as pessoas pelas ruas da província conservadora. Ufa, deve ter sido difícil ser moderno em um lugar que sempre odiou a diferença. Mas é bom saber que todos os dias, depois dessas farras, o poeta chegava em casa e acrescentava mais umas linhas ao seu Livro de Poemas que iria dar um salto de qualidade na literatura potiguar. Jorge Fernandes, o nosso poeta. Por sua causa, os natalenses podem ler versos como este: “A noite frita estrelas na caçarola ágata azul do céu”. O mar, o céu, a cidade e o sertão, passeiam pelas páginas de seu belo livro. Todas essas coisas misturadas ao ronco dos automóveis, dos trens e dos aeroplanos que anunciavam os tempos modernos, o novo século que despontava maduro, fascinante, perigoso. O livro chegaria às mãos de Mário de Andrade e o grande escritor até enviou uma carta simpática ao poeta. Isso deve ter feito o monstro da mediocridade local piscar os olhos lentamente, como um batráquio na beira do charco, pois o poeta foi menosprezado covardemente mais de uma vez até que a posteridade lhe desse o lugar de direito. É sempre assim.

Aqui ninguém suporta o sucesso alheio. Como diz uma lenda local, aqui se perde vinte burros para que o outro não possa ganhar dois. Esta é a cidade da inveja e do olho gordo. Se o vizinho comprar algum objeto de luxo, se alguém conquistar algo grandioso, se um sujeito se destacar dos demais, passam a ser motivo de ódio pelos demais. Como diz o velho ditado popular, “ninguém é profeta em sua própria terra”. Isso em Natal ganha proporções desérticas. O sucesso alheio dói demais e o fracasso é sempre punido com mais rigor ainda.

Mas… Deixemos de lado nossas falhas.

Havia a história de um homem que recebeu a ordem de ir a uma missão perigosa, mas não queria ir e por isso foi lançado no ventre de uma baleia.

O Livro de Jonas parece mais uma sátira sobre as aventuras de um profeta em luta contra a missão delegada a ele por Deus. Então o que vemos é um homem apavorado com a ordem divina de ir até um país estrangeiro, Nínive, dos violentos assírios, para levar uma mensagem de protesto. Imagine você se era difícil ser profeta em sua própria terra, quanto mais em terras estrangeiras para julgar os outros. De imediato Jonas fugiu da presença de Deus, fugiu para a longínqua Társis. Ele procura alívio daquela ordem atordoante nos porões no navio Jope, um navio que pensa estar quebrando.

Estranho navio que mais parece a goela de um peixe. A descida ao porão do navio lembra uma descida ao reino da morte. Enquanto Jonas dorme nas profundezas do navio, a tripulação chora e geme pela salvação em meio à tormenta. O capitão do navio ordena a Jonas que se levante e ore a Deus. Uma clara metáfora da ressurreição. Mas Jonas dorme. E aí os marinheiros percebem que aquele sono pode ser fuga. Quase sempre o sono é uma fuga de algo que queremos evitar. Mas a gritaria é grande e o furor da tempestade tem a dimensão do Criador. Então ele concorda em abandonar o navio para salvar aqueles tripulantes que tão prontamente aceitam abandonar suas crenças pagãs para abraçar o Deus único.

A princípio, para Jonas a morte é preferível à vida e ele é jogado ao mar onde lhe aguarda a bocarra do leviatã. Neste momento o homem se agarra mais à vida do que aos mistérios da morte. Não importa o que venha depois, o mais importante é não se afogar. Ele é engolido pelo peixe, e em suas entranhas, ora ao seu Deus, pede clemência, acusa-O de tê-lo expulsado de Sua presença, de tê-lo atirado ao mar. Ora, Jonas é um profeta bem humano em sua esperteza. Ele conhece a amplitude da misericórdia de Deus.

O que ele quer é escapar de sua missão, enganar o Todo Poderoso. Mas Deus ordena que o peixe vomite Jonas na praia. Quer lhe dar mais uma chance de redenção. Uma nova missão em que o profeta possa ir, em segurança, a Nínive levar a mensagem divina. Prevê que a cidade será destruída em 40 dias, como em tudo o mais nos textos bíblicos, e a cidade se prostra aos pés da Deus.

Jonas é um profeta de sucesso, um malandro, um comerciante esperto como seu homônimo herói desta nossa chã narrativa potiguar. Consegue converter a tripulação do navio e converte uma cidade inteira com poucas palavras ameaçadoras. Mas não gosta do resultado. Pensa que Deus mais uma vez o está fazendo de tolo e incorre na contramão no erro de Jó.

Enquanto este questionava Deus por causa de seu sofrimento o outro não conseguia entender a misericórdia. O que ele queria era ver a destruição de Nínive para mostrar o quanto seu Deus era poderoso. Magoado, o profeta recolheu-se à sua tenda no deserto, sempre em busca de um abrigo nas sombras. Deus resolve lhe dar uma última lição e lhe presenteia a sombra de uma árvore.

Algumas edições da Bíblia falam em uma aboboreira, o jerimum seria a redenção de Jonas, a maravilha das maravilhas, mas a aboboreira é uma trepadeira que mais das vezes rasteja nas várzeas dos rios. Outras edições falam na mamoneira, ou apenas em uma planta que lhe dava a sombra refrescante de uma árvore no deserto. Deus, porém, envia um verme que seca as folhas da árvore deixando Jonas bastante triste.

Deus então lança uma parábola: “Tiveste compaixão de um arbusto, replicou-lhe o Senhor, pelo qual nada fizeste, que não fizeste crescer, que nasceu numa noite e numa noite morreu. E então, não hei de ter compaixão da grande cidade de Nínive, onde há mais de cento e vinte mil seres humanos, que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda, e uma inumerável multidão de animais?…”. Jonas compreendeu finalmente que é muito pequeno diante da justiça divina e que em nenhum lugar estará seguro sem a presença de Deus. Eis a ironia final.

10

Tudo ia muito calmo quando uma flecha atingiu o peito de nosso herói. Estava sentado na calçada da Igreja do Rosário olhando o nada, beliscando uma folha de grama e deixando o tempo passar. Era uma tarde de domingo e não tinha mesmo nada para fazer. Já havia lido até enjoar, conversara com os pais e o avô, passara na casa de Ciço para bater um papo. Agora estava ali sentado com a mente vazia quando uma visão estranha atravessou suas retinas.

Saindo ali da esquina do primeiro arruado, como quem vinha da parte baixa da cidade, a silhueta de uma moça magrinha vinha subindo com o sol que já alcançava o ocaso brilhando em seus cabelos dourados. Ela caminhou até a calçada da igreja, parou e sorriu. Ele sorriu de volta e a convidou para sentar um pouco. A cidade rufava o tambor de um coração de domingo. O céu começava a tingir de lilás e azul escuro para os lados da Igreja Matriz. Eles ficaram ali sentados, conversando sobre nada e Jonas sentiu que um novo estremecimento começa a tomar conta de seu corpo. Quando ela pousou sua mão fina e delicada sobre seu joelho, ele percebeu que estava perdido. O amor chegara novamente com sua força avassaladora que só acontece aos jovens.

Chamava-se Mara e tinha um porte de princesa inglesa, magra, branca, de olhos verdes, cabelos louros, mais ou menos, cerca de dez anos mais jovem que Jonas. Ela também gostava de ler e trazia um pequeno livro de poesia nas mãos.

Era o livro de Palmira Wanderley, e ele disse que não conhecia aqueles versos. Então ela leu um trecho: “Nas moitas tristes quantos queixumes, que poesia doce demais! Natal, cidade dos vagalumes, cidade verde, de coqueirais”. Leia um pouco também, disse. Ele folheou o livro e o devolveu em seguida. É bonito, bucólico, né? Ela sorriu, já sei, você acha feminino demais, né? Eu sei, os homens daqui não gostam muito do que as mulheres escrevem.

Ele ficou encabulado, não, não é isso, são versos bonitos, sabe? Mas não são muito profundos. Mara se divertia com a armadilha em que o acuara, ah, que é isso, deixa disso, há profundidade também nas coisas simples. Aí ele tentou fugir do assunto. O que você faz quando não está lendo ou roubando a alma das pessoas com esses olhos lindos? Ela ficou séria. Aí ele sentiu que pegara pesado, foi afoito demais em seu ataque. Ela recuou, parecia não ter gostado do elogio. Mas isso, ele só saberia depois, faz parte do arsenal de conquista de qualquer mulher. Elas sabem como subjugar o adversário.

É um jogo de avanços e recuos que desorienta os homens e, quando eles menos esperam, estão conquistados para sempre. Jonas disse, desculpe, não quis ser atrevido. Ela sorriu novamente, agora de forma suave, tudo bem, eu também gostei desses seus olhos puxadinhos, parece de índio, né? Jonas estufou o peito, tenho orgulho de ser descendente de índio. Aí ela disse, pois eu não tenho tanto orgulho de ser descendente de holandeses.

Ele ficou encantado com aquilo. Por que não? Se eles tivessem sido mais espertos, e feito melhores alianças com os índios, ainda estariam aqui. Ela fez uma cara de enfado. Ele disse, parece que você não gosta muito de história. Ela meneou a cabeça negativamente. Ele disse que compreendia, mas era viciado em história por causa do avô. Em seguida passaram para informações mais práticas, moro aqui perto e você? Ela parou um pouco em silêncio e disse, eu também moro aqui perto, minha casa fica logo ali, ó. Ele olhou para a esquina adiante e perguntou, o que você faz? Ela baixou a cabeça e respondeu, sou enfermeira.

Ele deu uma risada, jura que usa aquela roupa branca? Ela não gostou muito da reação, hum, hum, uso sim, e daí? Não tem nada de errado com meu uniforme. Ele percebeu a gafe e disse, tudo bem, eu sei, mas é que vocês ficam parecidas com freiras. Ela concordou, é, e você, vive de quê? Ele falou com vaidade, sou negociante. Já fui comerciante, vendedor de frutas e legumes na banca de meu pai, mas agora sou negociante, faço negócios com algodão e outros produtos da terra.

Ela não entendeu a diferença entre comerciante e negociante. Jonas explicou: para ele as duas palavras guardavam grande distância. Enquanto um vive de miudezas, o outro só se contenta com grandes negócios, entendeu? Ela disse, agora sim, riram os dois. Então eles ficaram assim, conversando, deixando o tempo passar enquanto a noite caía. Foi então que viu no olhar dessa moça o brilho de uma faísca.

Era algo antigo e ao mesmo tempo desconhecido. Uma força que o atraía para o prazer e o medo. Sentiu que um fio de água começava a correr pelo deserto de seu peito e que plantinhas escondidas começavam a desabrochar formando um súbito oásis. Eles se despediram e prometeram se encontrar novamente.

Quando começou a se despir para vestir o pijama e depois ir para a cama, Jonas notou que algo de novo estava acontecendo em sua vida, uma nova chama, uma coisa estranha que não tinha explicação. Tudo parecia ser tão diferente, não era como aquele arrebatamento de seu amor juvenil precocemente frustrado. Tudo agora parecia ter um sabor diferente, o sentimento era mais calmo, comedido. Adormeceu em seguida e acordou na manhã seguinte com uma sensação estranha, um frio na calça do pijama, uma mancha úmida em meio às pernas.

Agora sabia que alma e corpo podem conviver em harmonia. O desejo dava sua resposta através da fisiologia do corpo, da mecânica biológica e isso era novo para ele. O amor não era só aquela coisa sublime que havia lido nos livros. Havia algo mais de terreno, carnal, que nem sempre era identificado com a noção de pecado que ouvira nos sermões do padre. Amor e desejo se confundiam em um só sentimento.

Mara e Jonas passaram a se encontrar todos os dias nas escadarias da igrejinha do Rosário. De lá podiam ver o movimento dos barcos no rio Potengi, as dunas da Redinha, deixar a tarde encobrir seus gestos tímidos em busca dos primeiros toques, as primeiras carícias, as mãos que se cruzam, os lábios que se tocam. Com frequência tomavam o bonde na Cidade Alta e desciam até a praia de Areia Preta para caminhar, conversar, receber os respingos de água salgada no rosto, apreciar o rebater das ondas sobre as pedras.

No dia em que ela encostou seu corpo esguio contra o dele, seus seios fartos de encontro ao seu peito, sentiu a respiração ofegar, o coração bater mais rápido, o sangue disparar dentro das veias. Ela respirando bem perto de seu rosto, o hálito doce, quente, os olhos semicerrados próximos aos seus. Sentiu um estremecimento súbito quando beijou seus lábios mais de uma vez e encontrou aquele calor que subia até o rosto. Viu então que o prazer tinha um nome. Mara entrou na sua vida como as águas que avançam sobre as pedras da Ponta do Morcego.

Agora, ele passava os dias andando pelas ruas, folheando jornais, visitando o mercado para ver como andava o comércio, contando as horas para se encontrar com ela. Sempre viajava a Macaíba de barco para acompanhar a armazenagem dos produtos, o movimento de entra e sai das mercadorias e já começava a contabilizar os lucros. Ao preferir comercializar o algodão mocó, de fibras longas, de maior resistência e rentabilidade, acabara solidificando seu comércio e além do mais contava sempre com o apoio infalível de Andorinha. Agora tinha mais clientes, mais movimento.

Um dia ouviu falar que o Estado vivia dias perigosos, com bandos armados percorrendo o interior. Eram os cangaceiros que aterrorizavam o sertão nordestino. Certo dia, ele ouviu boatos de um ataque de Lampião a uma cidade do interior: Mossoró. Um negociante que chegou com um carregamento de fumo de rolo foi quem contou tudo a Jonas. A cidade resistiu e os cangaceiros foram expulsos à bala. Mais tarde soube que não era o bando todo de Lampião, mas apenas um pelotão avançado. Mesmo assim, que coisa perigosa, meu Deus! Aquilo podia muito bem chegar à capital, pensava ele. Mas Fernando o acalmou, o Governo contava com um bom destacamento em Natal, eles não ousariam a tanto.

Os comentários pipocavam por todos os cantos, na feira, na igreja, nas praças. Que coisa! Por que atacar Mossoró, se era mais fácil dominar outra cidade com várias entradas e saídas? Diz-se que Lampião temia cidades de grande porte. Só aceitou atacar Mossoró, porque recebeu uma proposta de ajuda do cangaceiro Massilon Leite. Vários especialistas em cangaço iriam defender diversas outras versões para o ataque (um maluco genial, o fazedor de imagens Augusto Lula, iria defender, no futuro, a teoria de que Lampião decidiu invadir Mossoró porque queria ver o mar e a cidade era o caminho mais curto para quem vinha do sertão. Conquistando a cidade, o cangaceiro podia optar por Tibau ou Areia Branca). Teria Lampião morrido sem ver o mar? Alguns atestam que o feroz bandoleiro teria visto o mar, sim, em Maceió, disfarçado de mulher para não chamar a atenção das volantes. Mas para outros isso é só conversa para boi dormir. O certo é que não marchou para as bandas de Natal e os comerciantes locais ficaram mais tranquilos. Fernando Andorinha aproveitou até para ampliar seus negócios e comprar vários prédios na Ribeira. Estava expandindo seu império, dizia ao boquiaberto Jonas.

11

Vendo o nosso personagem passar, ficava fácil perceber que ali estava um rapaz de costumes simples. Sem grandes ostentações, com um terno de linho branco, muito comum na época, chapéu de palhinha, sapatos bem engraxados, apenas um comerciante como outro qualquer da cidade. A diferença era a sua cara de índio, os cabelos escorridos pelos lados da testa, os olhos puxados, a pele escura. Esse homem sisudo costumava manter, como a maioria de seus contemporâneos, uma profunda admiração por Câmara Cascudo. Essa admiração, às vezes, o fazia cometer tolices como sair andando pelas ruas seguindo o mestre como um tolo, na sombra de seus passos, sem coragem de lhe dirigir a palavra. Nessas ocasiões, gostava de vê-lo beber numa birosca qualquer, conversar com as pessoas, tomar um trago e seguir em frente. Jonas pensava, quem sabe depois daqui ele vai, talvez, dar uma aula ou simplesmente vai para casa escrever seus livros.

De vez em quando, seus olhares se encontravam, e aí eles se cumprimentavam educadamente, como todo cidadão comum de uma cidade pequena, e seguiam em frente, sem entabular uma conversa, sem tentar uma aproximação. Apenas um costume da província e nada mais. Nunca tentou se aproximar ou tentar uma conversa qualquer, sua timidez não permitia. Parecia haver algo que o afastava instintivamente daquele homem. Dizia para si mesmo que não gostava de bajular ninguém e tinha medo de ser confundido com aqueles que andavam ao redor do escritor em busca de alguma atenção, uma palavra elogiosa, uma conversa, um prefácio, um reconhecimento.

O mestre Câmara Cascudo iria fundar em Natal uma curiosa agremiação, a Academia Norte-riograndense de Letras, nos moldes da Academia Brasileira de Letras, que por sua vez fora inspirada na Academia Francesa de Letras. O maior sonho do professor Juca Guiné era entrar para a Academia Norte-riograndense de Letras e um dia ser enterrado com pompa e circunstância. Sonhava fazendo um longo discurso para seus pares, enquanto as madames dormiam ao lado dos maridos, alguns também tirando uma soneca. Mas nunca foi convidado para disputar uma vaga. Ela dava de ombros sempre que alguém o cobrava essa falha. Nunca escrevera um livro, ora, retrucava aos mais impertinentes. Na verdade, nem isso era necessário para fazer parte da ilustre associação. Bastava frequentar as altas rodas intelectuais ou políticas. O professor, já bastante velho, reclamara disso ao próprio Jonas, e ele batera em seu ombro dizendo, o senhor é mais importante que eles, professor.

Em casa as coisas estavam ficando complicadas. Com a passar dos dias ele percebeu que o avô estava ficando cansado, com os olhos fixos no nada, já não conversava mais como antes. Suas mãos trêmulas buscavam a caneca de mingau de aveia e ele sempre se refugiava no quarto após as refeições. Esse quadro foi se agravando a cada dia até que a família decidiu pedir a ajuda de um médico. Não era possível fazer grande coisa, disse ele, é a idade mesmo. Os órgãos vitais estão começando a falhar. O que se podia fazer era continuar tentando lhe dar uma alimentação leve e um pouco de medicação tradicional, a velha e boa medicina popular, algumas infusões, lambedores, ervas e tudo ia se arranjar.

Heloísa conhecia bastante essa farmacopeia natural, facilmente encontrável nas feiras da cidade. E ela acreditava também na força das rezas, no ofício das benzedeiras e foi o que fez. Por vários dias lutou contra a degeneração daquela pessoa tão querida. Mas a doença ia avançando inexoravelmente, dia após dia. Ele tossia muito e já não tinha forças nas pernas sequer para se levantar da cama.

Em uma noite de inverno o velho morreu tomado por uma febre violenta, debulhando pela última vez velhas histórias atrapalhadas que ninguém conseguia mais compreender. Jonas ficou ali a noite inteira, sentado ao lado do avô, acariciando seus cabelos ralos e tão brancos que mais pareciam algodão. Mas não soltou uma lágrima sequer. Ouviu o pai soluçando no quarto e a mãe enxugando os olhos com o avental na cozinha. Sabia que não tinha lágrimas para doar naquele momento. Era um sofrimento tão profundo de perda que não encontrava um meio de desabafar aquilo, aquela dor sufocante. De repente se instalou aquele medo de não poder seguir em frente sem a companhia protetora do avô, suas histórias de antanho, sua absoluta vontade de viver.

Saiu para a calçada e olhou para as estrelas, velhas companheiras de seus dias solitários e percebeu o quanto aumentava sua solidão. Nunca mais sentariam ali para olhar o céu, tomar uma xícara de café, conversar até as estrelas mudarem sua posição no horizonte. Na manhã seguinte ajudou nos preparativos do enterro e ficou sentado na sala, olhando o corpo estendido sobre a mesa com as velas ao redor, os parentes chorando pelos cantos. Como tudo na vida é efêmero, meu Deus, pensava Jonas, o tempo é uma ilusão, uma sucessão de atos que vão preenchendo o vazio. Passamos pela vida como a luz que atravessa a escuridão do espaço e vem morrer em nossas retinas em forma de estrelas. As pessoas passam e o tempo permanece inalterado. Aos humanos, só resta a noção de que esse alguém esteve e não estará. Os dias são pontuados pela presença de alguém que um dia desaparecerá.

Poucas pessoas compareceram ao velório, vizinhos, amigos, familiares. O padre fez a gentileza de celebrar a missa em casa mesmo, em consideração à família, e todos tomaram o caminho do cemitério do Alecrim; o caixão transportado em uma carroça, seguido pelo cortejo. No enterro, Jonas percebeu algo estranho. Escondido por trás de um mausoléu, o professor Juca Guiné chorava copiosamente. Isso não era estranho, o estranho mesmo era o aspecto do professor, que estava mais grisalho, com um aspecto maltrapilho, os olhos estupidificados em claro sinal de loucura iminente. Depois procurou saber o que estava acontecendo com ele e foi informado que o professor andava assim meio esquisito. Estava perdendo os alunos para outras escolas, vivia sozinho pelos cantos lendo coisas em balbucios. Estranho, muito estranho…

De volta para casa, Jonas trancou-se no quarto e procurou sufocar a dor na leitura da Bíblia. Mas nem aí encontrara consolo. Os dias e as noites passavam como um bloco de insuportável vazio. Vários dias se passaram para que voltasse a ter gosto nas coisas da vida. O curioso nele é que era um homem bastante culto, de muitas leituras, mas sem quase nenhuma escrita, a não ser pelos lançamentos no caderno de balanços: compra, venda e gastos, receita e lucros.

Restava como consolo conversar com a mãe, passear com a namorada e cuidar dos negócios. Não quero pensar nisso agora, dizia consigo sempre antes de dormir. Depois de um tempo, a vida foi ganhando um novo ritmo. Foi quando ele decidiu comprar um sítio em Macaíba, uma terrinha com uma boa casa, toda rodeada de alpendre que estava sendo vendida por um agricultor em apuros financeiros. Fechou o negócio e restaurou a casa para que recuperasse toda a beleza de sua arquitetura antiga, com vários quartos, uma sala ampla e uma cozinha com um velho fogão à lenha. Nos fundos acrescentou dois banheiros grandes com todas as novidades da louçaria que chegava à cidade de barco. Foi lá nos fundos do terreno que percebeu umas ruínas antigas, ainda dos tempos da ocupação holandesa. Não deu muita atenção aquilo. No futuro iria pesquisar melhor sobre aquela construção.

Então ficou cismando, preciso de alguém para tomar conta dessa propriedade. Pensou logo em Ciço, que vinha tomando conta de um armazém que comprara em Macaíba para estocar mercadorias. Dias depois o amigo o procurou para pedir um conselho. Compadre (eles agora se tratavam assim), eu conheci uma moça lá na fazenda de um conhecido nosso e acho que ela se engraçou comigo. Como é o nome dela? É Rosário, compadre, e eu preciso de você para pedir a moça em casamento. Pode contar comigo, compadre. Assim foram e com pouco mais já estavam cuidando dos preparativos para o casório. Ele queria coisa simples, na capela mesmo da fazenda onde a moça morava. Jonas pagou ao padre, ao sanfoneiro, mandou comprar algumas bebidas e fez a festança. O casal foi morar em uma terrinha ali perto que Rosário herdara da família. Então o problema de encontrar um morador para o sítio continuava.

Pois não é que, por aquela ocasião, acontecera um fato incomum no lugar? Um rapaz roubou a filha de um fazendeiro rico da região. “Buliu com a moça”, diziam os mais velhos; “roubou a moça”, diziam os mais novos. Significava que um casal de jovens apaixonados ultrapassara os limites da tradição. Florentino e Firmina eram quase meninos ainda quando o amor entrou em suas vidas. Brincando no mato, tomando banho de rio juntos, correndo atrás dos bichos, descobriram que sentiam uma forte atração entre si.

Mas um rapaz pobre não pode namorar a filha de um fazendeiro. Isso é loucura. Enquanto eram apenas crianças pulando corda e correndo atrás de passarinhos ninguém se incomodava. Porém quando a menina começou a tomar forma de moça, os seios crescendo, os olhares amornando e as fugas para o mato foram ficando cada vez mais demoradas, os pais se preocuparam. Proibiram os encontros. Agora ela ficava na casa ajudando a mãe nos afazeres domésticos, bordando na sala enquanto os homens conversavam no alpendre. Aí a paixão os arrebatou como o fogo ateado no mato para o preparo das queimadas. Marcavam encontro às escondidas, debaixo do juazeiro quando a noite já ia alta e os pais dormiam profundamente. Já não dava mais para suportar tanto desejo, tanto ardor, tanta paixão. Então decidiram fugir. Era o caminho mais fácil nessa região de se conseguir uma bala na cabeça, uma facada na barriga ou o consentimento para se casar.

Na fuga, o casal apaixonado encontrou Jonas e Ciço, que voltavam do armazém e vinham conversando no passo lento dos cavalos. Os jovens se atravessaram no caminho e contaram a história toda para os estranhos e pediam pelo amor de Deus que eles o ajudassem. Os homens se entreolharam e viram então a grande oportunidade de resolver o problema de conseguir moradores para o sítio. Vocês podem ficar na casa do meu sítio que fica aqui perto, enquanto nós vamos procurar o pai da moça para resolver a situação, disse Jonas. O casal agradeceu sem nem acreditar que pudesse existir tão bom homem.

Em seguida, os dois foram até a fazenda do pai da moça e começaram as negociações para salvar aquelas pobres vidas, porque por ali honra se limpava com sangue, diziam todos. Conversa complicada, demorada e perigosa. Primeiro tentar convencer o homem de que o melhor era casar a filha para preservar a honra da família. Depois garantir que o rapaz não queria ter direito a nenhum dote, preferia viver pobre, mas com sua amada. Somente.

Quando o fazendeiro viu que não ia perder nada com a transação, chamou a mulher e comunicou a decisão. Ia permitir o casamento da filha, mas não daria bênção nem permitiria que ela pusesse mais os pés na fazenda. A mãe correu para a cozinha em prantos e tudo ficou acertado. Os dois casaram na igreja de Macaíba, sem festa, sem convidados, sem a bênção do pai.

Após a cerimônia foram levados para o sítio e Jonas fez as recomendações. Iriam cuidar das coisas por ali, havia algum gado, uma boa lavoura, umas coisas para se fazer. Precisava de um vaqueiro forte, uma boa cozinheira, pouca coisa. Eles podiam dar conta do serviço. Não queria nada de lucro com isso. Ficava algum trocado para Florentino, além de uma parte das crias, o que precisasse do plantado, bastava cuidar da casa e fazer prosperar o sítio. Foi um bom acerto, as duas partes gostaram e tudo começou a caminhar bem.

A partir de então, sempre que podia, Jonas arranjava um jeito de dar uma passadinha lá no sítio para ver como as coisas iam caminhando. Esta era sua nova paixão. Bem… Não a única. Quando encontrava Mara em Natal sempre falava das delícias do sítio. Ela precisava conhecer de perto. Mas isso seria um escândalo, Mara sabia. O pai não ia aceitar de jeito nenhum, saber que a filha estava viajando sozinha com um rapaz. A mãe não ligava muito para isso. Vivia isolada em seu mundo, coitada, cuidando dos afazeres domésticos, sofrendo com as bebedeiras do marido.

Ela decidiu mentir um dia, e dizer que estava viajando para estudar na casa de uma amiga em Macaíba. Estava mesmo estudando para um curso de aperfeiçoamento em enfermagem. Isso podia lhe garantir um emprego melhor, talvez até fora de Natal. Assim, eles passaram a se refugiar no sítio, com o apoio dos amigos para encobrir a verdade. Mesmo assim, ela sofria com a situação. Um lado dizia que aquilo não estava certo, que uma moça direita devia se casar para poder dormir com um homem. Outro lado dizia que não, ela estava certa, estava sendo livre, dona de seu destino. O mais importante era sua profissão que lhe daria a liberdade de conhecer novos lugares, novas pessoas. Mara era uma mulher à frente de seu tempo.

Nas horas difíceis, sempre procurava lembrar uma mulher que passara por problemas bem maiores que os seus. Alguém que admirava muito, chamada Dionísia Pinto Lisboa ou simplesmente Nísia Floresta Brasileira Augusta, como preferia. Mara a imaginava em um dia assim, de pé na calçada da estação de Papary, aguardando o trem que partiria para Recife. Nísia pensava em Paris e em quanto o seu país era pequeno para conter tanta dor infligida às mulheres. Naquela estação, ela pensava principalmente em Augusto, o grande e único amor. Pensava nos filhos, no pai, brutalmente assassinado e na mãe falecida recentemente. Lembrava também dos países por onde passou: França, Itália, Alemanha, Bélgica, Suíça, Sicília, Inglaterra e Grécia. Espalhava suas ideias de educadora e feminista pelo mundo civilizado, mas, para a sociedade do Rio de Janeiro, não passava de uma mulher à toa. Sonhava com um mundo onde a mulher poderia ser algo mais que simples objeto do prazer, mero animal reprodutor, submisso ao homem. Seus restos mortais repousam agora na velha cidade que adotou seu nome. No centro de Nísia Floresta, um enorme baobá desafia o azul do céu com sua folhagem verde. Seu corpo repousa ali bem perto, envolto na natureza exuberante que parece querer dizer ao mundo que nem o tempo nem a maldade dos homens vão conseguir destruir tanta beleza.

Em Macaíba, Jonas e Mara causavam escândalo na cidade andando a cavalo; ela vestida em calças masculinas, escanchada na sela como um homem; ele em mangas de camisa e botas de vaqueiro, rindo da desenvoltura da namorada. Mara era dona de uma superioridade implícita, aristocrática mesmo, como se mantivesse um permanente desdém pelos comuns. Ela tinha um garbo no andar e no cavalgar que enchia os olhos de quem a via assim. Essa garota vai longe, dizia consigo Jonas. Em casa trocavam carícias suaves e brincavam quem nem crianças, pois, de fato, ainda eram bem jovens.

Ela sussurrou em seu ouvido, você está se tornando um homem rico, seu Jonas, eu quero que compre um colar de pérolas para mim. E ele respondeu, não vou comprar apenas um colar de pérolas, mas um anel de brilhantes e um vestido de princesa. Os ruídos dessa festa íntima não passavam despercebidos para Florentino e Firmina, que sorriam cúmplices lá na cozinha. Enfim essas coisas do amor que não são mistério para ninguém ou pelo menos para a maioria dos humanos. Vendo o casal assim é fácil entender o que Santo Agostinho quer dizer com a força do amor que move montanhas.

As viagens para Macaíba eram um deleite a mais para o casal. Barcos de todas as procedências subiam e desciam o rio, levando e trazendo açúcar, algodão, couro e muitos outros variados produtos da economia potiguar que eram embarcados e desembarcados no Porto dos Guarapes. O escritor José Melquíades iria descrever mais tarde a Macaíba de então: “Rodeavam esse povoado, árvores frondosas e frutíferas, tais como cajueiros, goiabeiras, laranjeiras, sapotizeiros e coités. Pássaros diversos saltitavam e cantavam em suas ramalheiras. A natureza vivia em festa”.

Jonas e Mara faziam esse percurso sempre que podiam. Saíam cedo para não dar muito na vista e logo estavam nas águas plácidas do Potengi, onde deslizavam botes e barcaças entre uma cidade e outra. O cheiro agridoce de rio que deságua no mar, com sua mistura de águas, invadindo os sentidos, o sol ainda manso nascendo sobre a cidade. Dava gosto fazer aquela viagem.

Ele estava tranquilo, vivia uma vida de casado sem ser. Mara, por sua vez, tinha aquelas inquietações, sim, de mulher em qualquer época, aqueles calores, aquelas tonturas que ameaçavam se tornar em coisa mais grave, o atraso da menstruação era sempre motivo de pânico. Se demorasse muito, resolvia tudo, lançando mão de remédios do mato, que ia buscar na casa de uma rezadeira que morava ali perto, erva brava secadeira de mulher, impedidora de gerar filhos, com certeza. E também capim-santo para acalmar, camomila, erva-cidreira. Ficava um gosto amargo na boca, um medo da esterilidade que parecia angustiar a todas as mulheres de seu tempo. Não queria filho agora não, vôtes, valei-me Nossa Senhora, beijo o rosário, deixo flores ao pé do altar.

Quando estava feliz voltava a sorrir, pulava nos ombros do amado como se fosse criança, fazia-o correr pelo terreiro com ela escanchada em suas costas, upa, upa, cavalinho, caíam na lama do terreiro, embolavam no chão. Nesse ano tivera uma grande alegria, quando anunciaram que as mulheres iam poder votar. Não era nem sufragista nem nada, mas não entendia porque as mulheres não podiam exercer os mesmo direitos que os homens, onde já se viu? Era um tempo de alegria juvenil, de descoberta do mundo, de acontecimentos marcantes.

Por essa época, Florentino e Firmina ganharam o primeiro filho e convidaram o casal para ser padrinhos do menino. A princípio, Firmina quis homenagear o compadre colocando o nome do padrinho no menino. Mas foi persuadida a escolher outro nome. Jonas pediu que ela desse ao filho um nome que ele mesmo gostaria de escolher. Então o garoto passou a se chamar Cândido, uma homenagem que ele queria prestar a Voltaire, seu herói iluminista dos tempos de estudante. Os pais concordaram.

No mesmo período, o filho de coronel Cascudo conhecera uma moça bonita chamada Dahlia, onze anos mais nova, noivara e casara. No final do ano, chegara a Natal o escritor Mário de Andrade e Jonas viu quando os dois passaram de carro em frente ao mercado. Essa visita do autor de Pauliceia Desvairada ao solo potiguar seria decisiva na definição da vida intelectual de Câmara Cascudo. Ele assumiu de uma vez por todas, e isso haveria de ser retomado em outras cartas de Mário anos depois, que sua vocação era o folclore, a antropologia, o estudo das raízes populares, nada de ficar escrevendo sobre tudo que dava na telha, precisava apurar melhor seus conhecimentos. Juntos, Cascudo e Mário percorreram o interior do Estado, Macau, Açu, Martins, sertão do Seridó e Goianinha.

Nesta ocasião, Mário conheceu o cantador de coco Chico Antônio, lá pelos interiores de Canguaretama, fervedouro da nação potiguar. A partir daí, Cascudo compreendeu, de vez, toda a riqueza que havia na cultura de sua terra.

Enquanto isso, Natal ia crescendo, como sempre desordenadamente, sem qualquer preocupação de planejamento. Já havia até alguns poucos ônibus trafegando pelas ruas. Os bondes começavam a perder seu reinado de glória e com um pouco mais foram definitivamente aposentados. Uma cidade se diminui quando elimina seu passado. Qualquer grande cidade da Europa ainda mantém seus bondes funcionando para lembrar que ali a civilização encontrou seu apogeu e queda. Natal não é assim, está sempre sujeita a sucumbir a qualquer ilusão de modernidade. Os poderosos, os verdadeiros reis desta cidade, estão sempre dispostos a destruir qualquer bela construção para erguer algo novo em seu lugar. É uma cidade sem memória.

Quando os ônibus passaram a ser dominantes, os trilhos foram arrancados e os bondes foram mandados para a sucata. Toda a beleza, o romantismo de um meio de transporte que lembraria a passagem de um século para outro foram esquecidos, como a poeira que é jogada para baixo do tapete.

Natal tem vergonha do passado. É uma cidade que não se envergonha de destruir seus melhores conjuntos arquitetônicos para construir caixotes modernosos em seu lugar. É uma cidade que não teme cortar suas árvores centenárias para colocar em seu lugar asfalto e concreto.

Então chegou o ano em que muitas riquezas desapareceram da noite para o dia em todo o estado. A primeira delas foi a do Coronel Cascudo, que perdeu quase tudo em negócios mal realizados. Foi o ano da quebra da bolsa de Nova York. Ficou perigoso investir em qualquer coisa. Deixava de ser também um bom negócio comprar e vender algodão, pois para piorar São Paulo começava a ganhar a primazia no comércio do produto.

Jonas olhou para o armazém abarrotado de algodão e pensou, preciso dispensar alguns funcionários. Ficou quieto, não se desesperou. Estava sem poder movimentar a mercadoria, mas tinha dinheiro guardado em casa, no velho baú junto com os livros da mãe, e só ela tinha acesso à chave, estava seguro, dava para ir aguentando. Não tinha luxos, era um homem de hábitos simples, foi levando conforme Deus queria. Essa era sua sina, ser um homem precavido, senhor do seu próprio destino. Deixou o tempo passar. Compreendeu que nem sempre os que estão em cima vão ser mantidos no mesmo lugar e os que estão em baixo não têm mesmo para onde descer. O certo era ficar quieto, aguardar o desenrolar dos acontecimentos e ouvir sempre a opinião de Fernando Andorinha, que dizia sempre, muita calma e olho firme, prudência e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém.

Mesmo assim as coisas começaram a desandar para os dois sócios. A quebradeira era geral e, apesar de seus muitos contatos no Governo, Fernando Andorinha não estava conseguindo tantos clientes assim para suas falcatruas. Jonas estava ficando preocupado com isso, pois esta situação afetava diretamente seus negócios. Começou a olhar para o céu e pedir a intervenção divina para resolver seus problemas. Deus pode não ter ouvido suas preces, mas o milagre aconteceu.

Ele ia dobrando uma rua quando viu o professor Juca Guiné, que vinha em sua direção. Esperou o homem se aproximar e fez os cumprimentos de praxe. O professor estava agitado. Falava aos borbotões, gaguejando e atropelando as palavras. Demorou um pouco para que Jonas entendesse o motivo daquela algaravia. Juca Guiné trazia um velho mapa em seu bolso e contou de chofre: dizia que o encontrou no interior de um de seus livros antigos. Olhe bem, meu filho, veja só este mapa, não parece a região onde você comprou um sítio? Aqui diz que lá tem uma botija enterrada com o tesouro do Nyenburg. Você acredita nisso? Jonas balançava a cabeça, atarantado, tentando dizer que sim, mas que não entendia porque o professor estava lhe mostrando o mapa, sim, professor, mas isso não me pertence, o senhor é que tem todo o direito de ir lá buscar. Mas o homem de olhos esbugalhados apenas estendia a mão e lhe entregava o mapa. Não, que não quero isso, meu filho, isso é coisa do demo, não quero ir lá, tome é seu. E saiu correndo feito um louco até sumir na próxima esquina, deixando o rapaz atônito com aquela papelada nas mãos. Jonas demorou a compreender o que se passava ali diante de seus olhos.  Mas era o milagre que ele pedira.

Agoram quando queria resolver um negócio de última hora, Jonas dispensava o luxo da viagem pelo rio. Pegava uma condução que o levava pela antiga Estrada de Macaíba. Ao longo da estrada poeirenta, via que estava se formando o bairro do Alecrim. Conforme ia sacolejando pela estrada, ia observando os sítios, os roçados de mandioca e milho com pedaços de mata ao longe; as vacarias, a feira; mercearias, pousadas de tropeiros e motoristas e, ao largo, a Escola de Aprendizes Marinheiros. Chegando ao sítio, correu para o local demarcado no mapa. Trazia, no lombo de um burro, uma pá, dois sacos e uma bússola. Começou a percorrer o lugar com o sol a pino e só parou quando a tarde já começava a escurecer. Foi quando ele divisou uma pedra sobre uma pequena elevação no terreno. Não precisou cavar muito para que a pá batesse com um som oco em uma caixa de madeira. Abriu a tampa e lá estavam as moedas de ouro. Olhando mais cuidadosamente, percebeu que ainda havia mais seis elevações idênticas no terreno. Eram sete caixas então, como os selos do Apocalipse. Transferiu calmamente todo o conteúdo da caixa para os sacos e o colocou no caçuá, as outras caixas ficariam para depois, numa necessidade, talvez, não queria retirar tudo de uma vez, nem poderia sem chamar muito a atenção. Era mesmo um verdadeiro tesouro. Chegou à boquinha da noite e deu a volta na casa para não chamar a atenção de Florentino e Firmina, que estavam na cozinha conversando. Guardou tudo debaixo de sua cama e saiu para cumprimentar os amigos.

Natal começava a ensaiar os primeiros passos para ser uma capital de fato. Queria deixar de ser uma província para brilhar ao lado de Recife e Fortaleza como uma grande cidade. Um dia os natalenses viram no jornal que o prefeito Omar O’Grady havia contratado o arquiteto greco-italiano Giacomo Palumbo para traçar um novo plano urbanístico, uma coisa muito moderna e que iria organizar o caos que era essa cidade. Palumbo aplicou seu método do tabuleiro de xadrez e a cidade ganhou ruas enormes seguindo o traçado do rio Potengi. Alguns bairros, como o Tirol, ficaram tão simétricos que chegavam a confundir as pessoas em busca de um endereço qualquer. Natal era uma cidade vaidosa de sua posição geográfica.

Aqui pousavam os primeiros aviões que faziam a travessia do Atlântico e seguiam para o sul do país, para a Argentina. Nas esquinas surgiram rumores sobre a presença em Natal de um piloto-escritor francês, um tal de Antoine de Saint-Exupéry. Poucos sabiam disso, só alguns poucos intelectuais que já haviam lido alguns de seus livros no original. Mas não sabiam ainda do sucesso estrondoso que viria com a publicação de O Pequeno Príncipe. Quase ninguém sabia da existência desse livro. Mesmo assim, várias pessoas juram ter visto Exupéry em Natal.

Isso virou uma lenda que persegue a cidade até hoje. O técnico de aviação italiano Rocco Rosso, que escolhera Natal como pátria definitiva, garante ter tirado uma foto do escritor ao lado de sua aeronave no campo de Parnamirim. A viúva Machado diz que ele almoçou em sua casa. A senhora Nati Cortez afirmou tê-lo visto almoçando em um restaurante na Ribeira. O então jornalista Nilo Pereira foi apresentando a ele por Jean Mermoz, no campo de pouso de Parnamirim, mas não deu muita importância ao piloto grandalhão, estava mais interessando em entrevistar o outro, mais famoso. A senhora Severina Alves afirma que o teria visto na casa de hospedagem das tripulações francesas em Parnamirim. A senhora Lair Tinôco disse que viu o escritor subir à torre da Igreja Matriz, como se fosse o Alvissareiro.

Tudo isso está registrado no livro Epopeia nos Ares, de Pery Lamartine. Apesar de muitos duvidarem da presença de Exupéry em Natal (muitos garantem que a inspiração para o baobá do Pequeno Príncipe foi tirada de um espécime da árvore visto pelo escritor em uma rua do Alecrim, apesar de todos saberem que o piloto já havia sobrevoado a África várias vezes, o continente dos baobás), sua presença na cidade é como uma espécie de fantasma eterno, sempre rondando a imaginação das pessoas.

Para quem só acredita na tinta sobre o papel, vale dar uma olhada no livro Correio Sul, de Exupéry. Lá você vai ver logo no início do segundo capítulo a seguinte frase: “- Buenos Aires… Natal… Dacar… Casablanca… Dacar… Trinta e nove malas. Exato?”.

Para nossa história o que importa é que, dias depois, Mara chegou com a cara mais triste do mundo, tinha algo a dizer: havia recebido um convite para trabalhar em um hospital de Recife, com a possibilidade de entrar para a Cruz Vermelha Internacional. A notícia caiu feito bomba sobre a cabeça de Jonas. Foram passear na Praia do Forte, olhando as ondas quebrando ao longe na rebentação. Ele não quis demonstrar tanta insatisfação com a notícia, queria lhe dar um incentivo naquela hora difícil, afinal, nunca lhe prometera nada, nunca falara em casamento.

Ficaram abraçados ali, sentados na areia da praia, por um longo tempo. Foi quando sentiu o morno de umas lágrimas que salpicavam de leve sua mão. Era Mara se desmanchando em lágrimas. Ficou surpreso. Não queria acreditar que aquela moça o amasse tanto assim. Estava triste também, mas aceitava o destino, o que fazer?

Ele tentou até entabular uma conversa, quando você parte? Ela parou de chorar, na semana que vem, já estou com tudo pronto, meu pai nem precisa saber, só minha mãe. Ele afagou seu rosto, você é uma garota corajosa. Ela sorriu, depois ficou séria, você vai escrever para mim? Ele afirmou, vou sim, claro que vou. Ela falou baixinho, vamos mostrar que não é qualquer distância que vai nos vencer. Ele foi sincero, eu sei, mas existe o tempo, esse destruidor de destinos. Ela riu, que se dane o tempo, o que importa mesmo é o que vamos guardar dentro de nós. Ele concordou, o que tiver de melhor em nós dois, isso é o que importa. Pensaram juntos, um dia nos veremos, é, um dia estaremos juntos de novo.

Uma semana depois, foi deixá-la na estação de trem da Ribeira. Ficaram se olhando por um longo tempo, depois se abraçaram e se beijaram. Era como gravar na memória um instante, como uma fotografia, um rosto que se plasma em haletos de prata para sempre na superfície de papel, um fantasma que se imprime para sempre na moldura do tempo.

Ele voltou a pé, subindo a ladeira no rumo da Cidade Alta, queria tomar um pouco de café antes de ir para casa. Talvez conseguisse alguma notícia sobre a cidade, que espetáculo estaria em cartaz no teatro, queria esquecer. Mas neste momento teve uma visão que mais parecia um sonho. Olhando na direção da Ribeira, viu que uma espécie de charuto voador sobrevoava o bairro, despejando flores. Era o Graff Zeppelin, de passagem por Natal, que prestava uma homenagem ao aviador Augusto Severo. Essa imagem inesquecível ficaria em sua mente para sempre marcando aquele momento de despedida do ser amado.

Nessa tarde triste, ele caminhou a esmo até entrar no cemitério do Alecrim e sentar diante do túmulo do avô. Queria ter alguém para conversar. E aí, velho, você me deixou aqui sozinho e não sei mais o que fazer… Tem uma historinha aí para me contar? Não tem. Tudo bem… Não imagina como a vida ficou chata sem você. Agora quando quero saber de uma coisa, procuro nos livros. Mas não é a mesma coisa. Você sabia encantar. Uma história contada por você trazia sempre mais de uma história. Eu tinha que procurar nas entrelinhas de sua conversa, o segredo que você sempre quis me contar, a chave do mistério, o enigma da esfinge. Por que alguém ganhar o nome de um profeta que foi atirado na barriga de uma baleia por ter desobedecido às ordens do seu Senhor? Por que os homens escolhem o caminho do mal, quando é muito mais fácil escolher o bem? Agora tudo ficou mais confuso e, no entanto, a vida está cada vez mais simples de entender, meu velho. Por causa da sua ausência. Amo você, velho, amo demais. Preciso ir andando.

Voltou para o centro da cidade e quando já era noite. Entrou no cinema e ficou olhando para a tela sem ver nada, apenas vultos aos quais não conseguia acompanhar. Olhou para o chão, então, em busca de algum consolo, diabos, não era homem de sentimentalismo fácil. Saiu para a rua e ficou andando, olhando as pessoas, e aí começou a notar algo estranho. Havia uma movimentação muito grande de soldados marchando na direção do Palácio do Governo, pessoas cochichando pelas esquinas, um alvoroço.

Era o 29º Batalhão de Caçadores que vinha depor o governador Juvenal Lamartine. No sertão e agreste, Dinarte Mariz e Joaquim Saldanha pegaram em armas para enfrentar o inimigo. Apesar da agitação no campo político os dias transcorriam mornos e iguais nas ruas da cidade. O interventor Irineu Joffily assumiu e começou demitindo servidores públicos, reduzindo salários e exigindo mais rigor na coleta de impostos. Depois foi substituído pelo tenente Aluísio Moura.

Tudo isso era o prelúdio da Revolução de 30, mas ninguém sabia ainda em que essa confusão toda ia dar. Um fato curioso deste período histórico é que um futuro presidente iria mandar prender outro: o então tenente Ernesto Geisel, chefe de polícia de Natal, mandaria prender Café Filho após denúncias de conspiração. Na refrega, foi preso Sandoval Wanderley, diretor da Imprensa Oficial (um dos mais marcantes intelectuais da cidade, que apesar de sua força aglutinadora e capacidade de realização de eventos, não deixou uma obra significativa. Hoje é nome de um teatro no Alecrim). Foram presos também Pedro Guimarães (prefeito de Natal), José Anselmo e Edgar Siqueira (um inquérito que durou 36 horas mostrou que as denúncias eram infundadas). Os jornais começaram a falar na substituição do interventor, o que aconteceu logo com a nomeação do capitão-tenente Hercolino Cascardo.

Conto tais fatos apenas para mostrar que, apesar de tudo, o Brasil de vez em quando olha de esguelha para Natal. É como se existissem dois países separados pela miséria de um e pela arrogância do outro. Por isso peço licença para falar na Guerra de Canudos, que pouco ou nada tem a ver com os rumos de nossa história. Quantas cidadelas como Canudos se espalham pelas favelas (denominação ironicamente nascida de Canudos) das cidades do Nordeste? Quanta miséria continua escondida dos grandes centros irradiadores de narrativas mestras, obras-primas de nossa literatura? Calma, não responda agora. São apenas perguntas retóricas.

Os sertões não estão apenas nos grotões do interior desta terra imensa chamada Brasil. O sertão está dentro da cabeça de cada um. Todo aquele que larga suas terras e parte para as cidades do litoral em busca de saídas para seu desespero sabe disso. Suas pequenas vidas pouco interessam aos donos dos discursos, aos proprietários de editoras, aos donos de jornais que decidem o que deve ser lido pelo povo brasileiro. A opressão também se manifesta através do silêncio imposto aos outros. Natal é uma cidade amordaçada. Seus filhos mais ilustres são como profetas que clamam no deserto para gafanhotos indiferentes.

13

Os acontecimentos cotidianos pouco ou nada interferiram na vida do nosso herói, que agora tinha que tomar todos os cuidados para trocar suas moedas de ouro por dinheiro vivo. Não podia fazer isso em Natal para não chamar a atenção das pessoas e muito menos do esperto Fernando Andorinha. Não queria que o sócio soubesse de sua sorte grande. Fez de tudo para não mudar a rotina, mas sempre precisava de uma desculpa qualquer para ir a Recife resolver essa questão. Fernando Andorinha lhe disse que iria ao Rio de Janeiro fechar alguns negócios. Foi aí que surgiu a chance que Jonas queria. Em dois dias ele foi a Recife, entrou em contato com negociantes que já conhecia, conseguiu fazer a troca e voltar a tempo de não levantar suspeitas.

Invariavelmente, Jonas levantava cedo e tomava o café no mercado, lendo os jornais, conversando dois dedos de prosa com o pai ou algum feirante conhecido e seguia para Macaíba. Cuidava dos negócios com cuidado para não chamar demais a atenção. Mesmo assim não pôde evitar os olhares ansiosos de Andorinha. Ele queria saber por que o amigo estava se movimentando tanto se não havia dinheiro em caixa para quase nada. Desconversava, dizia que estava preocupado demais com a crise e estava tentando dar a volta por cima. Andorinha mordia o charuto desconfiado.

Na maioria das vezes, almoçava lá mesmo no trabalho, às vezes de forma precária, sobre o balcão do armazém, uma comida trazida por alguém de confiança. À noite jantava com os pais, e ficava olhando para os dois com uma ternura discreta, observando seus gestos lentos, imaginando como haviam envelhecido e continuavam os mesmos apesar de tudo. Sonhava dar uma vida melhor para eles, mas não, não podia levantar suspeitas.

Agora cuidava sempre de afastar a lembrança de Mara, algo doloroso e permanente como um reumatismo na alma, uma fisgada no músculo do espírito que o trazia de volta à realidade, quase sempre exausto. Sentir a ausência de alguém é como beber água em um copo vazio quando se está morto de sede. As ações do cotidiano perdem o sentido, as coisas perdem a cor, o sabor, o cheiro. Principalmente quando essa ausência se trata de alguém que está ao alcance, a alguns quilômetros de distância. Isso é o que incomoda mais.

Por isso ficava irritado com tudo, não conseguia se concentrar direito no que tinha que fazer.  Procurou mais uma vez se distrair com a leitura. Soube que Cascudo acabara de escrever mais um livro de história, O Conde D’Eu, e tentou conseguir um exemplar. Sentia um enorme prazer naquela ocupação da leitura, bem mais do que sentia ao realizar um bom negócio, ou auferir grandes lucros numa transação. Porém não conseguia escrever nada que lhe agradasse, nem mesmo as cartas que tentava escrever e que iam invariavelmente para a cesta do lixo.

De vez em quando um fato extraordinário abalava a província. Quando um hidroavião pousava no Potengi, quebrando a rotina, como no dia em que chegou o DO-X, o maior do mundo, com o almirante português Gago Coutinho. Ou quando o hidroavião Olinda explodiu, ao se chocar com uma alvarenga, matando três tripulantes. Ou ainda quando Charles Lindbergh amerrisou, acompanhado de sua mulher, suavemente nas águas do rio Potengi, chamando a atenção dos jornais do mundo para este recanto esquecido das Américas e todos ficaram ocupados com tais eventos.

Um dia andando pelas bancas do mercado soube através de comerciantes que o Coronel Cascudo perdera sua propriedade. Era a Vila Amélia, depois denominada Vila Cascudo ou Principado do Tirol, um terreno grande em que havia uma mansão mobiliada com o que havia de melhor na época, sofás, mesas e cadeiras de jacarandá, candelabros de cristal, banheiros com mosaicos belgas e tinha até telefone! Ao redor um jardim bem cuidado por jardineiro importado da Itália. Nos fundos um curral com gado holandês e na estrebaria cavalos de raça. Na garagem três carros, o coronel era negociante de automóveis e de bebidas importadas.

Eram os efeitos provocados pela quebra da Bolsa de Nova York, que chegaram ao Brasil e pouco depois em Natal (como sempre com algum atraso), primeiro causando uma inflação violenta, depois elevando os juros. O Coronel caiu junto com vários outros e teve que hipotecar a propriedade. A família mudou-se para uma casa modesta na Ribeira, a casa que ficaria célebre por causa de seu futuro ilustre morador.

Por essa época, Câmara Cascudo era professor de História do Atheneu Norte-Rio-Grandense, diretor da Imprensa Oficial e começava a carreira de historiador, tendo já publicado o trabalho Lopez do Paraguai. Sobre esse período da vida de Cascudo, Jonas ficou sabendo de uma história esquisita que se comentava a meia voz pelas praças do centro da cidade. Um professor pedira a demissão de Cascudo por considerar uma “indignidade um professor de respeitável educandário andar indagando lobisomem e estudar catimbó…”. O ilustre professor jamais poderia saber que Cascudo estava colhendo dados para seu colossal trabalho sobre o tema intitulado Meleagro (a prática do catimbó era um verdadeiro crime desde o início do século, quando se tem notícia da prisão de um praticante chamado Remígio, na Lagoa de Manoel Felipe). A partir daí, Jonas descobriu, com pesar, o verdadeiro significado da palavra mediocridade.

Certa manhã soube pelos jornais que falecera a Baronesa de Serra Branca, a última representante do império em terras potiguares. Mas algo o fazia pensar que o Brasil continuaria através dos tempos repetindo o modelo dessa forma de governo. As oligarquias tomariam o lugar da nobreza e os filhos dos ricos seriam os futuros príncipes, condes, barões. Herdeiros naturais das conquistas políticas dos pais e avós sem qualquer necessidade de consulta ao povo. Sim, o povo era consultado, sim, mas na forma de currais eleitorais, uma prática que atravessaria o século até tempos futuros inimagináveis. Enquanto lia o jornal, recebeu uma carta de Mara. As palavras pipocavam nas páginas em meio à tontura, enquanto tentava coordenar o raciocínio e a emoção. Muito trabalho, saudades, noites vazias, ela tão perto, tão longe, as obrigações, o amor, enfim, a flor de nosso sexo, abraços, beijos. Olhou ao redor, a vida comum de sempre, os homens suados carregando fardos de algodão, o mormaço cá dentro, calor ardente lá fora, tirou o chapéu, passou um lenço pelo pescoço, ah, o mar tão perto, tão longe…  Mara, Recife, logo ali, bastava tomar um trem, mas os negócios, meus pais… Não quero, não vou, não quero… Ficou vendo as horas pingarem marcando cada hora, cada minuto, cada segundo da história do tempo.

Aí aconteceu uma coisa esquisita em Natal. Jonas já decidira que não iria à noite ao Teatro Carlos Gomes para assistir a uma solenidade da turma de Concluintes de Contabilidade, do Colégio Santo Antônio. Iria ser encenada a peça O Triunfo da Cruz por um grupo amador de atores católicos. Ainda guardava na lembrança a apresentação do Canto dos Pescadores, de Henrique Castriciano, regida pelo maestro Waldemar de Almeida, no Teatro Carlos Gomes.

Mas, antes, haveria uma solenidade com a presença do governador Rafael Fernandes e também de um regimento de marinheiros mexicanos e… Não, não, assim era demais. Preferia ir ao Cine São Pedro ver algum filme. No meio da exibição, ouviu vários disparos ao longe. Não deu atenção, continuou absorto vendo o filme. Ouviu novos disparos e aí não conseguiu mais ver o filme e resolveu sair. Na saída ouviu mais disparos para os lados da Ribeira. Não teve dúvidas, algo muito grave estava acontecendo.

Era o início da rebelião comunista. Jonas ficou preocupado, um novo tiroteio se iniciava para os lados de sua casa, que ficava nas proximidades do Quartel da Polícia Militar. A história deixará gravada essa página de violência na vida pacata de Natal. O fogo da artilharia iria se intensificar na boquinha da noite e isso impossibilitava qualquer tentativa de acesso às ruas próximas ao quartel, cercado por todos os lados, menos pela parte de trás que tinha um matagal de frente para o Rio Potengi.

Ele queria chegar à sua casa logo, para acudir aos velhos pais. Decidiu então descer a ladeira do Baldo e contornar as ruas onde estava ocorrendo o combate, para poder chegar ileso. Temia pelo pai e a mãe, que estavam sozinhos em casa, e a essa altura bastante preocupados. Chegou esbaforido e bateu na porta. Quem é, perguntaram assustados. Sou eu, abram logo e vamos sair daqui correndo, a bala está comendo solta ali no quartel. O que está havendo, meu filho, perguntou assustado o pai. Não sei ainda, vamos, vamos. Saíram correndo pela rua abaixo em busca do Alecrim.

A essa altura toda a vizinhança corria alvoroçada também. Um tumulto. Com muito sacrifício foi guiando os pais pelo caminho até chegar num ponto em que os disparos já pareciam distantes. Pararam para descansar e ficaram ouvindo com o coração aos pulos. Continuaram a marcha até chegar às proximidades do Cemitério do Alecrim. Lá, avistou um chofer que costumava levá-lo ao sítio de Macaíba, quando não havia trem. Ajustou a viagem às pressas (o homem queria cobrar dobrado, a noite oferecia muitos perigos com todo aquele tiroteio) e embarcaram rapidamente.

O motorista estava nervoso, falando muito, dizem que são os comunistas. O quê? O que diabo é comunista, homem de Deus? Os comunistas, uns condenados que querem matar os padres e tirar o dinheiro de quem tem, eles vão governar a cidade e tomar nossas casas, nossos bens, tudo… Estamos todos lascados dessa vez, seu Jonas… Calma, cuidado com a estrada, rapaz, tem muita gente correndo por aí… E assim chegaram ao sítio em Macaíba tarde da noite.

Só ficou sabendo das notícias no dia seguinte. Ao ouvir o tiroteio, as pessoas que estavam no teatro resolveram sair em busca de abrigo. O governador e os marinheiros mexicanos fizeram o mesmo, cada um para seu lado. A refrega durou até o meio da tarde do dia seguinte, e resultou em um morto, o soldado Luiz Gonzaga (um herói duvidoso, dizem alguns), além de vários feridos.

Os comunistas tomaram o poder. Houve resistência em vários pontos da cidade. Nove homens do Pelotão de Cavalaria combateram até uma hora antes do meio-dia e renderam-se. Soldados aquartelados na Cadeia Pública, no alto da colina de Petrópolis, responderam ao fogo, mas entregaram-se logo, libertando os presos. A Inspetoria de Polícia foi logo dominada nos primeiros momentos da revolta.

Na Escola de Aprendizes Marinheiros ocorreu um fato engraçado. Ao ver a aproximação dos rebeldes armados, todo o agrupamento fugiu em barcos para o Rio Potengi, escondendo-se num velho navio. Depois de um tempo, o comandante voltou pensando não ter mais ninguém no prédio e foi recebido à bala. Voltou apavorado para o navio em busca de apoio nas embarcações mexicanas que estavam próximas. Mas não obteve muito sucesso. Talvez os mexicanos não estivessem tão dispostos a reviver capítulos de sua própria revolução em um país distante. O movimento durou apenas alguns dias, algumas cidades do interior foram dominadas e logo depois devolvidas, os insurretos foram presos e a vida prosseguiu sem grandes sobressaltos.

Claro que muita gente teve sua vida completamente destruída após o episódio. A insurreição iria aumentar ainda mais o pavor aos comunistas em todo o país, causando um prejuízo enorme para o desenvolvimento das ideias de esquerda no Brasil. Jonas observava a tudo com indiferença. Não tinha qualquer interesse por ideologia. Grosso modo, achava que o sistema capitalista era o melhor para a prática de sua profissão e que a democracia era o sistema mais justo de governo. Esse negócio de compartilhar a propriedade com todos não o seduzia muito.

Para ele, o mais importante nesses dias foi receber uma carta de Mara comunicando a decisão de embarcar para a África em uma expedição da Cruz Vermelha. Era uma carta bem curta, sem muitos detalhes, sem sentimentalismo: volto logo, não fique preocupado, tudo vai dar certo, gostaria que você viesse se despedir de mim. Mais uma vez, ele caiu em uma profunda tristeza. Passou dias e dias, fechado em seu quarto, saindo apenas para comer um pouco, beber um copo d’água, saber notícias do mundo.

Sim, estava ficando um sujeito muito frágil, sofrendo com qualquer coisa. Ele já devia estar acostumado com a personalidade de Mara. Ela queria ver o mundo, seguir os passos de sua heroína Nísia Floresta. Não era uma mulher de ficar em Natal criando os filhos e indo à igreja aos domingos. Ele sempre soube disso. Não havia motivo para tanta tristeza agora, mas as pessoas nunca estão preparadas para a realidade. Há sempre aquela pontinha de esperança de que a outra pessoa vai fazer o que esperamos dela. Ficava resmungando pela casa, se ela quer ir ganhar o mundo, que vá, ora. Mas no fundo, tudo o que queria era que ela voltasse logo para seu lado. Começou a fazer os preparativos para a viagem a Recife.

Neste ano iria anotar em uma página do seu caderno de balanços um dado curioso: um rico comerciante inglês, comprador de algodão, que se correspondia com ele há algum tempo, enviou-lhe uma brochura de um sujeito chamado Percy Alvin Martin, uma espécie de “quem é quem na América Latina” em que havia um verbete para Câmara Cascudo. Como sempre, mandava buscar tudo que Cascudo editava, em qualquer lugar do país, recorrendo a amigos, negociantes de outros estados, e neste ano teve a oportunidade de ler o texto O Marquês de Olinda e Seu Tempo, uma notável obra de conhecimento do Brasil; Dr. Barata, Político, Democrata e Jornalista, além de outros títulos como: Em Memória de Stradelli, O Brasão Holandês no Rio Grande do Norte, O Homem Americano e seus Temas.

Para ele, Cascudo era um ser no mínimo curioso. Havia algo nesse homem que o tornava diferente dos demais, fascinante, inspirador. Não sentia só orgulho do conterrâneo tão inteligente que começava a se destacar na vida intelectual de uma forma nova e vibrante. Sentia também uma espécie de estranha inveja. O mestre estava fora dos padrões da província. Acompanhava os artigos de Cascudo no jornal A República, com afã de curioso, algumas vezes discordando de sua opinião, outras concordando, mas sempre muito admirado daquela inteligência, da agudeza de análise, do estilo caprichado. Exclamava sempre que lia algo de Cascudo, que grande escritor! Não é só o que ele descobre através de suas pesquisas, é também a forma como escreve!

Este ano, porém, seria particularmente triste para Cascudo. Seu velho pai falecera triste e sozinho, numa província que só valoriza a aparência. Enquanto se é rico, todas as atenções lhe são prestadas, quando se é pobre, todos viram as costas. É assim mesmo. Você só vale o que possui. Isso causaria grandes problemas para Cascudo, pois agora teria que caminhar sozinho num mundo cheio de armadilhas, de pessoas falsas, mais interessadas no que a cultura pode render de fama do que no conteúdo do que é realizado. Agora teria que arranjar um jeito de se manter sozinho, ao mesmo tempo em que produzia a fase mais importante de sua obra. Mas aquilo não dava dinheiro, era preciso encontrar um bom emprego para sustentar a família.

A cidade parecia mais morna e mais triste. Apesar de tudo, mudava. A Avenida Rio Branco foi prolongada até a Ribeira pelo prefeito Miguel Bilro. Neste ano Cascudo concluiu a Intencionalidade do Descobrimento do Brasil. Jonas já havia tomado conhecimento dos textos O Mais Antigo Marco Colonial do Brasil e Viajando o Sertão. Entretanto, parecia que nosso herói andava enjoado de quase tudo, nem essas leituras lhe proporcionavam mais tanto prazer.

Finalmente, ele decidiu marcar a passagem para Recife. Não estava mais aguentando tanta saudade, as dificuldades familiares e dos negócios já eram desculpa suficiente para partir. Embarcou na estação da Ribeira, o coração aos pulos, parecia um marinheiro de primeira viagem, e ficava dizendo para si mesmo, que é isso, para que tanta afobação? Quem diria que fosse ficar assim tão alvoroçado. Assim mesmo, ele embarcou vestido no seu velho paletó de linho branco, chapéu de palha do tipo Panamá, bengala com castão de marfim, uma figura. O trem deu a partida no ritmo de seu coração.

O primeiro encanto foi ver os verdes vales de cana-de-açúcar passando por Papary, São José de Mipibu, Goianinha, Maxaranguape, o cheiro adocicado e meio apodrecido da cana em tempo de colheita invadiu suas narinas, o vento esvoaçando seus cabelos, o cheiro de fruta dos vendedores de bananas, uma criança chorando no colo da mãe, tudo isso o encantava. Depois de ultrapassar o adensamento da mata nas terras da Paraíba, adormeceu sonhando com os lábios de Mara, os cabelos louros de espiga de milho verde, a pele branca de pêlos dourados, os olhos verdes, o corpo delgado, delicado como o caule do lírio. Ah, Mara, sua boca na minha boca, seus seios em minhas mãos…

E continuou sonhando com a palavra lírio em estado de dicionário e com a imagem de Mara fundindo-se às águas do Capibaribe no remanso das ilhotas que formam a cidade do Recife com as águas podres cheirando a lírios-fétidos e tristes. Quando o trem soltou o apito de chegada, já estava desperto há tempos. Pegou um táxi e foi direto para um hotel no centro. Era final de tarde e a cidade exibia um formigar de pessoas e carros a que não estava habituado.

Que cidade grande, Jonas murmurou consigo, hum, hum, para que tanta pressa, se todos vão chegar mesmo aos seus lugares? O motorista olhou pelo retrovisor interno. Viu um homem na flor da idade, o porte altivo, semblante sério, meio triste. Jonas confrontou o olhar do motorista que desviou a vista para a estrada. Pela janela passava a imagem de uma cidade com cara de metrópole. Recife era tudo que Natal sonhava ser.

Chegando ao hotel, despiu-se, tomou um banho, vestiu uma camisa limpa e o mesmo paletó. Ligou para Mara e marcou um encontro no restaurante do hotel. Esperou a hora olhando pela janela, o movimento lá embaixo. A cidade rosnando feito fera, o rugido do trânsito, pessoas atulhadas na calçada. Pensando bem, não gostava muito de toda aquela movimentação. Não, gostava mesmo era do sossego das ruas de Natal.

Desceu para o restaurante e ficou esperando. Logo o garçom se aproximou e perguntou o que ia querer. Pediu uma entrada leve para ficar beliscando enquanto vinha a refeição principal. Quando olhou para a porta viu uma linda figura de mulher que vinha em sua direção. Mara, a mesma pessoa, suave, suave, parecia flutuar sobre o assoalho. Os olhos, os olhos, que olhos mais lindos, verdes, marinhos, cintilantes. As mãos, que mãos delicadas, finas, brancas. O arfar dos seios sob o vestido, como estava elegante naquele vestido.

Ela se aproximou com um sorriso, ah, o perfume, que aroma doce, tão doce. Ela sentou à sua frente e ficaram apenas se olhando com um meio sorriso. Não houve troca de palavras nem qualquer movimento brusco, apenas olhares que se encontram, se penetram e se entendem. Mas se houve alguma conversa durante o jantar, não vamos revelar aqui, deixemos aos dois uma tamanha intimidade. Apenas palavras esparsas, fluidas, soltas no ar, tão necessárias quanto o perfume que se aspira.

Depois do jantar subiram para o quarto e aqui uma cortina desce sobre a cena. O vento soprava sobre os lençóis provocando uma dança de águas marinhas. A manhã tinha um cheiro de lírios que vinham do jardim do hotel sob as janelas. As cores que iam do azul ao amarelo falavam de céu e sol. Ele afagou as costas da mulher, passando as mãos pelas nádegas, descendo pelas coxas até os tornozelos. Ela gemia baixinho com essa carícia costumeira entre os dois.

Ele ria em silêncio. O que é a felicidade? Talvez seja a presença do outro, quem sabe, ou a imagem do outro em nós, o que faz de nós a imagem simultânea de um espelho de contrários. A imagem do desejo do outro em nós.  Mas a felicidade nunca é algo permanente. É sempre aquela coisa fugidia que nos escapa entre os dedos. Para uns, felicidade é muito dinheiro. Para outros, é o alimento garantido para aquele dia. Ou ainda um pouco de paz e saúde e a companhia dos entes queridos… Vá saber…

Ficaram assim naquele idílio por mais de uma semana.

Então ele disse que precisava voltar logo para Natal. São os negócios, sabe? Meus pais estão sozinhos. Ela assentiu apenas, concordou em silêncio, não queria prolongar aquele momento desconfortável, como se afastasse uma dorzinha incômoda. A vida é assim mesmo, pensou, quanto mais tentamos reter esses momentos bons, mais sofremos. A gente não pode ter tudo o que quer o tempo todo, né? É, tem razão. Mas não choraram na despedida, apenas trocaram afagos e se olharam por mais tempo, como fazem os amantes. Mande notícias, sim? Ele respondeu triste, com certeza, mando sim. E depois o silêncio e aquele branco tomando conta de tudo, como um trem que sai do escuro fechado da vegetação para a claridade de um dia luminoso. Um branco, um esquecimento, uma explosão de luz.

Assim o trem que levava Jonas de volta para Natal voltou a percorrer a imensidão dos canaviais, dos casebres na beira da linha férrea, da pobreza desse povo que desconhece o medo, o cansaço, a desistência. Pela janela, a paisagem passava monótona enquanto a lembrança nítida de uma noite de amor ia se consolidando na memória daquele homem triste. Somente os que sabem a dor dos que vivem longe de seus entes amados, podem saber o que se passa na mente de alguém que vê a distância como um espelho que se move para trás.

Viajar para longe de quem se ama é como perder esse alguém para sempre. Nenhuma carta, nenhum telefonema, nenhuma fotografia vai substituir o calor do ser que não está.

13

Chegando a Natal, Jonas mergulhou logo nos negócios para não pensar em nada. Começou a diversificar, introduzindo novos produtos entre as mercadorias de sempre: cereais, enlatados, rapadura, somente produtos pouco perecíveis. Adquiriu um armazém no Alecrim, na beira da estrada velha de Macaíba, pela facilidade no transporte de produtos chegados no porto de Natal. Agora ficava mais tempo na cidade.

Certa noite assistiu a um concerto de Guiomar Novaes, no Teatro Carlos Gomes, e pensou como seria a vida sem a música. Existem pessoas que vivem sem qualquer contato com a música, a boa música. Dizem que não precisam disso para viver. Nesta noite conheceu um rico comerciante da cidade (esqueceu logo seu nome) que dizia não ouvir nunca. Sua única diversão era ganhar dinheiro. Como seria a vida de alguém assim? Que tipo de vazio poderia ser preenchido apenas com o ato mecânico de ganhar dinheiro? Que tipo de alma abriga um espírito assim tão embrutecido? Outros ouvem sempre música de má qualidade. Aquele tipo que não requer qualquer habilidade, elaboração. Geralmente, é a mais apreciada pelas massas ignorantes. Mesmo as melhores músicas de origens populares passavam despercebidas por quase todos.

Para ele, além da literatura, a música se constituía num elemento de grande consolo para as dores da alma. Vez ou outra parava um pouco e ficava olhando o teto, a imagem nítida de Mara nas retinas, o aroma de lírio explodindo em meio ao cheiro doce da rapadura. Aí suspirava pensando, saudade, essa palavrinha que não tem tradução para outros idiomas. Ai, se ao menos ela mandasse alguma notícia.

Pois logo chegou um telegrama que dizia: embarco amanhã para a África. Não se preocupe. Terei cuidado. Jonas entrou em desespero. Pela primeira vez, sentiu vontade de beber algo forte, uma cachaça, um uísque, qualquer coisa. Chamou o compadre, vamos fechar a birosca e dar um pulinho lá em Maria Boa. Ciço ficou preocupado, mas compadre, o senhor não é disso. Ele ria, calma, homem, nós não vamos atrás de mulher, vamos lá só para beber.

Maria Boa era o mais prestigiado bordel da cidade, frequentado por políticos, altos funcionários públicos, comerciantes e boêmios ricos da cidade. Até Câmara Cascudo aparecia por lá de vez em quando para brincar com as meninas. Lá a gente está em casa, homem, você vai gostar. Jonas riu, é mesmo, você vai entrar na farra também. Saíram dando risadas. Chegaram a Maria Boa no fim da tarde. Pediram umas doses de cachaça para abrir o apetite. Depois disse, traga uma cerveja, menina, e venha sentar aqui com suas amigas. Não é que fosse raparigueiro, tentava explicar ao amigo, mas é que de vez em quando um pouco de diversão não fazia mal a ninguém. Mandou colocar um forró na radiola e saiu dançando com uma das moças. O compadre ficou só olhando lá da mesa, puxando conversa com a outra. E tome cerveja e tome dança a noite toda. Quando já não aguentavam em pé, foram todos para o quarto e as portas fecharam atrás de si, tapando a visão aqui para o leitor ansioso e sua imaginação fértil. Mas dava para ouvir o som das risadas, beijos e gemidos lá mesmo do salão de dança.

Acordaram com a cabeça zunindo, um gosto ruim na boca, ânsias de vômito no estômago, uma merda. Correram para o quiosque mais próximo para tomar um caldo de cana bem gelado. Com um pouco mais já estava tudo voltando ao normal. Precisavam sair rápido para ir até o armazém de Macaíba cuidar dos negócios. Chegando lá foram direto para o sítio. Firmina e Florentino serviram o café com um sorriso maroto no rosto, serviram um caldo bem quente, uma cabeça-de-galo, ouvindo a conversa dos dois. Agora Jonas estava mais disposto. Logo estava brincando com o filho do casal, esse cabra vai ser um vaqueiro que nem o pai, não é, Firmina? Sei não, compadre, queria era que ele estudasse para ser doutor. Ao que ele rebateu, vamos dar um jeito nisso, Firmina, já estou pensando no futuro dele.

Cândido era um menino bonito de feições sertanejas. Sua pele amorenada e os cabelos negros lisos eram uma herança da mistura de sangue negro e índio dos ancestrais. Pode-se dizer que era um garoto de sorte, pois logo cedo ganhou de herança a fazenda do avô, o velho fazendeiro pai de Firmina, que vivera até o fim de seus dias sem falar com a filha, mas nutrindo um amor irracional pelo neto.

Quando o menino ficou mais crescidinho, Jonas passou a levá-lo de vez em quando ao armazém, para que pudesse aprender o ofício e, ao mesmo tempo, matriculou o menino numa boa escola do município. Depois que se curou da ressaca naquela manhã, saiu do sítio, chegou ao armazém e pediu para um moleque trazer os jornais. Gostava de ler logo cedo, para saber das coisas em primeiro lugar, dizia.

Mas neste dia decidiu que ia ler assim mesmo, com a manhã já bem avançada, o sol a meio caminho do céu. Pegou o jornal e leu a manchete: Hitler invadiu a Polônia. Estava começando a Segunda Guerra Mundial. Resmungou, mais uma guerra, quem é que precisa de outra guerra? Sua preocupação devia ser a mesma de todos os natalenses naquele momento crucial da história moderna. Que importa uma guerra lá na Europa? O máximo que podia acontecer por aqui era uma brusca subida nos preços, uma escassez de alimentos, algumas mudanças na balança comercial, nada mais. “O povo estará oprimido, um pressionando o outro, vizinho contra vizinho, crianças agredindo idosos, os canalhas, as pessoas de respeito”. Parecia uma descrição correta do que começaria a acontecer no mundo.

Ouvia o povo conversando nas ruas. Quem é esse homem, esse tal de Adolf Hitler? Sua foto nos jornais, o bigodinho, a farda, a pose ambígua. Charles Chaplin estava naquele mesmo instante produzindo a mais demolidora sátira sobre aquele pequeno ditador. Hum, sei não, esse homem não merece a mínima confiança. E o pior é que existiam dezenas deles pelo mundo afora. Mussolini, Salazar, Franco, Stalin, Getúlio.

Para piorar as coisas, o ditador italiano mantinha relações muito amistosas com o governo brasileiro. Mandou até uma comenda para Câmara Cascudo. Em um determinado momento da história isso era uma honra suprema, não motivo de vergonha. Cascudo aceitou. E isso não foi nada bom, pois uma coisa que nosso herói não conseguia suportar era aquela aproximação de Cascudo com movimentos de extrema direita como os integralistas. Ah, isso era um trago muito amargo de engolir. Mas então, logo depois, quando o Brasil entrou na guerra, veio uma boa notícia: Cascudo resolveu devolver a comenda e participar da Defesa Civil. Isso para Jonas foi motivo de grande contentamento e a certeza de que admirava o homem certo. Neste período Cascudo lançou dois livros: Governo do Rio Grande do Norte e Informação de História e Etnografia.

O primeiro tem verbetes curtos sobre personalidades políticas na época do Império e República velha, interessante apenas para pesquisadores. O segundo trata da intencionalidade do Descobrimento do Brasil, um assunto que incomodava o pesquisador potiguar, e os diferentes aspectos do folclore indígena. De alguma forma, mostra falhas de Cascudo como historiador e ressalta seu talento para o folclore. Aqui o mestre antecipa a presença do português no Brasil para 1490, dois anos antes da histórica viagem de Colombo. É como alguém dizer hoje que a viagem do homem à lua foi a grande farsa do século.

Um dia Mussolini mandou uma Coluna Capitolina (um pedaço da história do velho Império Romano!) de presente para Natal. O antigo monólito ficou vagando de praça em praça até encontrar um local seguro onde repousa longe da ação dos vândalos. No dia em que a Capitolina chegou, o Rio Potengi ficou coalhado de hidroaviões, eram 12 deles! Era a frota do general italiano Italo Balbo que vinha entregar a coluna. O povaréu não se continha de tanta admiração.

Algumas pessoas, até as mais inteligentes, estavam aderindo aos ditadores europeus. O mundo inteiro admirava o modo como Hitler havia tirado a Alemanha da miséria do pós-guerra para transformá-la numa das mais desenvolvidas nações do planeta. Mussolini não fizera diferente, prometendo à Itália uma volta ao Império Romano. Pipocavam movimentos de direita, com pessoas fardadas nos moldes dos nazistas alemães e fascistas italianos.

Se as pessoas prestassem mais atenção nas informações que vêm do passado iriam lembrar que até nos Estados Unidos surgiu um movimento idêntico aos integralistas aqui do Brasil. Muitos americanos sonhavam com o fim da miséria provocada pela Grande Depressão e viam nos ditadores europeus uma bela saída de seus problemas. Grandes intelectuais aderiam essa onda sem pensar nas consequências. Cascudo foi um deles, mas também dom Helder Câmara e até o poeta norte-americano Ezra Pound. Nosso projeto de ditador, o presidente Getúlio Vargas, nutria grande admiração por Hitler e Mussolini.

Jonas conhecia alguns negociantes alemães e italianos e achava que todos eles eram gente muito boa. Chegavam aqui falando manso, fechavam o negócio e seguiam em frente. Alguns eram bem humildes, vindos lá do sul do país, pessoas boas, honestas, íntegras, como um negociante alemão que vendia máquinas de costura. Era Helmut, um grande sujeito que depois da guerra foi morar em Berlin (para ajudar na reconstrução, disse ele), sujeito bom, de boa conversa, um grande amigo mesmo.

Até o final da guerra, não conseguia entender como pessoas assim poderiam ter apoiado tamanha destruição. Sempre que tinha algum tempo, comentava a situação do mundo com as pessoas, não, o Brasil não vai entrar nessa guerra, dizia, Getúlio Vargas não vai querer isso. Mas a voz da razão sempre falava mais alto e aqui e acolá alguém abria seus olhos, ele vai querer sim, esse homem gosta muito de Hitler.

Em casa estavam todos apreensivos, a mãe rezava num canto, meu Deus, santo pai, afasta de mim este cálice, afasta o sangue amargo dos inocentes. Ele ia lá, afagava aqueles cabelos brancos, e dizia, não tenha medo, mãe, a gente fica muito longe disso, lembra da outra guerra? Não chegou nem perto da gente, tudo vai ficar bem.

Heloisa tentava se confortar com as palavras do filho, mas uma coisa pesava no peito, uma guerra é sempre algo muito terrível. As pessoas começam pensando em glória, coragem, honra e depois são as atrocidades, os crimes. “Infelizes! Preparam a própria desgraça. Feliz do justo, pois tudo lhe corre bem, porque se alimenta do fruto do próprio trabalho”. Parecia que o profeta estava falando para as pessoas de agora e não para a Jerusalém de seu tempo. Ela temia pela guerra na Europa, mas por aqui achava que estava tudo muito bem, seu menino agora era homem feito, trabalhava, ganhava o sustento, tinha seu próprio negócio, gostava de livros como ela, embora parecesse sempre um pouco triste, não dava para notar direito, só olhando bem de perto quando estava distraído… As coisas iam bem, graças a Deus e Santa Maria misericordiosa há de nos proteger, voltava a rezar.

Nas horas vagas, o rapaz gostava de sair para longas caminhadas ao redor da cidade. Gostava de ir até a praia de Areia Preta e ficar sentado na areia olhando o mar, ouvindo o barulho das ondas, sentindo o cheiro das algas… Havia umas poucas casas ao redor, era um lugar muito sossegado, bom para fugir dos outros e pensar um pouco, ler um bom livro ou dar uma olhada no jornal. Na volta, passou pelo centro da cidade para tomar um café. Um grupo de conhecidos estava comentando a última notícia. Era fevereiro de 1940, e o cruzador Hawkins havia atacado o cargueiro alemão Wakama, no litoral de Cabo Frio. A diplomacia brasileira estava alvoroçada. Os americanos começaram a cobrar uma posição do Brasil. O ano começava mal com esses prenúncios de guerra chegando cada vez mais perto. Jonas ficou preocupado, temia pelos negócios.

O ano transcorreu tranquilo até o dia em que chegou outro telegrama de Mara: viajo para a Europa. Teatro de guerra. Rommel domina a África. Aguarde carta. Ficou intrigado, puto, desnorteado. Teatro de guerra? Que diabo é teatro de guerra. Guerra não é teatro, guerra é sangue. Guerra é morte. Teatro é poesia, Shakespeare, Moliére, os gregos, que merda! E quem diabos é esse tal de Rommel? Dias depois chegou uma carta, terna, saudosa, porém firme, essa era a decisão, queria fazer algo de importante na vida, não queria morrer nessa mesmice aí da província. Se for preciso morrer, morrerei, mas terei vivido o suficiente, de qualquer forma ficou perigoso aqui na África também. Jonas ficou desesperado. Uma parte de sua mente queria concordar, outra repelia a ideia com violência. É louca, larga tudo e vai arriscar a vida na guerra. Arriscar tudo? Que tudo? Eu? A família dela? Ora, Mara não tem família, a família dela é ela mesma.

Em agosto um navio brasileiro foi atacado por um navio alemão. Os ingleses causavam dificuldades à marinha mercante brasileira para pressionar Vargas. Os americanos apoiavam a pressão. Apesar de tudo, o Brasil resistia a entrar na guerra. Logo em seguida, o navio Taubaté sofreu um ataque de um caça alemão em que morreu um tripulante. O governo Vargas balançava. A partir daí, começou uma movimentação diferente para os lados de Parnamirim, um pequeno povoado a leste de Macaíba. Jonas alugou um carro e chamou o compadre para ir até lá ver o que estava acontecendo. E viram algo que nunca haviam imaginado ver. Estava sendo construída uma das maiores pistas de pouso já vistas naquelas latitudes. Vixe, meu compadre, o que é isso, por caridade? É uma base aérea, meu compadre, daqui os aviões americanos chegam mais rápido na África, em Dakar, onde eles fazem guerra aos alemães. Minha nossa senhora, compadre, e os americanos vão mandar em nós agora? Vão não, Ciço, não dessa forma que você está pensando, mas vão mandar de outro jeito, sim, um dia vão. O compadre coçou a cabeça, sem entender nada. Mas foi mais ou menos assim que começou a ser traçado um dos períodos mais vibrantes da história recente do Rio Grande do Norte.

Nos meses seguintes, ele olhou com espanto as mudanças que iam ocorrendo em Natal. A cidade estava diferente, cheia de estrangeiros louros, com óculos ray ban e fardas cáqui, mascando chicletes e bebendo coca-cola. Simpáticos, galantes, namoradores… Tudo isso acontecendo numa velocidade alucinante e ele só pensando em uma coisa: como estaria Mara nesse momento. Então chegou mais um telegrama: estou na Europa ajudando as tropas que combatem o nazismo e o fascismo. Sentiu um profundo orgulho por aquela mulher corajosa, mas também um frio no estômago, um pavor inexplicável da morte. Ai, meu Deus, minha Mara no meio dos combates, as descargas de metralhadoras, as baionetas, as bombas.

Todo o horror da guerra veio, num instante, aos olhos que responderam esbugalhados. Procurou conforto na Bíblia: “Teus homens vão tombar, mortos a espada, os mais fortes morrerão todos em combate.” Um cronista do passado vinha ao encontro do mundo moderno com palavras que pareciam gravadas na pedra. Jonas correu para o interior do armazém, na tentativa de esconder a dor, não era homem de demonstrar seus sentimentos, assim, na frente dos outros. Estava ali, confortavelmente sentado entre fardos de mercadorias, enquanto sua mulher corria perigo na frente de combate. Não conseguia aceitar isso totalmente. Sentiu uma enorme vontade de se alistar e ir para a guerra também. Mas já não era tão jovem assim. Ademais seus pais já estavam bem velhinhos e ele era arrimo de família, não, não podia deixá-los sozinhos agora.

A guerra chegou a Natal como uma festa, um desfile em dia de parada militar. Da varanda de casa, viu quando o navio Humboldt atracou no cais do porto. Mas não foi lá olhar os marinheiros de perto, como muitos conterrâneos. Deixou o tempo passar sentado na sua cadeira de balanço, cismando, cismando, esperando notícias.

Decidiu dar as costas ao que estava ocorrendo, não queria sentir medo. O pior já estava ocorrendo na Europa. Não se interessou muito pela presença dos americanos em Natal. Ouvia boatos sobre as pilhérias de Zé Areia, as anedotas, a mitologia popular. Que vendera urubu por papagaio, que se negara a tirar leite de árvore, que se deixara fotografar vestido de mulher na companhia de marinheiros americanos. Natal tentava se adaptar à presença dos estrangeiros.

Assim, Jonas decidiu enfrentar a desconfiança do sócio e expandir mais seus negócios. Comprou um armazém na Ribeira e transferiu parte da mercadoria para lá. O movimento ali era grande, muita gente indo e vindo, e fazendo negócios, pessoas da alta sociedade, mulheres granfinas comprando tecidos importados, mascates, prostitutas, soldados americanos a caminho do front na Europa, um grande bazar multinacional.

Com a intermediação de Fernando Andorinha, fez negócios com os intendentes da base, mas não gostava da arrogância dos oficiais americanos, com aquele eterno ar de mando, nem mesmo dos solados rasos, quase sempre arruaceiros. Pareciam soldados romanos chegando aos confins do império, impondo sua ordem aos outros, aquilo não era nada simpático. Ninguém gosta de estrangeiros querendo mandar na terra dos outros. Natal era uma prostituta de pernas e braços abertos para os invasores. Sempre foi assim e sempre será.

Andorinha perguntou de onde ele tirara dinheiro para comprar o armazém e Jonas teve dificuldades para explicar. Disse que havia feito um empréstimo no banco e estava meio apertado por isso. Soube que Andorinha estava se desfazendo de seus imóveis na Ribeira para fazer mais capital. O pior é que estava fazendo isso, como sempre, de forma irresponsável vendendo a qualquer um, sem qualquer compromisso com a preservação dos prédios. Isso iria causar um dos maiores crimes contra a memória da cidade. Quase todo o conjunto arquitetônico da velha Ribeira viria abaixo nos próximos anos para que comerciantes ignorantes construíssem seus caixotes modernosos, com fachadas falsas para imitar os americanos, merda!

Jonas mergulhou fundo no trabalho para não pensar em nada. Só não deixava de acompanhar as notícias do front pelos jornais e pelo rádio. Depois que Mara embarcou para a Europa, não teve mais notícias dela. Isso aumentou sua agonia, pois dias depois soube que o pai dela estava muito doente. Nunca gostara muito daquele homem esquisito, mas foi lá assim mesmo, saber como iam as coisas.

Era grave, uma tuberculose em estado avançado. Dias depois, o homem faleceu. Ele então cuidou de tudo e ainda ofereceu amparo à viúva. A mulher agradeceu, mas não quis aceitar nada, onde já se viu? Aceitar ajuda de estranhos? Não. Era assim que pensava o povo desse tempo.

Na semana seguinte, recebeu novo recado. Agora, a mãe de Mara também estava doente. Mais uma vez ofereceu os préstimos e acompanhou a agonia da mulher até o último instante. Ela faleceu da mesma moléstia que atacou o marido e nada se pôde fazer. O pior era não ter como avisar a filha, isso é o que estava deixando Jonas mais agoniado. Que vida aperreada! A cidade estava um inferno, lotada de estrangeiros, muita gente vinda do interior em busca de trabalho na Base Aérea.

Natal inchou da noite para o dia. Era uma capital acanhada, com jeito de cidade do interior, que se viu, de repente, com uma população acima de suas expectativas. As pessoas se comportavam de maneira estranha, umas xenófobas, querendo distância dos estrangeiros, escondendo suas filhas, com medo de uma gravidez indesejada, com medo do escândalo; outras cosmopolitas, cheias de ganância, querendo aproveitar a presença estrangeira para subir na vida.

De uma hora para outra o bairro da Ribeira se transformou em uma festa permanente, com orquestras tocando somente músicas em inglês, com o dólar sendo a principal moeda, com as ruas infestadas de boêmios, aproveitadores, escroques de todo o tipo. Vez ou outra alguém esbarrava com um astro de Hollywood e passava o resto da vida falando nisso.

Aumentou de forma alarmante o falatório, o diz-que-diz-que, a fofoca, a maledicência. Comadres se reuniam na esquina e informavam às outras que moça tinha embarcado no ônibus dos americanos para o baile na Base Aérea. Estava tudo muito confuso. De repente, o inglês passou a ser uma espécie de dialeto. Não, ele não estava gostando nada daquilo. Não gostava de ver aviões como nuvens de gafanhoto cruzando os céus da cidade no rumo da África. O que estaria acontecendo com Mara naquele momento?

Foi no meio desse torvelinho de sentimentos que Jonas teve uma crise. Estava andando a caminho do armazém, quando sentiu tudo escurecer. Deu um branco. Só acordou algumas horas depois. Estava na cama, no sítio, olhando assustado para Firmina, o que houve, comadre? Não ouviu resposta, apenas o choro baixo da mulher. Procurou mais alguém e viu um vulto saindo das sombras, era Ciço, depois outro, era Florentino. Não precisou perguntar muito que veio logo a explicação, compadre, você caiu espumando na estrada, o médico veio aqui, disse que era, era, engasgou, não sabia dizer a palavra.

O médico entrou no quarto e disse, acho que ele teve uma convulsão, parece um ataque de epilepsia, mas não sei ainda, vou mandar fazer uns exames, não sabemos como curar isso ainda, vou passar uns remédios e quero que o senhor repouse. Jonas ficou atordoado, não sabia o que dizer, nem o que pensar. Tentou dormir mais um pouco, mas sempre que tentava isso, vinha um sobressalto, um sonho estranho. Estava num campo de batalha combatendo os alemães, então encontrava Mara e ambos se escondiam em um celeiro abandonado. Ali, faziam amor e traçavam planos para quando voltassem da guerra. Tudo parecia tão real que estava provocando uma angústia profunda cada vez que acordava e dizia, meu Deus, o que vou fazer agora?

Nos dias de hoje, o médico teria dado um diagnóstico mais preciso: estresse, cansaço, estafa, pelo excesso de trabalho e preocupações. Tanto é que, na manhã seguinte, já estava disposto, pronto para trabalhar. Seguiu as orientações do médico e retomou a vida normal. Que coisa estranha! Um homem sadio como sempre fui, tendo agora que viver com essas restrições, pensou. Estava descartada a dose de cachaça antes do almoço, a farra que costumava fazer uma vez por semana, no sábado, para comemorar, não sabia bem o quê. Fazer caminhadas para locais ermos sozinho, nem pensar. Jonas estava aborrecido, comentou com Ciço, que vida é essa, compadre, que correria, que loucura, e por falar nisso, os desgraçados dos americanos transformaram minha praia de Areia Preta em praia privada, e agora era chamada de Miami Beach, onde já se viu isso, compadre?  Apesar de tudo, o comércio ia bem, estava vendendo mais algodão do que nunca, sem falar nos gêneros de primeira necessidade. A cidade estava inchando, crescendo. Gostaria de passar mais tempo no sítio, mas tinha que cuidar dos velhos.

Agora passava a maior parte do tempo lendo jornal e escutando rádio para saber notícias da guerra. Os noticiosos falavam de vários ataques dos submarinos alemães a navios brasileiros, que fizeram Getúlio Vargas se decidir de uma vez por todas a entrar na guerra. Não dava mais para esconder sua posição dúbia, a simpatia pelos alemães enquanto oferecia apoio aos americanos. A situação política local refletia os humores do Estado Novo. Rafael Fernandes Gurjão controlava o Estado com a ajuda do primo, Aldo Fernandes, que o substituía regularmente no poder.

Quando o Brasil entrou de fato na guerra, a dupla de governantes cuidava de fazer um alinhavado político que contentasse a todos, amigos e inimigos, na medida do possível. Eram tempos de guerra e o esforço conjunto era a palavra de ordem. Foi um momento de grande desenvolvimento econômico, principalmente com o aumento nas exportações de minérios. Grandes riquezas surgiram do nada. Jonas olhava no rumo do Seridó e sonhava em pegar um pouco dessa riqueza. Bastava investir um pouco no ramo da mineração, entrar em uma sociedade, arriscar um pouco. Mas famílias de latifundiários da região já tomavam conta de tudo, a mais importante delas a de Thomaz Salustino.

A exploração da schelita transformou a pacata cidade de Currais Novos em um império dentro de poucos anos. Uma riqueza que só iria entrar em decadência muitos anos depois, com a oferta exagerada do minério no mercado internacional, depois da descoberta de grandes jazidas na Ásia. No momento a grande preocupação dos natalenses era mesmo a guerra. Uma noite, Jonas estava em casa, sentado na sala com os pais ouvindo o rádio, quando tocaram várias sirenes pela cidade e tudo se apagou. Todos pensaram que Natal estava sendo alvo de um bombardeio alemão, mas não era nada disso. Era apenas o primeiro blecaute, o primeiro de uma série de treinamentos para que a população aprendesse a reagir em caso de ataque.

No dia seguinte, Jonas saiu para providenciar velas e tecidos para vedar as janelas à noite. Foi por essa época que Cascudo concluiu o livro Informação de História e Etnografia. Foi um ano de emoções intensas, o mundo em guerra e Natal despontando como um coadjuvante importante no teatro de operações. Acompanhava a tudo avidamente pelos jornais ou pelo rádio. A melhor hora do dia era quando sentava ao pé do rádio com o pai cochilando ao lado e a mãe ouvindo atentamente.

Estava marcada uma conferência em Casablanca para que o presidente Roosevelt se encontrasse com Churchill e De Gaulle. Estava prevista a passagem de Roosevelt por Natal na volta da África. Foi marcado então um encontro com o presidente Vargas. O telegrama em código dizia: “O homem partirá no dia seguinte pela manhã, com o patrão do Osvaldo, para encontrar você sabe quem”. O conteúdo do telegrama, só soube muito depois da guerra, quando os jornais tornaram pública a presença dos estadistas em Natal. Jonas guardava esses recortes de jornal com muito gosto, rindo em silêncio, achando muito engraçado. O fato é que tais novidades alvoroçavam o país. Um dia, Getúlio Vargas pegou um avião para Natal, acompanhado do adido naval americano, almirante Augustin Beauregard, almirante Jonas Ingram, embaixador Caffery, mais dois ajudantes. Essa era a comitiva.

Chegaram a Natal à noitinha e da base aérea foram para o destróier Jouett, da marinha americana. Passaram a noite a bordo. Na manhã seguinte, chegou o avião de Roosevelt na base aérea, eram umas oito horas da manhã. Foi levado em seguida para o destróier Humboldt. Lá, recebeu o embaixador Caffery, que deixou Roosevelt a par dos planos do presidente brasileiro. Vargas chegou ao Humboldt por volta do meio-dia, bem na hora do almoço. Até aí ninguém sabia o que estava acontecendo.

Só depois do almoço é que os dois decidiram visitar as instalações da Base Aérea, Base Naval e Quartel do Exército. Aí o general Cordeiro de Farias, o almirante Ari Parreiras e o brigadeiro Eduardo Gomes foram informados da presença dos dois presidentes em solo potiguar. Foi este o momento celebrizado na foto do jipe que Jonas presenciou, quando ia a caminho do mercado para conversar com alguns colegas comerciantes. Getúlio e Roosevelt passaram o dia nessa movimentação e à noite foram jantar a bordo do Humboldt. Foi dessa conversa que saiu a definição da participação do Brasil na guerra.

A Marinha Mercante brasileira vinha sofrendo baixas muito grandes. Em fevereiro, o navio Brasilóide, que ia de Maceió para Salvador, foi torpedeado por um submarino alemão. Muitos feridos, mas nenhum morto. Em março, o Afonso Pena, que ia num comboio de cinco navios, desgarrou-se e foi torpedeado no litoral da Bahia. Morreram 92 passageiros e 32 tripulantes. Em seguida, o navio Tutóia, que ia de Paranaguá para Santos, foi atingido por um torpedo alemão. Sete pessoas morreram.

Depois, o navio Pelotaslóide estava na foz do rio Pará, quando foi atingido por torpedos. Sete tripulantes morreram. Logo depois, o Bagé foi atingido no litoral de Sergipe. Morreram 20 tripulantes e oito passageiros. Um pouco depois, O Itapagé foi atacado no litoral alagoano. Morreram 18 tripulantes e nove passageiros. E a seguir, o Cisne Branco, um veleiro que transportava sal de Belém para Fernando de Noronha, foi atacado por um submarino alemão. Quatro homens morreram. Logo, o navio Campos, que ia do Rio de Janeiro para o Rio Grande do Sul, foi torpedeado no litoral de Santos. Não se sabe o número exato de mortes. O saldo final de mais de mil pessoas falecidas nesses ataques criou um sentimento de ódio muito forte contra os alemães.

Um detalhe macabro: na maioria dos casos, os submarinos não faziam qualquer esforço para resgatar as vítimas, antes metralhavam os sobreviventes. O grande problema para a navegação marítima neste período, também, era a existência de espiões, os chamados Quinta Coluna. Eles informavam as rotas dos navios mercantes aos comandantes dos submarinos. Essas pessoas eram caçadas como ratos pela polícia brasileira.

Jonas soube de mais de um caso de pessoas que eram presas, acusadas de espionagem, torturadas e desaparecidas para sempre. Natal vivia uma época de terror. Japoneses, italianos e alemães eram tratados com desconfiança. As noites escuras eram atravessadas com angústia, o medo de um bombardeio. Ainda havia o antipático toque de recolher. Um dia, a multidão enfurecida atirou pedras contra a confeitaria do senhor Fulco, um italiano simpático que nunca fizera mal a ninguém. Aliás, o país inteiro passava por um momento assim.

As pessoas chegavam ao cúmulo de cavar abrigos antiaéreos em jardins, praças e até em seus próprios quintais. Foi neste mesmo ano em que ficou decidido o envio de tropas brasileiras para o teatro de guerra na Europa. Estava sendo criada a Força Expedicionária Brasileira. Partiu de Natal uma comitiva de oficiais do Exército e da Força Aérea, sob o comando do general Mascarenhas de Morais, rumo a Dacar, na África do Norte, para se encontrar com o Comando Geral Aliado. Depois foram enviados para os Estados Unidos os melhores aviadores brasileiros para serem treinados e incorporados ao combate na Europa. Não demorou e os aviadores brasileiros já sobrevoavam os céus da Itália combatendo aviões alemães. Da mesma forma, as tropas do exército brasileiro, inicialmente planejadas para atuar no Norte da África, estavam sendo deslocadas para o Mediterrâneo.

Foi neste período que a escritora Clarice Lispector esteve em Natal, a caminho de Casablanca, onde ia encontrar o marido diplomata. Imagine a escritora sentada na varanda de seu quarto, no Grande Hotel, da Ribeira, fumando e olhando para o casario ao redor. Era noite e um vento forte varria as árvores e os telhados do velho bairro. Um vento forte não a deixava dormir, tão forte que dava nos nervos. “Pois o quarto do hotel estava cheio do canto coral do silêncio que se evidenciava. E eu abençoada desse jeito. Mas não quero nunca mais”, escreveria ela mais tarde. Anos depois foi publicada uma carta em que ela revela ter detestado Natal, cidadezinha horrorosa, hotelzinho horrendo. Nós amamos tanto os textos de Clarice que até perdoamos suas palavras deselegantes endereçadas a Natal.

Na época em que Clarice passou por Natal, o que mais ocupava a todos era o grande temor da guerra, era ver os filhos de pessoas conhecidas que se alistavam para combater na Europa. A partida desses jovens era algo de grande tristeza para uns e júbilo para outros.

Muita gente ainda acreditava na glória conquistada em campos de batalha. Não paravam para pensar nos corpos despedaçados, nos homens que iriam voltar paralíticos, enlouquecidos, inválidos para sempre. Jonas sabia disso, porém, o que mais doía era a falta de notícias de Mara. Por isso acompanhava com avidez o desenrolar dos combates. Passava o dia ao lado do rádio, folheando jornais e procurando alguma pista que levasse ao seu paradeiro. Procurou até mesmo melhores informações no escritório da Cruz Vermelha, que havia sido inaugurado em Natal, mas ninguém sabia informar muita coisa. Soube apenas que ela se incorporara ao grupo de enfermeiras da FEB que atuaria junto às tropas brasileiras na Itália.

Em julho, soube que cinco enfermeiras e um médico seriam embarcados em Natal rumo à África do Norte para se juntar ao grupo. Às pressas, ele alugou um jipe foi para a Base Aérea tentar um contato com esse pessoal. Queria que alguém levasse uma carta para Mara. Chegando à Base avistou de longe o grupo e achou curioso o uniforme que as mulheres usavam: um macacão verde-oliva de mangas curtas, uma camisa de mangas compridas da mesma cor por dentro, gravata, quepe, bornal e cantil. Conversou com uma delas e entregou a carta. Tinha esperanças que Mara fosse localizada. Enquanto não vinham notícias, mergulhou inteiramente no trabalho para não alimentar o monstro do medo.

A chegada de um contingente de mais de dez mil soldados americanos inchou ainda mais a população da cidade. Isso forçou uma alta dos preços. Havia uma urgência por produtos como hortaliças, legumes, frutas e aves. Na lagoa de Manoel Felipe foi criado o aviário Apolônio Sales para a produção de frangos, que em Natal ganhou o curioso nome de “galetos”. Os americanos também construíram sua própria granja. Compraram a Fazenda Milharada, em São Gonçalo do Amarante, e o nome da fazenda passou a ser Nelson Rockfeller. Que grande e cruel ironia…

Vendo esses progressos, Jonas resolveu investir pesado no sítio em Macaíba. Há dois anos, já podia contar com o conforto da estrada de Parnamirim (construída no tempo recorde de três meses pelos militares americanos) para transportar os produtos até a base. Só não gostava do nome da estrada: Parnamirim Road, onde já se viu? Preferia denominá-la “a pista”, assim como a maioria dos natalenses. Muitos comerciantes dessa época compraram jipes e caminhões para desfrutar dessa novidade, mas ele preferiu o velho sistema de aluguel. Saía mais barato, dizia sempre, quando perguntavam por que não comprara ainda um automóvel.

O Estado era governado pelo general Antônio Fernandes Dantas, pouca gente se lembra dele. Natal transformou-se em uma cidade completamente militarizada. Tinha-se a impressão de estar numa cidade americana. As ruas eram policiadas por militares americanos, principalmente em locais de lazer. Eram pronunciadas palavras do inglês com a mesma facilidade com que se tropeçava nos erros de português.

Os natalenses tinham até aulas de inglês pela Rádio Educadora de Natal. Revistas americanas como Time, Life, Newsweek e Look circulavam normalmente nas bancas, como se Natal fosse uma cidade americana. Comentando com o compadre, Jonas dizia não estar gostando nada disso e, talvez por isso, tenha perdido a oportunidade de aprender outro idioma. Havia até um jornal em inglês, o Foreign Ferry News, que queria dizer mais ou menos algo assim como Transportador Estrangeiro de Notícias.

Houve uma mudança sensível nos hábitos da maioria da população. Comia-se muito tomate agora, batatas fritas, sanduíches, hambúrgueres com refrigerantes, sorvetes e milk-shakes. Jogava-se vôlei e basquete ao invés do velho e bom futebol. Bailes eram realizados quase todos os dias na cidade em que se dançava rumba, congo, boleros e principalmente swing, blues, jazz e fox trot. Passou-se a usar roupas informais (com as camisas por fora das calças, imagine!) para quase todas as ocasiões. Homens vestidos de terno de linho branco, como ele, iam ficando raros. A população pulou dos tímidos 55 mil, para inimagináveis 85 mil pessoas. Não era só pela presença americana, mas principalmente pela imigração do interior para a capital.

Mesmo assim, Jonas manteve os velhos hábitos de sempre. No início da noite, gostava de ir ao cinema, principalmente para ver os noticiários da guerra, mas apreciava também os musicais de Hollywood. Fred Astaire, Ginger Rogers, Cid Charisse. Amava os filmes de Esther Williams na piscina e as louras platinadas Marylin Monroe e Jane Mansfield. As tardes eram reservadas para um cafezinho no Grande Ponto, enquanto ouvia as últimas notícias da fronte e as piadas mais recentes de Zé Areia. Certa tarde, ele decidiu mudar de programação e caminhar até a Ribeira, para tomar algo gelado no restaurante do Grande Hotel.

Ficou por ali até o anoitecer e viu, decepcionado, o ator Humphrey Bogart, que em nada lembrava o enigmático Rick, de Casablanca. Viu que ele era baixinho, usava peruca e abusava bastante do uísque. No piano, o jovem Carlos Lyra tocava As Time Goes By. Depois foi até o cassino de Alberto Bianchi para assistir a um show de vedetes com a participação de Grande Otelo. Contentou-se com aquilo. Não gostava de frequentar o Wonder Bar. Estava sempre muito cheio de gente, dos boêmios mais conhecidos da cidade. Jonas era discreto, gostava de ambientes mais reservados.

Saiu andando pela Ribeira até chegar à estação de trens e ficou observando o movimento. O dia já começava a raiar, precisava voltar para casa. Assim o tempo foi passando em Natal e a guerra, que deveria ter sido uma grande tragédia para todos, não passou de uma festa interminável. Mas tudo que começa precisa ter um fim.

Foi no início de maio de 1945 que Jonas leu a notícia de que a guerra havia acabado na Europa. Mas o confronto ainda se arrastaria até o dia 6 de agosto, quando duas bombas atômicas foram jogadas sobre Hiroshima e Nagasaki, no Japão. Só então as pessoas começaram a se dar conta do horror. Parece que ficou aquele travo amargo na boca. A certeza de que nada mais seria a mesma coisa depois disso.

A figura terrível de Hitler e sua gentalha, os campos de concentração, o extermínio em massa, a burocratização do mal.

Depois de Hitler e dos campos de concentração, ninguém mais cantará uma canção, pintará um quadro, escreverá um livro ou fará um verso da mesma forma que antes. O mundo conhecerá seu avesso. Pensando mais tarde em Hitler, muita gente perceberá que é algo bastante comum no cotidiano de todos. Hitler é aquele sujeito que você encontra por trás de qualquer guichê de repartição pública, franzino, olhar penetrante, sempre cioso das regras, executando pequenas normas como um autômato. A figura universal do medíocre, deleitando-se com qualquer possibilidade de mando, qualquer chance de criar obstáculos para os mais fracos ou qualquer pessoa que dependa de sua boa vontade. O tipo de indivíduo incapaz de criar qualquer coisa a não ser a destruição dos sonhos, da esperança dos semelhantes. Jonas iria encontrar uma multidão desses seres abjetos em sua caminhada pela vida afora. Kafka já previra tudo isso. Hannah Arendt pensará sobre a origem do mal.

14

Os dias iam passando e Jonas passou a viver horas de agonia, sempre querendo saber a lista de nomes dos sobreviventes que desembarcariam em Natal, datas, horários, fichas, estava desesperado. Porém, teve que esperar até setembro o desembarque no Brasil dos vários escalões da FEB, para poder finalmente ver uma mulher abatida descer do avião e acenar timidamente em sua direção. Mara chegava magra e linda. Fizeram a viagem de 20 minutos, da base até a Cidade Alta, abraçados em silêncio. Algo, porém, de muito terrível acontecera. Ele havia mandado limpar e reformar a casa vazia dos pais de Mara e foi para lá que a levou. Ela o olhou ternamente e beijou-lhe os lábios.

Desta vez não sentiu a carícia molhada de antigamente quando suas bocas se tocavam. Foi um toque seco e áspero. Mas não disse nada. Deixou que ela fosse tomando pé das coisas, se acostumando com a nova situação e principalmente esquecesse a guerra. Então saiu e Mara ficou sozinha olhando com tristeza as paredes da casa. Uma lembrança doce da infância foi percorrendo seu corpo e ela sentou na poltrona, olhando os móveis ao redor. Só então desatou num choro profundo, que abalou o oco da sala e parecia querer preencher o resto do mundo. Não havia ninguém para ver e ela deixou o rio desaguar. Em seguida, percorreu todos os cômodos da casa e, quando o olhar já estava acostumado a tudo, despiu-se da farda e guardou-a no armário de onde nunca mais saiu. Abriu a torneira do chuveiro e banhou-se longamente naquela água que trouxe todos os odores familiares de sua vida.

Ele, todavia, chegara em casa cansado, como se tivesse carregado um pesado fardo até ali. Cumprimentou os pais e sentou na varanda olhando o rio. Sentia um enorme vazio tomando conta de si, um abismo que se abria diante dos olhos e causava uma vertigem na mente. Ela voltara, sim. Mas não parecia ser a sua Mara. Aquela mulher que amava tão profundamente e que parecia ser uma parte, um membro de seu próprio corpo, agora parecia outra.

Os americanos foram embora deixando a cidade em forma de ruína. As pessoas pareciam estar tomadas pelo mesmo sentimento de terra devastada. Como um vácuo deixado pela ausência do estrangeiro nas ruas. Pelo menos iniciaram a construção da Avenida Circular, na praia do Meio. Natal voltava, de uma hora para a outra, a ser a cidadezinha acanhada que sempre fora. Era essa sua vocação, voltar a ser ruína? Pobre Natal, uma cidade que deseja ser bela, mas que sempre acaba perdendo tudo pelo sonho de ser sempre moderna.

Seguindo a onda do momento, Fernando Andorinha estava patrocinando a mais extensa destruição de prédios históricos na Ribeira e desmatamento de áreas imensas ao redor da cidade. Nesse afã de destruição comprou uma propriedade ao lado do sítio de Jonas e destruiu toda a vegetação à margem do Potengi para construir ali um curtume. Os dejetos despejados ali a partir deste momento iriam legar ao futuro um rio morto pelas sucessivas agressões levadas a efeito por outros proprietários de terrenos próximos.

Um dia Jonas foi ver o tamanho da destruição e encontrou Andorinha dentro de suas terras. Estava sozinho, estranhamente sozinho para quem gostava de andar com capangas e trazia uma pá em uma das mãos. Iniciou-se então um estranho diálogo entre os dois. Já soube o que aconteceu com seu amigo, o professor Guiné? Não. Está internado em um hospício depois de levar uma surra de desconhecidos. Foi, é? Foi e dizem que ele não parava de falar num tesouro escondido aqui em Macaíba. Você sabe alguma coisa sobre este tesouro, Jonas? Não. Fernando Andorinha ficou olhando-o firme e ele sustentou o olhar com frieza. Aí foi a sua vez de perguntar, o que você faz em minhas terras com uma pá? Vim pegar umas macaxeiras, posso? Pode. Pode ser que eu encontre algo melhor que isso. Faça bom proveito.

Sem dúvida as coisas estavam azedando entre os dois. Jonas temia este súbito interesse de Andorinha pelo tesouro. Iria procurar Juca Guiné para ver como ele estava. Muita coisa começava a feder por ali e ele teria que tomar algumas providências. Viajou à tarde para Natal e foi até o hospital psiquiátrico. Juca Guiné estava velho demais e esquálido sobre a maca. Todos os sinais de lucidez há muito haviam desaparecido daquela pobre alma. Ele ficou olhando o velho professor naquele estado e depois foi conversar com o médico. Pediu para que tivessem um cuidado especial com aquele paciente. Depois passou pelo mercado para conversar com alguns conhecidos, queria saber o que de fato acontecera com o professor.

Soube que ele andava pelas ruas vestido em andrajos. Vivia com dificuldades pedindo esmolas a um e outro, dera para beber e perdera tudo, os livros, a casa e dormia na rua. Na semana anterior uns homens o pegaram dormindo num beco do centro da cidade e lhe dera uma surra grande, o coitado não fazia mal a ninguém, só ficava importunando a todos com a história de um tesouro perdido. Era motivo de galhofas pelas ruas. Depois de pagar uns tragos para um cabeceiro que soltava a língua quando bêbado, Jonas ficou sabendo que os homens eram capangas de Andorinha. Uma raiva tão grande foi subindo de dentro que ele, normalmente cuidadoso, soltara uma praga que ficara como uma ameaça no ar. Aquele filho da puta!

Nos próximos dias ficou tomado pelo ódio e aquele mal estar só cedeu um pouco quando recebeu um telegrama de Mara. Ela estava voltando, chegaria no próximo voo. Esta foi uma notícia boa naqueles dias difíceis. Comprou um terno novo, sabonete, perfume e foi ao barbeiro para ficar bem bonito na chegada de sua amada. Saiu cedo para a Base Aérea e ficou na plataforma esperando ansioso ouvir o ronco do avião que chegou com atraso.

Ele viu logo o vulto de Mara chegando, braços cruzados, como se sentisse frio ou uma dor aguda no peito, e sentiu que algo de muito ruim acontecera. Ela abriu os braços daquele modo tão peculiar, como uma pessoa que pedisse socorro, um modo tão seu de pedir um abraço. E assim ficaram abraçados por um bom tempo. Um soluço feminino batendo contra seu peito como se nada mais importasse. Saíram abraçados até o carro e não trocaram nenhuma palavra durante o percurso.

Ao chegar em casa não esperou muito para perguntar, o que há, Mara? Não houve resposta. Só um gesto chamando-o para caminharem um pouco até a Igreja do Rosário e sentarem no mesmo lugar onde um dia se conheceram. Ela disse que tinha algo para contar e foi desfiando aquela história terrível com mansidão, sem nem um sinal de raiva, ódio ou rancor.

Era uma madrugada fria, de primavera, as tropas aliadas já tinham conquistado Monte Castelo e o objetivo agora seria Montese… Estava deitada em minha barraca no meu turno de descanso, quando entraram os homens… Eram uns cinco soldados americanos e estavam bêbados… Não consigo esquecer o cheiro forte de uísque e tabaco… Eles amarraram minha boca com um trapo, um deles prendeu meus braços e outros prenderam as pernas… Rasgaram minhas roupas com baionetas e… Um a um, metodicamente, até que desmaiei… Acordei no hospital de campanha, o médico que me atendeu disse que o capitão americano iria pedir Corte Marcial para os agressores… Mas eles haviam partido naquela mesma noite… E o pelotão foi dizimado por uma patrulha alemã… Quando ela terminou de contar essa história, os olhos verdes fitavam o rosto de Jonas que tremia cabisbaixo entre o ódio e a dor de se saber impotente para mudar o inevitável. Mara tinha algo mais a contar. No dia em que embarquei de volta, uma comissão médica me informou que eu estava grávida… E que eu poderia abortar, se quisesse… Ele levantou o rosto sem lágrimas e enfrentou o olhar frio de Mara, como à procura da resposta. E ela disse, não aceitei o aborto. Decidi ter o filho. Quero saber agora qual será sua decisão. Ele respondeu, agora não posso, amanhã, talvez. Só então percebeu o ventre inchado de Mara. Voltou para casa evitando as ruas mais movimentadas.

Aquela noite foi passada em claro, ruminando, pensando no que iria fazer, e na manhã seguinte partiu para o sítio em Macaíba. Transido de ódio, pediu a Florentino que selasse seu melhor cavalo e saiu galopando pelas estradas da região. Isso lhe dava tempo para pensar e aclarava um pouco as ideias. Meus amigos, talvez alguns de vocês não possam imaginar o que passa na cabeça de um homem em momentos como esse. Encontro alguma explicação nas palavras de Dostoievski: “Minha raiva é submetida a uma espécie de decomposição química, em virtude justamente dessas mesmas malditas leis da consciência. Mal distingui o objeto do meu ódio, ei-lo que se desvanece, os motivos se dissipam, o responsável desapareceu, o insulto não é mais insulto, mas um golpe do destino, alguma coisa como uma dor de dentes, de que ninguém é culpado”.

No final da tarde voltou e decidiu ir até o local do tesouro com um burro e material para escavar. Na trilha que termina nos montículos onde estão enterradas as caixas, ele percebeu rastros de animais. Chegando lá viu um sujeito sozinho escavando um dos buracos. Era Andorinha, que parou quando ouviu os passos de Jonas. Pode continuar, Fernando. Você vai gostar do que tem aí. O sorriso no rosto do outro era de um louco prestes a realizar um grande sonho ele só parou de cavar quando a pá tocou em algo sólido. Ele olhou para Jonas sorrindo e abriu o baú. O brilho das moedas de ouro lançava reflexos em seu rosto. Andorinha enfiava as mãos naquele monte de moedas e ria, ria, ria e nem sentiu impacto da pá na sua cabeça. O sangue espirrou sobre as moedas e Jonas ficou ali observando o corpo inerte do homem como se o tempo tivesse parado para sempre. Então ele retirou o baú, transferiu as moedas para sacos que colocou no caçuá e empurrou o corpo de volta no buraco dentro do baú agora vazio. Fernando Andorinha foi enterrado na posição fetal, como uma criança de volta ao ventre da mãe terra.

Voltando para a casa do sítio desta vez, não conseguiu que fosse visto por Florentino, que o esperava no alpendre preocupado. O que houve, seu Jonas? Nada não, tive que matar uma raposa que cruzou meu caminho. Ela estava babando, como se estivesse com raiva. Isso é perigoso, sabe? Quando elas estão assim costumam morder as pessoas. Florentino aquiesceu, é verdade, não se pode descuidar com esses bichos. Quer ajuda com o caçuá? Não, pode deixar, eu mesmo resolvo isso. E deram por encerrada a conversa. Se chegou a despertar alguma suspeita, jamais saberá, pois Florentino era daqueles homens que falavam pouco e sabiam muito.

No dia seguinte levou os sacos para Natal e mandou um telegrama para seu contato em Recife informando em código que tinha novo carregamento de moedas de ouro. Ainda restavam cinco baús que foram desenterrados nos dias seguintes até o último. No local mandou fazer uma plantação fechada de algarobas e nunca mais pôs os pés ali.

Depois de executada a tarefa foi para casa, tomou um banho e ficou esperando Mara chegar. Ela chegou à tarde e trazia um semblante mais tranquilo. O que você decidiu, ela perguntou de chofre. Ele respondeu contendo a raiva, olhe, você vai ter a criança, nós vamos nos casar para evitar comentários, mas vamos morar separados. É assim que vai ser? É assim que vai ser. Ela olhou espantada para aquele homem que agora conhecia melhor. Ainda pensou em dizer não e sair dali com alguma dignidade. Mas sabia das consequências de um ato assim. Cairia em desgraça, não ia mais conseguir emprego em lugar nenhum. Mãe solteira, mulher da rua, rapariga. Não, melhor aceitar essas condições.

A maior preocupação de Jonas agora era o cuidado com o pai e a mãe, que já estavam bem velhos e adoentados. Contavam com o apoio de uma enfermeira, contratada por ele, mas isso não era o bastante. Mara insistiu para tomar a frente desses cuidados, mas ele não queria conviver com sua presença. Secretamente temia os comentários maldosos. Um cuidado inútil, pois muitos viam a movimentação de Mara na cidade e a barriga já começava a aparecer. Não diziam diretamente, mas um homem que aceitava uma mulher voltar grávida para casa, não era muito bem visto por todos. Percebia o olhar jocoso por trás das palavras falsamente respeitosas que lhe dirigiam. Fingia não dar atenção. Por dentro estava nascendo um rancor tão refinado, que poucos iriam perceber o quanto iria odiar as pessoas da sua cidade nos anos vindouros.

No final do ano, nasceu Vera, uma linda menina de olhos verdes e cabelos louros, igual à mãe. Essa foi uma emoção que Jonas jamais imaginara poder sentir. Passara o dia no armazém, cuidando dos negócios e só lá pelo final da tarde é que chegou um mensageiro avisando, dona Mara teve neném.

Ela estava sentada na varanda de casa quando a bolsa estourou. Então mandou um mensageiro chamar a parteira e iniciou os preparativos para o parto. Quando a parteira chegou, ela já estava com tudo pronto. Estava calma e teve o bebê sem soltar um gemido sequer. A noite já ia alta quando ouviu o choro. Lá estava uma linda menina nos braços da mãe exausta. A parteira ficou ali um longo tempo admirando a coragem daquela mulher, enquanto Mara amamentava a filha.

A sensação de ser pai de uma filha alheia não o alterava em nada. A chegada de Vera foi como um incômodo qualquer em sua vida. Dava de ombros, que seja assim se tem que ser assim. Agora os passos de Mara na cidade, a caminho do armarinho para comprar roupinhas do enxoval ou para marcar o batizado na Igreja Matriz, eram seguidos por olhares maldosos, por dedos apontados, olha lá vai a puta, mãe solteira, amancebada. Aliás, o batizado foi motivo do primeiro grande aborrecimento da mãe. O padre não aceitou batizar uma criança filha de mãe solteira sem um pai legítimo de jeito nenhum.

Então Jonas decidiu casar e registrar a menina como filha legítima e não quis mais o batizado em Natal. Realizou a cerimônia religiosa em Macaíba, mesmo com o receio de levar os velhos pais naquela viagem cansativa. Assim foi feito. Isso amenizou o escândalo na cidade.

Certa noite, ele estava deitado em casa e o sono teimava em não chegar, quando ouviu uma espécie de ronco profundo. Correu para o quarto ao lado a tempo de ver sua mãe debruçada sobre o corpo do pai, que já começava a dar o último suspiro, a boca escancarada e os olhos mortos fixos no teto. Foram dias difíceis, pois teve que cuidar do funeral, enquanto dava conta de uma nova preocupação. A polícia chegou durante o velório perguntando pelo sócio Fernando Andorinha, que desaparecera misteriosamente. Disseram que ele foi visto num bar da Ribeira discutindo com um homem por causa da venda de uma propriedade em Macaíba. Ele disse que, de fato, Andorinha comprara uma propriedade do lado da sua, mas que nunca mais o tinha avistado. O delegado agradeceu as informações e saiu. Qualquer coisa, faça o favor de nos informar. Sem dúvida, disse ele, mas suas pernas tremiam.

Para completar sua angústia, a mãe piorou o estado de saúde e entrou num torpor provocado, talvez, pela dor da saudade. Enterrou o pai no Cemitério do Alecrim e se despediu do grande amigo com grande pesar, mas sem lágrimas. Aceitou o palpite inevitável da natureza que vai ceifando os mais velhos para preparar uma nova colheita. Ao mesmo tempo, sofria ao ver a mãe neste estado de dar dó. Uma pessoa que tinha levado uma vida tão simples, de dedicação à família, e agora parada ali, feito uma planta. Era de cortar coração.

Apesar de tudo, continuava tocando o barco de sua vida, cuidando dos negócios, lendo os jornais, escutando rádio. O fim da guerra coincidiu com o fim do Estado Novo, as pessoas não queriam mais nem ouvir falar em ditadores, depois de Hitler e Mussolini. Soprou um vento falso de liberdade no mundo. Com a vitória dos aliados, ficou difícil manter a ditadura Vargas. Foram marcadas eleições para a Presidência da República e para o Congresso Constituinte, e logo depois para governadores e deputados. No Rio Grande do Norte, a elite política tratou de se adaptar aos novos tempos para não perder seus privilégios.

Os políticos que vinham monopolizando o sistema de interventorias no Estado formaram o PSD, com destaque para Georgino Avelino, João Câmara, Theodorico Bezerra, Tomás Salustino (que saíra rico da guerra com a exploração de minério) e Dioclécio Duarte. Os opositores juntaram-se à UDN e seus líderes eram José Augusto de Medeiros, Juvenal Larmartine e Dinarte Mariz. Por fora, corria o dissidente João Café Filho, um populista filiado ao PSP, do paulista Adhemar de Barros. Havia ainda um partido autodenominado defensor dos trabalhadores, o PTB, que era estranhamente dirigido no Estado pelo industrial Clóvis Mota.

Depois da deposição de Getúlio Vargas, foi nomeado interventor o desembargador Miguel Seabra Fagundes para dirigir os destinos dos potiguares. Passou três meses e foi substituído pelo usineiro Ubaldo Bezerra de Melo. Foi esse homem que iniciou a construção do atual prédio do Atheneu, que abrigaria as novas gerações de estudantes potiguares. Aí foi a vez do último interventor, o general Oreste da Rocha Lima. Seu maior feito foi ter fundado a Faculdade de Farmácia e Odontologia. Aí vieram as eleições. O médico José Augusto Varela concorria pelo PSD e o desembargador Floriano Cavalcanti de Albuquerque (irmão do ex-senador Kerginaldo Cavalcanti) representava uma coligação do PSP com a UDN.

Foi uma eleição difícil, com acusações de fraude e coação de eleitores. Somente seis meses depois é que José Varela tomou posse, após uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral. Em sua gestão foram criadas as Escolas Normais de Mossoró e Natal, Faculdade de Direito, Museu e Arquivo Público. Enquanto isso, Jonas adaptava os negócios aos novos tempos. Levava uma vida sossegada, de pai dedicado e amante apaixonado. Um prêmio que a idade adulta lhe reservara. Apesar do relativo sucesso no comércio, não seguia os costumes dos colegas. Detestava aquela mania dos mais abastados de comprarem modernos carrões como os studbakers, lincolns, hudsons e chryslers. Circulavam pela cidade ostentando uma riqueza súbita que o irritava sempre. Definitivamente, estava se sentindo um homem do século passado. Que gente vaidosa, meu Deus!

Foi por essa época que ele presenciou um grande feito em nossa história marítima.  Um grupo de amigos conversou na praia da Redinha, num já longínquo dia de 1936, olhando os raios de sol sobre o encontro das águas do Rio Potengi com o Oceano Atlântico quando alguém de repente soltou a ideia: Por que não fazer uma viagem de remo de Natal ao Rio de Janeiro? Natal contava então com alguns dos melhores e mais valentes remadores do Brasil. O sonho passou a ocupar a mente daqueles homens até esbarrar na burocracia do Ministério da Marinha. Mas depois de alguns anos o sonho voltou a crescer e no dia 30 de março de 1952 um grupo de quatro remadores chefiados por Ricardo da Cruz colocou a iole Rio Grande do Norte nas águas e seguiu rumo ao Rio de Janeiro. Essa história pode ser encontrada em detalhes no livro Heróis do Remo, História do Raid Natal-Rio de Janeiro, de João Alfredo.

Mas vamos em frente que atrás vem gente.

Mara estava ficando estranha a cada dia, mais arredia, silenciosa. Aos poucos ele foi notando o quanto a guerra a havia afetado. De vez em quando ela caía numa depressão terrível, passava vários dias sem querer sair do quarto. E passou a beber com regularidade. Eram raras as vezes em que não estava com uma taça de martini em uma das mãos e um livro na outra. No início ficou preocupado, depois viu que não podia fazer muita coisa. Ela vira e passara por coisas que muita gente não suportaria ter vivido. Agora era uma mulher aposentada pela Lei de Guerra.

O que a animava ainda era o cuidado com a filha. Normalmente, gostava de ficar sentada na cadeira de balanço, no jardim que mandara plantar no quintal, ouvindo as cantoras do rádio e as notícias do dia. O jardim, uma criação puramente pessoal, feito em sua maioria por plantas tropicais, mas com uma mistura pouco vista pelas donas de casa locais: malva, alecrim, manjericão, capim-santo, mastruz, macela, bálsamo e arruda para afastar o mau-olhado; mas também roseiras, xananas, marias-sem-vergonha, comigo-ninguém-pode, jasmim, buganvília, camélia, magnólia, rodendro, peônia, jacinto, tulipa, junquilho, narciso, amarílis, dália e lírios, muitos lírios, suas flores preferidas. Ficava sentada ali na espreguiçadeira, sempre com um martini e um balde de gelo, ouvindo as modinhas no rádio. Sempre que podia levava a filha para passear, para ver cinema, teatro, exposições, se distrair um pouco.

Um dia, ela viu uma exposição muito bonita, organizada pelo artista plástico Newton Navarro. Era o I Salão de Arte Moderna (acontecendo em Natal com atraso para variar). A exposição foi montada na antiga Sorveteria Cruzeiro, em um prédio que ficava no centro da cidade. Newton Navarro foi, por muito tempo, o maior nome nas artes plásticas potiguares, o mais talentoso, o mais renomado artista, inclusive, o único a ser reconhecido no resto do Brasil e até no estrangeiro. Sua inteligência inquieta, que o fazia fragmentar seu talento em outras formas de arte, como a literatura, por exemplo, e sua boemia incurável fizeram com que acabasse restrito aos limites da cidade. Mais uma vez, a maldição de nossa incomunicabilidade foi mais forte. Suas telas e seus desenhos, no entanto, permanecerão e ele vai dar nome a uma ponte unindo Santos Reis à Redinha.

Natal vivia uma época de renascimento. Era o seu despertar do sonho americano e aos poucos iam surgindo muitas opções de lazer e cultura para as pessoas. Agora, já era comum ir à praia; todos os natalenses adquiriram este hábito, a ponto de inventarem o costume de ter duas residências: uma para o verão e outra para o resto do ano. Quem não tinha uma casa de praia, não era da elite.

Jonas, porém, mais uma vez, não acompanhou os costumes da província. Foi mais ou menos por essa época que sua mãe começou a ficar mais doente. Já não tinha tempo para prestar atenção ao trabalho e ao mesmo tempo tomar conta dela. Passava o dia correndo de lá para cá em busca de médicos, remédios, fazendo de tudo para mantê-la viva a qualquer custo. Dias duros para um homem que ia vendo a mãe se consumir aos poucos.

Até que um dia ele acordou e ficou deitado na cama esperando os ruídos costumeiros de sua mãe arrastando os pés pela casa. Mesmo doente, ela fazia questão de acompanhar o serviço da empregada na cozinha no preparo do café da manhã do filho. As horas foram passando e ele não escutou nada. Achou estranho e foi até o quarto da mãe. Ela parecia dormir profundamente com um livro pendendo da mão. Encostou o ouvido em sua boca e sentiu que não havia mais respiração. Jonas olhou demoradamente para aquele rosto sereno e deixou que um rio silencioso transbordasse de seu peito.

Ficou ao lado da mãe até bem tarde, quando a empregada percebeu que algo estranho ocorrera e foi até o quarto, encontrando o filho chorando ao lado da mãe. Para Jonas, foi a dor mais impossível de ser descrita. Ele se trancou no quarto sozinho e não quis falar com ninguém por vários dias. Mara foi avisada do acontecido e cuidou para que ninguém se aproximasse. Só então ela saiu do torpor em que se encontrava e cuidou sozinha dos preparativos para o enterro. Depois da missa levaram o corpo miúdo da mulher (ela que fora outrora tão forte) para o Cemitério do Alecrim, onde repousa ao lado do amado esposo.

Ele ficou vários dias assim, sem conseguir comer, beber ou dormir direito. Um vazio engolia toda a sua existência, nada mais fazia sentido. O mundo, as pessoas, as coisas, tudo parecia tão estranho.  A partir de então, todos os dias, Mara passava em sua casa e ficavam conversando na mesa da cozinha, compartilhando uma xícara de chá, de café, de leite como dois estranhos que se conheceram naquele instante.

Quando ela levava a menina, percebia que um lampejo de vida atravessava os olhos daquele homem tão taciturno. Então era isso, ele precisava era de uma boa dose de vida. Com o tempo, foi aceitando melhor essa ausência e só depois de meses é que permitiu a alguém arrumar o quarto da mãe e guardar suas coisas. Agora estava se sentindo cada vez mais uma pessoa sozinha.

Para piorar as coisas soube que o professor Juca Guiné falecera no hospício. Em sinal de gratidão àquele homem que lhe dera tanto, mandou fazer um enterro digno de uma pessoa importante. Mas no dia do funeral só estavam presentes Jonas, Mara e Ciço. A cidade inteira ignorara aquele grande homem, o educador de respeito que fora Juca Guiné.

Os dias passavam e Jonas agora sentia o peso de estar se aproximando da meia idade. Se alguém fosse idiota o suficiente para lhe perguntar se era feliz, não saberia responder, talvez dissesse que sim para afastar o importuno, mas também não se sentia completamente infeliz. Afinal, o que é mesmo essa tal felicidade que as pessoas procuram tanto? Ser rico, amar alguém de grande beleza física e intelectual, ser amado e admirado por todos? E se isso não for suficiente? Jonas afastava tais pensamentos. Nem ao menos gostava dessa história de ficar filosofando sobre o que era a felicidade, a vida e a morte. Ia tocando a vida e pronto. Ninguém é dono do destino para determinar o que quer ser.

Um dia, quando precisou resolver uma questão na compra de um imóvel no centro da cidade, conheceu um advogado que mantinha um estreito contato com Câmara Cascudo. Era ele que trazia as novidades que vou lhes contar daqui em diante. Desde a juventude que Cascudo vinha pensando na construção de um dicionário do Folclore Brasileiro e trabalhava incessantemente na História da Alimentação no Brasil. Foram anos fecundos, de apuração e depuração que resultariam na sua consagração em universidades do mundo todo: Sociedade Brasileira do Folclore, Geografia dos Mitos Brasileiros, Consultando São João, Antologia do Folclore Brasileiro, Os Melhores Contos Populares de Portugal, Contos Tradicionais do Brasil. Em seguida apresentaria ao público a Geografia do Brasil Holandês. Nos prósperos anos do pós-guerra, Cascudo publicaria ainda a História da Cidade do Natal, um livro que Jonas guardava com um carinho todo especial.

Era assim que ele mantinha essa ambiguidade: uma relação de amor e ódio a Natal. Parecia odiar algumas pessoas dessa cidade (principalmente a boçalidade dos ricos), na mesma proporção em que amava o espaço físico. Mandara construir um quarto grande no quintal da casa, todo guarnecido com estantes de imbuia, e lá guardava tudo que fosse impresso no Estado, principalmente os livros que versassem sobre Natal. Assim, ia guardando no quintal, livre das traças, um verdadeiro tesouro.

Agora ganhara um novo hábito: Comprara também um toca-discos para ouvir música popular, principalmente as modinhas e serestas produzidas por artistas potiguares. No entanto, se havia algo que o deixava todo arrepiado, com os olhos marejados de emoção, era ouvir qualquer cantiga do folclore nordestino: coco, maracatu, xote, baião e suas variantes. As leituras eram bem peculiares. Dos poetas locais, gostava de ler Auta de Sousa, Jorge Fernandes e a poesia decadentista de Henrique Castriciano, mas esperava sempre algo mais que o poeta, irmão de Auta, não podia lhe dar. Henrique decidira abandonar a poesia para se dedicar integralmente à educação feminina e isso deixou muitos de seus leitores decepcionados.

Apesar de centenas de anos de existência, Natal ficou congelada no tempo por mais de quatro séculos. Depois da expulsão dos holandeses, a cidade só sentiu um leve estremecimento com a chegada dos americanos. Depois voltou à letargia habitual. A passagem do tempo não a incomoda. Ah, pobre e linda cidade! Jonas Camarão saudou a chegada dos novos tempos.

No rádio, ouvia as novidades. O novo governador vinha agora de Mossoró. Era Dix-Sept Rosado, um jovem e talentoso comerciante que começa a solidificar uma dinastia de políticos oestanos. O vice-governador era um ex-prefeito de Natal, um rapaz chamado Sylvio Pedroza, grande amigo de Câmara Cascudo.

Dix-Sept assumiu o governo e completaria apenas cinco meses de uma promissora carreira política. Uma tragédia o aguardava: o avião em que viajava rumo ao Rio de Janeiro caiu em Sergipe. Sylvio Pedroza assumiu o governo e isso representou um alívio nas dificuldades financeiras de Cascudo. A educação e a cultura ganharam um novo impulso.

A construção do novo Atheneu foi concluída. Foi inaugurado também o bairro de Santos Reis, que ficava em um terreno ali, ao lado das Rocas e ninguém prestava muita atenção. Teve missa e uma festa que se tornaria tradicional na cidade. A Festa de Santos Reis. Então o Palácio Potengi ganhou seu nome definitivo.

Tudo isso nosso herói acompanhava com satisfação. Era conservador, mas gostava do progresso em alguns setores. A preocupação maior agora estava em Mara, que se refugiava cada vez mais neste mundo de plantas, sonhos e martinis. Embora mais jovem que Jonas, ela apresentava sinais de rápido amadurecimento. A guerra lhe causara mais danos do que se imaginava. De vez em quando ficavam sentados no jardim conversando.

A cada ano de seca, uma procissão de flagelados invadia a cidade e ia se amontoando em barracos na periferia. Natal repetia o padrão das grandes cidades brasileiras. Sempre que os mais abastados iam ocupando espaços mais afastados do centro, a população ia sendo empurrada para mais longe. E o mais curioso é que os mais pobres iam se fixando na beira da praia, o pedaço de terra que seria mais tarde cobiçado pelos ricos.

Chique agora em Natal era morar na chamada Cidade Nova, que compreendia todo o espaço ocupado hoje pelos bairros de Tirol e Petrópolis. Assim foram se formando comunidades pobres em torno das Rocas, Praia do Meio, Areia Preta e Vila de Ponta Negra. E foi crescendo aquela que seria a maior favela da cidade, no Morro de Mãe Luíza. Isso já estava dito pelo profeta: “Ai daqueles que vão juntando casas e mais casas, emendando terreno com terreno até não sobrar espaço para mais ninguém!”

Mara passou a visitar esses locais todos os dias, levando comida, remédios e aplicando seus conhecimentos de enfermagem. A boa nova o deixou mais satisfeito que qualquer outro progresso observado no quadro psíquico da mulher que amara um dia. Era uma forma de preencher o tempo e ao mesmo tempo ajudar outras pessoas, coisa que ele já vinha há tempos tentando fazer, mas a timidez não permitia. Não sabia se aproximar das pessoas.

Como a cidade era pequena, logo muitos já sabiam do trabalho de Mara e, de vez em quando, aparecia um político interessado em capitalizar seus esforços, oferecendo algum tipo de associação. Ela recebia a ajuda com satisfação, mas afastava a possibilidade de fazer desse trabalho um trampolim eleitoral. E assim ia angariando o ódio dos aproveitadores.

Jonas, por sua vez, começou a levar a filha para passear na praça, tomar sorvete, ver o circo que chegara à cidade e, principalmente, levá-la para o sítio em Macaíba, onde a menina se entregava às delícias do campo. Eram os pequenos prazeres da vida madura que chegavam mansamente no cotidiano desse homem comum cheio de segredos.

Vera ia crescendo assim, esperando com ansiedade os finais de semana em que era levada ao sítio para brincar com Cândido, o filho de Firmina e Florentino, um pouco mais velho que ela. Passavam os dias correndo atrás dos bichos, comendo frutas nas árvores, caçando passarinhos. Pareciam moleques de engenho.

Essas viagens eram sempre feitas em carro alugado, pois Jonas continuava resistindo a certos confortos modernos. Não queria possuir carro, transformar a casa em sobrado, como quase todos os comerciantes abastados que conhecia. Era um homem de hábitos frugais. Preferia não ostentar os ganhos para não chamar demais a atenção.

E sempre podia contar com a ajuda do compadre Ciço, um sujeito de total confiança. Não existia ninguém assim, com tamanha fidelidade e que, apesar dos anos de amizade, não deixava que a diferença social entre os dois perdesse a evidência. Por isso não deixavam que a convivência quebrasse a barreira da intimidade e eliminasse o respeito que sentiam um pelo outro.

Os negócios iam bem, enquanto a situação política no Estado evoluía em seu passo de boi, sempre com aqueles solavancos de quando a roda passa por cima de uma ponta de lajedo, um pedregulho. O ruído das rodas nos gonzos dos eixos provocando uma dormência no corpo, uma sonolência apenas espantada pelo zumbido das moscas no nariz do carreteiro. A paisagem verde e cheirosa ao redor, um talo de capim entre os dentes…

Cascudo divulgara para alguns, poucos privilegiados, a tradução de alguns poemas de Walt Whitman. Uma joia rara surgindo deste chão tão árido. Jonas não sabia inglês, mas ouviu opiniões e ficou feliz de saber que aquela era uma boa tradução. Foi nessa época que empreendeu uma viagem para o município de Martins para fechar um negócio de compra e vendas. Já ouvira falar muito nas belezas daquela serra encravada no sertão do alto oeste potiguar. Por isso foi uma viagem de surpresas quando o automóvel começou a percorrer as estradas poeirentas do sertão.

Era um homem do litoral, afeito às brisas marinhas, ao cheiro do mato molhado pelas chuvas que caem indiferentes ao verão nas regiões próximas ao mar. Mas a surpresa maior foi ver a serra surgindo ao longe, seu platô em forma de mesa, coberta pela vegetação exuberante. Depois a cada curva um gozo para os olhos ao ver do que a natureza é capaz. Aquelas rochas brotando do chão abruptamente em direção ao céu como a pedir a bênção de Deus. Subitamente em curva descortina-se a Pedra Rajada, de uma beleza sublime, quase religiosa.

O motorista apontou ao longe uma imagem de Cristo como em oração no relevo da pedra, mas ele não percebeu de imediato, ficou sondando a distância, procurando os contornos do Filho do Homem nas estrias da rocha. O carro continuava subindo com dificuldade as curvas da serra, evidenciando a vertigem do abismo ao lado. Uma grande emoção tomou conta de si. Ao chegar à cidade ficou encantado com o pequeno conjunto arquitetônico em estilo colonial, mas dirigiu-se logo ao estabelecimento do comerciante com quem tinha ido fazer negócios.

Ao meio-dia almoçou uma deliciosa mistura de carnes de criação com frutas silvestres na sobremesa. Depois descansou um pouco na calçada da pensão desfrutando o clima ameno. Quando a tarde já ia alta saiu para um passeio pelas ruas da cidade. Foi primeiro na igreja matriz e ficou apreciando suas linhas elegantes, num traçado antigo que busca o grandioso, o contato com o divino. Entrou no templo e apreciou suas formas simples, nas paredes e no altar.

Depois saiu caminhando em busca de uma lagoa que vira na entrada da cidade, a Lagoa dos Ingás, e em sua margem viu uma capela estranha, a Capela do Rosário, com a fachada demonstrando traços de recente remodelação. No entanto, moradores dos arredores garantiam que era uma construção do século XVIII. Tal construção desemboca na Rua das Pedras, onde Jonas encontrou outro santuário, de Nossa Senhora do Livramento, este preservado em suas características originais, de grande beleza.

Voltou à pensão se sentindo um pouco cansado por causa da longa viagem e procurou jantar logo, um frugal mingau de carimã com umas bolachas salgadas, e foi se deitar cedo em uma rede armada pelo dono da pensão em um canto do quarto protegido da friagem que vem com a noite naquelas paragens. No dia seguinte, Jonas alugou uma parelha de burros e convenceu um menino das redondezas a levá-lo até a Fazenda Trincheiras, onde ficava a lendária Casa de Pedra, uma grande gruta situada ao pé da serra.

Novamente ele sentiu aquela corrente religiosa percorrendo seu corpo. Aqueles salões em mármore só podiam ter sido construídos por um arquiteto que criara os céus e a terra, ninguém mais. Caminhando mais um pouco, ele viu o célebre poema cravado na pedra pelas mãos do jovem poeta Henrique Castriciano. Ficou intrigado, de volta à pensão procurou se informar e, entre um trago e outro de cachaça, descobriu que Henrique Castriciano passara por ali no final do século XIX. E mais ainda: o próprio Câmara Cascudo vivera em Martins na adolescência, acompanhando o pai em suas andanças. Soube também que ele voltara na década de 30 na companhia de Mário de Andrade, e saiu de lá encantado com a beleza da serra, além da delícia das mangas degustadas à sombra das raparigas em flor.

Tais fatos estão comprovados no livro do pesquisador Manoel Onofre Jr. dedicado à história de Martins.

Em tal estado de emoção, Jonas foi levado a conhecer os recantos do Canto e do Jacu, duas abas de serras que se debruçam das alturas sobre o sertão lá embaixo. Aí, sim, Jonas teve uma visão da plausibilidade de Deus. Era como se alguém visse o teto da Capela Sistina pela primeira vez. Então ele disse para o acompanhante ao lado, isso aqui é mais religioso do que a igreja matriz… E o rapaz não deve ter entendido nada.

De volta à pensão Jonas pegou a Bíblia, sua companheira inseparável, e leu primeiro o Salmo 91: “Senhor, estupendas são as vossas obras!” Depois o Salmo 103: “Fundastes a terra em bases sólidas que são eternamente inabaláveis. Vós a tínheis coberto com o manto do oceano, as águas ultrapassavam as montanhas. Mas à vossa ameaça elas se afastaram, ao estrondo de vosso trovão estremeceram. Elevaram-se montanhas, sulcaram-se os vales nos lugares que vós lhe destinastes. Estabelecestes os limites, que elas não hão de ultrapassar, para que não mais tornem a cobrir a terra”. E um trecho a seguir: “Ó Senhor, quão variadas são as vossas obras! Feitas todas com sabedoria, a terra está cheia das coisas que criastes. Eis o mar, imenso e vasto, onde, sem conta, se agitam animais grandes e pequenos. Nele navegam as naus. E o Leviatã que criastes para brincar nas ondas”. Naquela noite Jonas sonhou que era colocado em um barco, que foi retirado do alto de uma montanha, e jogado à fúria das ondas, e que era engolido por uma baleia e agora vivia em sua barriga. Na manhã seguinte arrumou suas coisas e embarcou de volta para Natal. Jamais iria esquecer aquela viagem.

15

Todos os dias, ele se empanturrava de notícias. Estava chegando ao final o mandato do governador Sylvio Pedroza. A agitação política nesse período foi intensa, pois o governador desejava o vice-presidente Café Filho como sucessor. A oposição a esse nome dentro do PSD foi tão forte que ele teve que desistir da ideia. Então os dois maiores partidos – PSD e UDN – juntaram-se para eleger Georgino Avelino e Dinarte Mariz nas eleições para o Senado. Aí, Cascudo apresentou a primeira edição do Dicionário do Folclore Brasileiro, uma Antologia de Pedro Velho, Contos Exemplares, No Tempo em que os Bichos Falavam e História de um Homem.

Jonas acompanhava tudo isso pelos jornais e observava, preocupado, os rumos da política nacional. O jornalista Carlos Lacerda sofrera um atentado no Rio de Janeiro em que morrera o major-aviador Rubens Vaz, que estava com ele. Natal sentiu de longe o impacto dessas balas. Era um fatídico mês de agosto e o país mergulhou no caos. O jornal de Carlos Lacerda fez uma campanha intensa para derrubar o governo. Falava-se no envolvimento do próprio Getúlio Vargas no episódio, pois os assassinos faziam parte de sua guarda pessoal. Sem que ninguém soubesse, Café Filho havia se encontrado no Rio com Carlos Lacerda e garantido o compromisso de assumir no caso da renúncia de Vargas.

Mas o velho caudilho não queria renunciar e numa certa manhã de agosto o país foi acordado com o burburinho das ruas. Jonas ligou o rádio e ouviu a notícia terrível. Vargas suicidara-se. Vestiu-se rápido e foi ouvindo o clamor popular a caminho do trabalho. Barbaridade, o presidente morreu! Chegou ao armazém na Ribeira e juntou-se aos operários para ouvir as notícias. Que coisa, o homem não aceitou ser humilhado pelos adversários… Deixou uma carta célebre: “Saio da vida para entrar na história”. Que coragem! Morreu de madrugada para que a notícia não saísse no jornal do principal inimigo. As rádios deram a notícia. De repente, uma guinada geral. Vargas virou herói e falar mal dele transformava o incauto em inimigo público número um. Foi a desgraça de Lacerda.

De repente, Natal estava no centro das atenções: Café Filho era o presidente da República (Jonas anotou no livro de caixa, o homem tinha a mesma idade que eu). Todos acompanhavam o desenrolar desse período da política nacional através do rádio e dos jornais. Em todos os lugares, ia vendo grupos de pessoas discutindo, comentando as notícias. “Ai dos que dizem que é bom aquilo que é mau, que dizem que é mau aquilo que é bom, que colocam as trevas no lugar da luz e a luz no lugar das trevas, põem o doce no lugar do amargo e o amargo no lugar do doce!”.

Agora, os dois gostavam muito de conversar, como se o passado não fosse mais que uma valise deixada à beira da estrada. Como o professor Juca Guiné, ele gostava agora de contar aquelas histórias simples acompanhando o sobressalto nos olhos da menina a cada passagem mais emocionante. Depois ia para casa repassando os detalhes, procurando alguns dos personagens nos cantos das calçadas. Acontecia de ir tão cabisbaixo que, às vezes, passava pelos conhecidos sem dar boa noite. E isso era coisa grave na província.

Quando Mara contava a reclamação dos vizinhos, Jonas dava de ombros, essa gente não tem o que fazer. Sempre que passava pela casa de Mara para deixar a menina depois da escola, demorava mais um pouco, conversando, tomando um cafezinho, deixando o tempo passar. Ela aproveitava para contar as atribulações do dia. Parecia ter se curado dos problemas causados pela guerra. É muita pobreza, miséria mesmo, dizia para ele. Pessoas passando fome, sem remédios, vivendo na mais completa falta de higiene. E o problema maior é a falta de educação, a dificuldade de acesso à escola. Tudo é muito difícil. Nós podíamos fazer alguma coisa. E ele, sem saber ao certo o que fazer, como? De que forma? Não somos ricos. Isso é função do governo, não? Não queria pensar nisso agora. Não gostava de dar dinheiro a ninguém, isso era seu traço de personalidade mais forte.

Naquele ano Cascudo havia terminado vários títulos: História do Rio Grande do Norte Notas, Documentos para a História de Mossoró, Notas para a História da Paróquia de Nova Cruz, Trinta Estórias Brasileiras e em seguida apresentaria Paróquias do Rio Grande do Norte. Para Jonas essa profusão de livros comprovava ainda mais a genialidade de Cascudo.

O homem produzia demais! Depois que escreveu O Folclore nos Autos Camoneanos não parou mais de escrever novos livros. Vieram Anubis e Outros Ensaios, Meleagro, um interessante estudo sobre o catimbó; História da Imperatriz Porcina, Literatura Oral, Cinco Livros do Povo: Introdução ao Estudo da Novelística no Brasil, Dicionário do Folclore Brasileiro, Tradições Populares da Pecuária Nordestina, Jangada: Uma Pesquisa Etnográfica, Jangadeiros, Superstições e Costumes. Sobre este livro o pesquisador Bianor Paulino vai dizer: “Em Jangada, o autor cria um mosaico antropológico cultural, a partir dos detalhes observados e analisados na vida e no habitat do jangadeiro e na jangada, entre a terra e o mar. Aí, chega-se a confundir, por momento, a voz do jangadeiro com a do escritor: ‘Todos sabem que sereia existe’ (p.14). De quem seria a voz? Eis a sutileza escritural cascudiana, em que alguns historiadores alegam que Cascudo ‘chuta’ muito”.

A política voltava a se agitar. Eram as novas eleições. Uma composição dissidente do PSD juntou-se com a UDN e elegeu Dinarte de Medeiros Mariz, um forte candidato do sertão do Seridó, político forjado na tradição do velho José Augusto de Medeiros. Em memorável campanha, Dinarte venceu Jocelyn Villar de Melo, um ceará-mirinense radicado em Martins, candidato dos Rosado, de Mossoró. No cenário nacional, uma tragédia se desenhava. Não uma tragédia com a dimensão do suicídio de Vargas, mas um tropeço que iria afirmar essa vocação de perdedores que marcaria o povo potiguar para o resto da vida. Um povo acostumado à decepção, ao segundo plano, ao fim da fila, ao descaso, ao desdém…

Em depoimento ao jornalista natalense Murilo Melo Filho, o então vice-presidente Café Filho dissera, dias antes do suicídio de Vargas, que seu coração não aguentaria o poder se fosse chamado a assumir. E não aguentou. No terceiro dia de novembro deste ano, o presidente Café Filho baixou hospital com problemas cardíacos. Sem que soubesse, um grupo de militares planejava derrubar seu substituto, o presidente da Câmara dos Deputados, Carlos Luz. O general Lott colocou em seu lugar o presidente do Senado, Nereu Ramos. Café Filho ficou sabendo de tudo ainda no hospital. Tentou reassumir o cargo, mas foi impedido. Não, não vou descer aos detalhes escabrosos desse caso. O fato é que o homem não pôde voltar à Presidência da República. Ficou batalhando na Justiça seu improvável retorno até que Juscelino Kubitscheck assumiu o governo através do voto.

Café Filho entrou e saiu da história pela porta dos fundos. Carlos Lacerda, seu principal aliado, foi obrigado a fazer uma viagem às pressas para os Estados Unidos, com escala em Cuba. Até aquele momento ninguém desconfiava, mas estava sendo engendrado o ovo da serpente. Os militares sentiram o gostinho do poder. Eles voltariam, voltariam sim, para fazer descer uma nuvem de trevas sobre o país no longo inverno de três décadas que se seguiriam ao seu ocaso.

Durante o governo Café Filho, Jonas viu ruas sendo calçadas, o serviço de energia elétrica melhorado, bem como o serviço de telefones e os transportes públicos. Esse homem que chegou tão alto na história da política morreria esquecido, anos mais tarde, no Rio de Janeiro. O antigo parceiro, Carlos Lacerda, de volta ao Brasil, usou seu prestígio e fez com que se aposentasse como ministro do Tribunal de Contas do estado da Guanabara.

Natal raramente lembra seu nome. É preciso deixar claro, no entanto, que foi através de sua influência que o prefeito Djalma Maranhão assumiu a administração de Natal (Cascudo estava concluindo Vida de Pedro Velho e relançaria Geografia do Brasil Holandês).

O governo de Dinarte Mariz trazia um sopro de vida ao campo, pois sua prioridade maior era a agricultura. Mas, curiosamente, esse homem de poucas letras seria mais lembrado exatamente pelo impulso que deu à educação. No seu governo, chegou a Universidade, escolas foram criadas e implantadas no interior e a indústria recebeu um leve solavanco. Este período foi marcado por um falso sentimento de progresso que tomou conta de todo o país. Eram os anos dourados.

A disparada da indústria automobilística, a construção de Brasília, o progresso: 50 anos em cinco. Juscelino Kubitscheck contagiava o Brasil com um sorriso escancarado. Não dava para perceber que os militares preparavam um levante em Recife, que foi pouco depois abortado. Jonas acompanhava a tudo com apreensão. Além do mais, temia por Mara, que agora estava mergulhada por inteiro no trabalho de assistência aos pobres e começava a receber ataques de políticos preocupados com sua popularidade. Ela fazia ouvidos moucos para tudo. Só ia dormir satisfeita depois que arrancava qualquer tipo de ajuda para algum favelado.

As secas periódicas iam ajudando a inchar as áreas periféricas da cidade, pois essa gente sempre recebeu pouca atenção do poder público. Tratados como estorvo, indesejados, feios e sujos, eles emporcalhavam as ruas com seus molambos, mãos estendidas pedindo esmolas. Os comentários da vizinhança não tardaram. Pessoas de bem não se misturam com essa ralé. Isso é coisa de puta, concubina, amancebada, amigada. Como é que pode, uma mulher de bem não podia passar o dia socada em barracos imundos!

Mulher amigada com homem solteiro, hum, hum, e ainda por cima, mãe solteira, onde já se viu? Indiferente às fofocas, Mara batia a porta dos gabinetes dos vereadores, dos deputados, cobrando remédios, leitos em hospitais, comida e até tijolos, cimento, telhas e madeira para substituir os barracos de papelão e lata. Isso era o que irritava mais os políticos. Ora, se o melhor era expulsar aquela gente dali, como é que vamos dar material para eles se fixarem? É um absurdo!

O governador era a figura do sertanejo patriarcal, político habilidoso e cheio de manhas. Só concedia benefícios com o compromisso do apoio imediato, nada de sentimentalismo. Política é prática, minha filha, dizia Jonas todo santo dia. O prefeito era a essência do populismo, ajudava, sim, mas com máxima exposição, festas e foguetórios. Aquilo dava ânsias de vômito em Mara. O homem sonha é com o governo do Estado, meu filho, dizia ela para Jonas enquanto tomavam um café no meio da tarde. Não tem ninguém inocente não, política é uma grande sujeira. Só entra quem tem estômago.

É, mas Djalma Maranhão não iria realizar esse sonho, não. Seus inimigos já estavam preparando a armadilha em que cairia logo depois, sendo obrigado a morrer no exílio, no Uruguai. Para Mara, o jeito era ir se virando com a doação de alguns comerciantes aliciados por Jonas, coisa pouca, mas que ia remediando a miséria de alguns. No final do governo de Dinarte Mariz, o país vivia um momento de grande efervescência popular.

Foi o ano em que Cascudo lançou sua única obra de ficção: Canto de Muro, uma fábula sobre os bichos que vivem nos fundos dos quintais. Será um livro eternamente cortejado para adaptações teatrais ou cinematográficas. É talvez sua única experiência em ficção, um romance de costumes que abandona o mundo dos homens e se detém no minúsculo universo dos bichos mais rasteiros, noturnos, peçonhentos e sua vizinhança: aranhas, sapos, bem-te-vis, xexéus, ratos, lagartixas, marimbondos, baratas, cobras, gatos, morcegos, corujas.

Canto de Muro parece um livro escrito para crianças. Mas não é. Os adultos é que vão encontrar a infância nesse texto fascinante. É a vez também da conclusão do livro Rede de Dormir, uma viagem por este objeto que tanto pode servir para dormir, quanto para levar as iaiás a passeio ou o defunto para a cova.

A rede era o local ideal para Jonas ler as notícias do dia. Muita coisa estava acontecendo.

Quando começou a campanha para as eleições seguintes, a cidade ficou sabendo do rompimento de Dinarte Mariz com o deputado Aluízio Alves, outra grande liderança ascendente da UDN. Então Aluízio Alves, com o apoio de Juscelino Kubitscheck, candidatou-se pelo PSD, unindo-se ao desafeto Theodorico Bezerra. Essa campanha memorável ganhou o nome de Cruzada da Esperança e foi a primeira experiência do uso dos meios de comunicação de massa no estado para conquistar a popularidade. Isso deixou Jonas impressionado, que político brilhante! Jonas não imaginava que esse mesmo talento para conquistar as massas não serviria para que ele realizasse seu sonho mais secreto: chegar à Presidência da República (ironicamente quem vai realizar este sonho é seu grande amigo José Sarney). Afinal, política é política e ninguém fica se apegando a ideais quando a meta é o poder.

De uma hora para outra a cidade se dividiu em bandeiras vermelhas e verdes. Era o radicalismo e a paixão política que exaltavam os ânimos de uma gente pouco acostumada à democracia. Veja que Aluizio Alves chegava com um discurso novo, modernizador, conclamando os trabalhadores às urnas para enfrentarem os currais eleitorais do patriarcado rural, representado por Dinarte Mariz. Contraditoriamente, este candidato populista contava com o apoio de significativas lideranças rurais do mesmo naipe de seu adversário. Mas foi esse discurso que venceu, para o mal ou para o bem, se é que existe isso em política.

Os acontecimentos políticos haviam se precipitado com a crise provocada pela renúncia do presidente Jânio Quadros e a recusa dos ministros militares em aceitar a posse do vice-presidente João Goulart. A serpente estava saindo do ovo, mas poucos perceberam. A aprovação no Congresso Nacional da emenda que instituía o parlamentarismo e limitava os poderes do presidente permitiu a posse de Goulart. A seguir, o país viveu as emoções do plebiscito, que trouxe de volta o presidencialismo. Havia muita articulação para que tal acontecesse, Aluizio Alves participara de uma reunião com diversos governadores que apoiavam a volta do presidencialismo.

Jonas e Mara fizeram como o resto das pessoas: votaram o “sim” que deveria trazer o país à normalidade. De fato, o governo de Aluizio Alves teve momentos de modernização, como a chegada da energia de Paulo Afonso; consolidação das empresas estatais de energia e água; construção do Colégio Winston Churchill, no centro de Natal; emancipação do Colégio Padre Miguelinho; inauguração do Instituto Kennedy; construção do hospital que levaria o nome de seu sucessor, monsenhor Walfredo Gurgel; pavimentação de estradas; construção de uma nova ponte sobre o rio Potengi (ao lado da velha, bela e esquecida Ponte de Igapó, toda em aço, no estilo inglês, símbolo de nossa breve audácia).

Mas foi também o continuador de uma tradição nefasta na política potiguar, da anulação de tudo que havia sido feito pela administração anterior e perseguição sistemática de seus adversários, pois é, ninguém é perfeito. Mesmo assim foi uma época de grandes novidades. Amigos do interior davam notícias da passagem do jovem governador, acompanhado de seu vice, monsenhor Walfredo Gurgel, e do escritor americano John dos Passos.

O registro dessa viagem, Jonas conseguiu anos depois, ao adquirir o livro Marcha pelo Brasil, de John dos Passos. Em Natal, o jovem Moacyr de Góes, com o apoio do prefeito Djalma Maranhão, desenvolvia um projeto educacional inspirado em Paulo Freire e poeticamente intitulado De Pé no Chão Também se Aprende a Ler. Jonas leu no jornal que o presidente João Goulart estava fazendo uma visita a Angicos, na companhia de Aluízio Alves, para conhecer um arrojado projeto de alfabetização criado por Paulo Freire. Ao mesmo tempo, o governador construía casas populares em uma iniciativa inédita para Natal. Foi também um período de grande aproximação com os Estados Unidos, através do presidente John Kennedy, que mandou alguns emissários ao Brasil dentro do programa Aliança para o Progresso. Que país ingênuo era esse?

Então foi a vez de o embaixador americano Lincoln Gordon visitar a cidade, ocasião que ficou marcada na história como a do discurso de Leonel Brizola (que também estava em Natal a convite do prefeito), contra a presença do embaixador e do general Antônio Carlos Murici. Fala-se que este foi o motivo da queda do prefeito Djalma Maranhão. Dias atribulados em que o tempo parecia correr mais rápido que o normal.

Foi o ano da viagem de Cascudo à África, fato que deixou Jonas bastante emocionado, pois finalmente via o seu ídolo sair do país em busca de novos conhecimentos. Ele sabia que uma viagem dessas para Cascudo seria motivo para novos e surpreendentes livros.

Apesar do cenário perigoso que se desenhava no horizonte das vidas de Jonas e Mara, eles continuavam tentando tocar a vida normalmente. Ela costumava dizer, puxa, o tempo passou tão rápido. Vera já estava fazendo os preparativos para o vestibular de medicina, queria seguir o mesmo caminho da mãe. Ela passou no ano seguinte e começou então os estudos superiores no meio da grande agitação política que tomava conta do país. Naturalmente participava da movimentação dos estudantes, mas sempre na companhia de Cândido, que era uma espécie de sombra protetora da moça. O rapaz queria se formar em administração de empresas.

Assim, podiam ser vistos sempre juntos. Até mesmo nas assembleias de estudantes, apesar de Cândido não concordar em nada com aquilo tudo que vinha acontecendo. Para ele, a universidade era um local de estudos, jamais de se fazer política ou arruaças. Ela percebeu o ranço conservador no rapaz, mas não deu muita importância.

Foi só por essa época que todos perceberam que a grande amizade entre os dois jovens era mais que isso. O rapaz trabalhava no armazém e era tão competente que já estava cogitado para ser gerente. Não é necessário dizer que o comércio de Jonas prosperara, apesar de todas as crises. As mercadorias do armazém de Macaíba (a cidade, outrora próspera, entrou em uma decadência triste com o desenvolvimento do Porto de Natal) foram transferidas para a margem da BR 101, em Parnamirim, para facilitar os negócios.

De modos que ele era agora um dos grandes atacadistas da região, com várias filiais, apesar de continuar com o mesmo estilo de vida de sempre. Vendo-o assim, qualquer um o daria como pobre, pelo jeito de vestir e se comportar. Era comum vê-lo sentado em um banco de praça, lendo seu jornal ao lado dos feirantes, operários, aposentados, desocupados. Vendo-o assim era só um cidadão comum cuidando de sua vida. O caso do desaparecimento de Fernando Andorinha já fazia parte dos mistérios policiais arquivados. Um de seus capangas foi pego pela polícia tentando roubar uma loja na Ribeira. Apanhou tanto que confessou ter matado o patrão e jogado o corpo num poço em Igapó. A polícia foi ao local e encontrou de fato um poço com muitas ossadas. Não dava nem para dizer de quem era, mas o delegado deu o caso por solucionado. O homem morreu na cadeia dias depois, assassinado por colegas enfurecidos por causa de um par de sapatos.

16

Um dia Jonas acordou, ligou o rádio e não acreditou no que estava ouvindo. Os militares tomaram o poder.

Foi como um turbilhão em sua vida e das pessoas ao seu redor. Um pobre país, cheio das mais inocentes esperanças de progresso, democracia, paz e felicidade. O povo não estava preparado ainda para isso e o rolo compressor desencadeado pelos militares arrastou essa gente na voragem do destino. Ele ouviu a notícia estarrecedora sem acreditar direito: Os militares haviam mesmo dado um golpe e expulsado o presidente João Goulart do país.

O primeiro pensamento que teve foi medo, como uma fisgada no nervo que pressente a dor, meu Deus, o que será de nós? Depois ficou calmo e procurou se vestir o mais rápido possível e sair para saber como estavam as coisas na rua. A experiência lhe dizia que pessoas envolvidas em projetos sociais, ou simpatizantes do Partido Comunista seriam as primeiras vítimas.

Mas respirou aliviado, ao ver que Mara tomava o café tranquilamente, ouvindo também as notícias no rádio. Aí fez um gesto de cabeça, como quem pergunta algo que não tem palavras para definir… Ela resmungou algo como, ninguém vai me intimidar, e continuou absorta. A seguir, disse mais claramente que não iria abandonar os favelados e que iria continuar fazendo seu trabalho sem se incomodar com opiniões políticas de ninguém.

Isso o deixou bastante alarmado, porém não retrucou, não disse nada. Ficou calado, cismando. Diabos, essa mulher vai enfiar a cabeça na boca do leão, que mulher teimosa! Perguntou por Vera, estava dormindo, não sabia de nada ainda. Mas, quando acordar, pensou, ela vai correr para o diretório dos estudantes. Eles não vão aceitar isso e ficar calados.

Ele quase entrou em pânico, Deus do céu, mulher, o exército está nas ruas, vão prender gente, bater, até matar, você sabe… E ela respondeu baixinho, é eu sei, mas não posso fazer nada. Não vamos deixar que esses putos tomem o nosso país assim de graça.

Ele tentou controlar a raiva, então está bem. Vocês é que sabem, vou trabalhar, até mais tarde, até. Saiu para a rua e nem percebeu que o país estava entrando no último círculo do inferno de Dante em que o gelo queima tanto quanto o fogo.

A situação na cidade estava horrível. Não havia qualquer manifestação, qualquer ato de resistência, todos estavam pasmados. Aluízio Alves soubera de antemão, através do governador de Minas, Magalhães Pinto, sobre a movimentação dos militares e ficara quieto. Ele queria terminar o mandato sem tropeços e estava na reunião do Palácio Guanabara no momento em que foi anunciado o nome do general Castelo Branco, sob a forte oposição do general Costa e Silva. Então, Castelo Branco foi empossado. Muita gente respirou aliviada, pois argumentavam que apesar de ter sido um golpe de Estado, o movimento que os militares passaram a chamar, eufemisticamente, de “revolução”, daria uma impressão de ordem ao país, no primeiro momento. Todos ouviram o discurso civilizado do general cearense e acreditaram em suas promessas de devolver o país ao estado de direito logo que a casa estivesse arrumada.

Porém, para entender o período é preciso lançar um olhar mais geral. Dar uma panorâmica na situação política do mundo de então. Era o tempo da Guerra Fria, o temor da “ameaça comunista” que vinha tirando o sono de todas as cabeças conservadoras do mundo. No Brasil, esse temor já era quase uma doença desde o fim da Segunda Guerra. Em nome disso, começaram as torturas, os desaparecimentos, as prisões arbitrárias, as humilhações. O país mergulhou em sua fase mais sombria da história recente.

No ano seguinte ao golpe, o Rio Grande do Norte já estava mergulhado em mais uma disputa eleitoral pelo Governo do Estado. O governador Aluizio Alves lançou o senador Walfredo Gurgel contra o também senador Dinarte Mariz. Foi mais uma vez uma disputa acirrada entre os dois adversários políticos, mas o caicoense Walfredo Gurgel saiu vencedor. Dinarte Mariz ainda tentou contestar o resultado das eleições, recorrendo à Justiça Eleitoral, mas perdeu novamente.

Neste meio tempo aconteceu um incidente que dá mais ou menos uma ideia do que estava acontecendo nos bastidores da política nacional. Chegara a Parnamirim o coronel Upanema, para assumir o comando da Base Aérea. Este oficial da Aeronáutica tinha fortes ligações com a chamada “linha dura” dos militares golpistas e instaurou um clima de paranoia e terror em toda a vizinhança da base. Muitos abusos foram cometidos em nome da “revolução”.

Pois bem, apoiado por Dinarte Mariz, o comandante da Base Aérea acusou o governador Aluízio Alves de ter enviado assessores para atentar contra sua vida. Os acusados eram o deputado federal Aristófanes Fernandes e o deputado estadual Erivam França. O objetivo era impedir a posse do monsenhor Walfredo Gurgel. Depois de muita confusão, o governador conseguiu provar que o atentado fora forjado e que tudo não passara de uma armação para prejudicar seu candidato.

Dias movimentados, aqueles, em que o estado recebeu até a visita de um Kennedy, não tão lendário quanto o irmão. Jonas garante que estava no Palácio Potengi (que o governador mudara para Palácio da Esperança!), quando o senador americano Robert Kennedy veio a Natal já no final do governo Alves. Em 1966, Walfredo Gurgel tomou posse. Eram dias difíceis, mas o monsenhor imprimiu um estilo diferente ao Governo, aplicando um pouco do que aprendera no Novo Testamento. Acabaram-se as perseguições aos adversários políticos. Aos correligionários, tampouco, eram dadas muitas benesses: “A César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, dizia ele. Durante seu mandato houve algum progresso no estado. Muitas obras foram implementadas, como a construção da nova ponte sobre o Rio Potengi, ligando as Quintas a Igapó. Mas, para Jonas, a melhor de todas as obras foi a construção da Biblioteca Câmara Cascudo, a melhor homenagem que a cidade poderia prestar a alguém como ele.

Agnelo Alves era o prefeito da cidade e foi em seu mandato que aconteceu um dos fatos mais marcantes na vida de Jonas e de todos que tinham parentes comerciantes no centro de Natal: o incêndio do Mercado. O sábado amanheceu com sol, animando as pessoas que se preparavam para mais um final de semana tranquilo numa cidade sem grandes acontecimentos. O dia transcorreu inteiro assim, sem grandes fatos que merecessem registro. Dia bom para fazer a feira e tomar umas e outras conversando com os amigos.

O jornal do dia seguinte dá bem o tom de como se vivia em relativa paz. O domingo seria mais um dia de sol e praia e no Clube Naval seria escolhida a Rainha do Carnaval. A ornamentação da Praça Pedro Velho e da Rua Trairi já estava sendo preparada para o entrudo. Os tradicionais Índios Guaranis iriam realizar seu ensaio geral. Entrava em cartaz, no Cine Poti, O Segredo de Joselito; no Cine Rio Grande, O Cardeal, com Romy Schneider; no Cine Nordeste, As Bonecas, com Gina Lollobrigida, Elke Sommer e Virna Lisa; no Cine Rex, A Mesa do Diabo, com Steve McQueen; No Cine São Luís, O Conquistador de Atlântida, com Kirk Morris e Helene Chanel. Um delegado pedia a prisão preventiva do perigoso ladrão Antônio Cabral de Souza, o Piolho. “É um elemento de péssimos antecedentes, furta desde os oito anos, além de arrombador e punguista”. Piolho foi transferido para o Presídio de Petrópolis, onde hoje funciona o Centro de Turismo.

Lá pelo meio da tarde do sábado, uma mulher chamada Terezinha foi presa na Rua 15 de Novembro, na Ribeira, porque estava falando palavrões em via pública. Quatro mulheres, Tânia, Elza, Chica e Maria das Dores também foram presas porque estavam bebendo no Bar Flamengo, fora da hora permitida pela polícia, e iniciaram uma discussão. Quando a tarde já ia dando lugar à escuridão da noite, a Polícia Rodoviária prendeu quatro amigos, Magno, Pedro, João e Antônio, porque estavam embriagados fazendo acrobacias em um fusquinha em plena via pública. A noite já ia alta quando a polícia prendeu um certo Chico que estava alcoolizado promovendo desordens no bairro de Mãe Luiza.

A uma da madrugada, um tal Nazareno foi preso no Alecrim, por estar embriagado, desacatando a polícia. Todavia, fazendo um retrocesso no horário, logo no início da noite, estalara um foco de incêndio no Mercado da Cidade Alta, a partir de uma sapataria. Jonas estava em casa quando ouviu o alarido e correu para o local. Uma multidão já se aglomerava acompanhando o trabalho dos 400 homens da Polícia Militar, Polícia Civil, Exército e Marinha.

O tumulto e o desespero não tardaram a acometer os comerciantes que acorreram ao local do sinistro. Alguns foram presos tentando romper o cordão de isolamento para salvar alguma coisa que deixara nos cofres. Uma velha rezava de joelhos no meio da rua e gritava: “Meu Deus, meu Deus! Abrandai a vossa ira!” Pouco mais de duas horas foram suficientes para consumir os 1.804 boxes dos feirantes. Muitos amigos perderam tudo que tinham no incêndio. Nada podia ser feito.

Às 23 horas da segunda-feira, novo foco de incêndio acabou com o que restava do velho mercado, de tantas lembranças da infância de nosso personagem. Na manhã seguinte, o prefeito tomou as primeiras providências: transferiu alguns feirantes para o Centro Comercial das Rocas, dando prioridade aos mais prejudicados. Planejou construir vários mercados menores espalhados pelos bairros da cidade. Na Cidade Alta, começava a construção do Edifício Rio Branco, anunciando o surgimento dos primeiros grandes prédios. A área incendiada foi interditada e, anos depois, foi construído ali o prédio do Banco do Brasil. Mesmo assim, muitos estabelecimentos comerciais floresceram ao redor, inclusive um gigantesco mercado de camelôs, como se atestasse a vocação do lugar para o comércio.

Depois de olhar as notícias nos jornais, Jonas leu mais uma vez seu profeta preferido. “Por isso a ira do Senhor contra seu povo se inflamou e, para castigá-lo, o braço ele ergueu. As serras tremeram. Há cadáveres pelas ruas, como lixo. Apesar de tudo isso, porém, sua ira não acabou e seu braço continua erguido!”.

Parecia que estava prevendo o que viria acontecer em breve. Enquanto durou o governo de Castelo Branco, o trabalho de Mara continuou sem grandes sobressaltos. Como ela não podia dar conta sozinha do atendimento a tanta gente miserável, passou a contar com a ajuda de pessoas ligadas à Igreja e elementos oriundos do Partido Comunista, além de outras tendências as mais variadas da confusa e desorganizada esquerda brasileira.

Ela costumava dizer que não pedia atestado ideológico para quem trabalhava a serviço do povo. Essa coragem misturada à ingenuidade não tardou a chamar a atenção dos órgãos de informação, que se reorganizavam no novo governo, resquícios da velha polícia política de Vargas. Esses agentes do serviço de informação voltavam agora acobertados pela fúria anticomunista de antigos tenentes ressentidos, agora poderosos generais de quatro estrelas.

Castelo Branco tentou fazer um governo pautado pela legalidade, um paradoxo, pois seu governo foi todo de avanços e recuos. Todos os seus esforços foram para desestruturar as organizações de esquerda. Foi um período de suspensão dos direitos constitucionais e fortalecimento da linha dura dos militares. Mas, implementou um programa de reformas na economia e na tributação, dando impulso à construção de habitações. Por outro lado, mandou soldados brasileiros para ajudar os americanos a sufocar uma revolta popular em São Domingos, demonstrando todo seu apreço pela política agressiva do imperialismo.

Em seguida, passou a presidência da República para o general Arthur da Costa e Silva e, dias depois, faleceu em um acidente aéreo, quando retornava da fazenda da escritora cearense Rachel de Queiroz. Jonas não deixou de anotar a curiosidade em seu caderno. Ele já lera alguns livros da escritora cearense e gostava muito de sua visão feminina para o problema da seca e das relações entre homens e mulheres na sociedade patriarcal nordestina. Lembra que um dia, ao caminhar pela praia de Areia Preta, avistara a escritora conversando com Ariano Suassuna e olhando o mar.

Em Parnamirim, a linha dura ganhava mais poder. Agora era a vez de mostrar de uma vez por todas como funcionavam seus métodos para deter a “ameaça comunista”. Mara foi apanhada numa manhã em que se dirigia para mais uma visita às favelas. Um furgão com homens vestidos de ternos pretos e óculos ray ban estacionou ao lado e ela foi empurrada para dentro. E então conheceu novamente o horror da opressão.

Foi vendada e levada para um lugar escuro não se sabe onde (mais tarde uma investigação mais cuidadosa determinaria o lugar como a Base Aérea de Parnamirim). Durante dias e noites intermináveis foi interrogada sem parar. Nos intervalos, era despida, humilhada com banhos frios e palavras de baixo calão. Para alguém na sua idade era tortura suficiente. Não resistiu e embarcou na mais completa insanidade que o ser humano é capaz. Do dia de seu desaparecimento em diante, o inferno entrou definitivamente na vida de Jonas.

Ele perambulou por delegacias, quartéis e hospitais sem qualquer informação precisa sobre o paradeiro de sua mulher. Ninguém sabia dizer nada. Alguns conhecidos baixavam a cabeça, de pura vergonha, ao ver aquele homem de idade avançada perguntar por alguém que sabiam estar nos porões da ditadura. Vera o acompanhava nessa peregrinação, nessa procissão dos horrores e via os olhos fundos, as rugas, os cabelos grisalhos do pai se acentuando a cada minuto.

Essa busca durou mais ou menos um ano e pouco, quando uma ambulância parou em frente à casa de Mara. Eles estavam tomando café e não viram quando ela desceu. A imagem que viram entrando na cozinha ficaria marcada para sempre em suas retinas. Uma mulher devastada pela loucura caminhava a passos trôpegos amparada por enfermeiras, que não respondiam às indagações de onde ela estava e por que se apresentava dessa forma.

Deixaram Mara ali com seus parentes e saíram sem dar satisfações. Ele nunca soube exatamente o que aconteceu. Mais tarde, pessoas que trabalhavam com Mara acrescentaram algumas ralas informações. Ela fora presa e interrogada, não fora torturada, como a maioria que havia passado por choques elétricos e sessões no pau-de-arara (um terrível instrumento de tortura inventado no Brasil), mas perdera a sanidade, que já era precária, ao lembrar de certo episódio na guerra, quando lhe obrigaram a tirar a roupa na frente de homens.

O mais importante: não deu o nome de ninguém. Outros foram mais fracos e entregaram os colegas. Mas é assim mesmo, poucos seres humanos atravessam o abismo da dor sem entregar um pedaço de sua alma. Este foi, talvez, o mais duro golpe na vida daquele homem que já começava a demonstrar os sinais de uma idade avançada. Até aqui tudo havia transcorrido, mais ou menos, dentro do que se espera de uma existência tranqüila.

Mas ver a mulher que tanto amara naquele estado foi demais para ele. Nos dias que se seguiram, ela foi definhando como uma planta que não recebe água nem a luz do sol. Inconsciente e permanentemente deitada na cama, Mara recebia a atenção da filha. Quando não podia estar em casa, uma enfermeira cuidava dela. Tinha que ser levada para o banho. Depois comia e tomava a medicação sempre com a ajuda de alguém. O pior para todos era ver aqueles olhos sem vida, sem qualquer brilho que denotasse sua existência.

Mara mergulhara nas sombras da inconsciência e parecia não estar mais ali junto às pessoas que amava. Ao final de um ano e meio de sofrimento, subitamente acordou, sorriu para a enfermeira e pediu que chamasse a filha. O susto e a emoção de vê-la de volta tomou conta de todos. Quando Vera entrou no quarto, ela estava tranquila. Não dizia qualquer palavra, mas havia tanto significado naquele silêncio quanto um discurso apaixonado. A filha a abraçou com ternura e afogou sua cabeça afundada no travesseiro para que ela, inutilmente, não ouvisse o soluçar de quem sentia que já perdera o ser mais importante de sua vida.

O dia estava acabando de nascer quando Mara pediu para que abrissem as cortinas. Queria ver um pouco de seu querido jardim. Então suspirou profundamente, como se tentasse aspirar todo o ar disponível no mundo. Depois tudo escureceu. Jonas chegou à noite e olhou para Mara ali deitada naquela cama sem vida. Então olhou para a dor nos olhos da filha. Não podia suportar tudo aquilo. Saiu para o jardim e lá desafogou sua tristeza.

O corpo de Mara foi sepultado no cemitério do Alecrim, próxima aos seus parentes, mas em um novo túmulo. Ele não quis usar o jazigo da família dela. Comprou um túmulo com lugar reservado para um casal e deu instruções a Vera para que ali só fossem enterrados os dois. Quando chegasse sua hora, queria descansar ao lado da mulher que amou a vida inteira. Vera prometeu que assim seria feito, mas achava que era muito cedo para ficar falando nisso.

Como diziam os amigos, a vida prosseguia, e por causa disso Jonas e a filha, tentaram reconstruir os cacos de vida que foram ficando pelo caminho. A partir desse dia, ele não descansaria enquanto não desvendasse o que ocorreu com Mara quando esteve sob a custódia dos militares. Passou a ser o mais aborrecido, insuportável perguntador.

Desse dia em diante era o sujeito mais chato para os oficiais encarregados de dificultar qualquer informação sobre as prisões efetuadas pelos militares no Rio Grande do Norte. Ele peregrinava pelas delegacias, quartéis, levando chá de cadeira nas repartições públicas em busca de qualquer notícia sobre presos políticos.

Mais de uma vez, levou empurrão de soldados, que viam na sua figura, nada além de um comerciante brocoió, metendo o nariz onde não era chamado. Atitude típica da boçalidade de pessoas estúpidas que pensam ganhar alguma autoridade sobre as outras pessoas, porque estão fardadas. Jonas ouviu falar num tal de capitão Osmar, que era o assistente do coronel Upanema e que primava pela brutalidade.

Não conseguiu qualquer outra informação relevante. Então, aos poucos foi desistindo e voltando à rotina nos armazéns. Vender farinha dava mais futuro, dizia para quem perguntasse como ia a vida. Mas Ciço viu que ele estava ficando cada dia mais acabrunhado, evitando as pessoas. Chamou o compadre ao lado e perguntou o que estava acontecendo. Nada, compadre, é que essa história da tortura de Mara não me sai da cabeça. Queria encontrar o cabra que fez isso, só para olhar nos olhos dele e perguntar por que tanto ódio por alguém que nunca lhe fez mal. O que leva uma pessoa a fazer isso com outra, compadre? Ciço bateu no ombro do compadre e saiu calado.

Meses depois ele percebeu que Ciço andava meio macambúzio, o olhar perdido no vazio, sem disposição para o trabalho. Chamou o compadre e perguntou o que estava acontecendo. Ciço se fez de desentendido, disse que não estava acontecendo nada, que era só um mal-estar passageiro. Os dias foram passando e Jonas só cubando o comportamento do compadre. Sempre que podia, ele perguntava de novo se estava tudo bem.

Então Ciço resolveu contar o que sabia. Olha, compadre, lembra que passei uns dias sem comparecer ao trabalho? Ele respondeu que sim e já ia dizer que não ligava para isso, mas Ciço o interrompeu. Eu sei quem fez aquilo com a comadre Mara. Seus olhos fitaram espantados, esbugalhados, como se uma luz acendesse em sua alma aflita. Ciço completou, é, compadre, estive em Recife fazendo umas perguntas. O homem que torturou dona Mara foi um tal de capitão Osmar e ele mora lá mesmo em Recife, no centro da cidade. Todos os dias ele sai para fazer a feira, depois volta para casa e só sai à tarde para tomar um café num boteco de esquina. Como você sabe tudo isso, compadre, que maluquice é essa? Vamos então atrás desse homem para que eu possa conhecê-lo.

Ciço olhou calmamente para o amigo e disse, não vai ser mais possível, compadre. Ele não mais existe. O que você está me dizendo, homem, que loucura é essa? Jonas já não conseguia segurar a respiração opressa. Que desgraça você fez, meu amigo? Ciço então respondeu, esperei ele sair do café e o segui pelas ruas desertas no comecinho da noite. Numa esquina gritei seu nome e ele parou procurando saber quem era. Eu me aproximei, saquei minha faca e dei dois golpes bem aqui nele, na barriga. Fiquei esperando ele morrer e disse, antes do seu último suspiro, essa foi por dona Mara, viu? Ele morreu sem saber por que estava morrendo.

A revelação caiu como um relâmpago sobre a cabeça de Jonas. Pediu ao compadre para içar só naquele dia e foi para casa pensar. Encomendou jornais de Recife que dessem notícias do acontecimento, conferiu a data e viu lá num canto de página, a notícia de que um oficial reformado da Aeronáutica fora vítima de assalto e falecera. Depois vinha um artigo sobre a violência crescente nas grandes cidades brasileiras. O caso estava encerrado. Aquele segredo iria fazer parte da vida desses dois homens até o fim de seus dias.

Depois disso os dias passaram mais tranquilos para Jonas. Já não pensava muito na morte, nem de Mara nem de ninguém. Gostava de ficar na varanda olhando as árvores, apreciava os passeios pelo centro da cidade. Mas na verdade, do que ele gostava muito mesmo, era de ler. Até o momento, não havia um romancista, um contista sequer que houvesse despertado sua atenção, pois se dizia um homem impregnado da grande literatura, pelos grandes poetas espalhados no mundo, não mais que uma dezena, trazendo beleza e conhecimento das profundezas do ser para mostrar ao mundo que somos diferentes dos animais, porque pensamos e temos consciência de nossa morte.

A essa altura já mantinha guardadas em sua biblioteca todas as obras fundamentais de Luís da Câmara Cascudo e estes foram anos fecundos para o mestre potiguar. Em uma década surgiram livros, dezenas de livros, dos quais nosso herói tinha suas preferências. Nomes da Terra, por exemplo, mostra um escritor polivalente, dando conta de várias disciplinas ao mesmo tempo, historiador, geógrafo, linguista, sociólogo. Aqui ele tenta traçar um perfil da identidade potiguar. Segundo a pesquisadora Fátima Martins Lopes: “Para Cascudo, é desta gente – colonos empobrecidos, mas persistentes, índios conquistados, mas renitentes, negros escravizados, mas presentes – que se formou a população do Rio Grande do Norte. É da história das relações entre esses homens que se constitui a sua fala, os nomes da terra”.

Dante Alighieri e a Tradição Popular no Brasil é uma demonstração cabal da erudição do autor. Como misturar o trecento florentino com a intemporalidade dos costumes populares brasileiros? Com malabarismos intelectuais. É o que diz a pesquisadora Tereza Aline Pereira de Queiroz. “Cascudo lê atento e minucioso, e sobretudo tempera textos dificilmente palatáveis ao leitor atual. E rasga espaços que podem nascer no Purgatório, passar por Roma, pelo Pará, por Ravena, pelo Senhor Bom Jesus das Dores da Ribeira, em Natal, e terminar em Porto Alegre, ou no paraíso.”

Prelúdio da Cachaça é um livro para ser bebido de uma só vez como um trago da bebida preferida dos nordestinos. Depois degustado lentamente para não deixar ninguém tonto. Como diz a pesquisadora Yara Aun Khoury, o autor “faz notar, igualmente, posições e imagens contraditórias em relação à bebida: por um lado, o alerta de alguns para os cuidados que essa aguardente inspira, como ‘revelação gostosa e catastrófica para os africanos e amerabas brasileiros’, como ‘suprema tentação para o selvícola’, embriagando-o até o ‘brutismo inerme’, como perturbadora do bom andamento das tarefas servis e do trabalho; por outro, o brasileiro é visto como devoto da cachaça, sem ser cachaceiro; a bebida aparece como estímulo à coragem, quando misturada com pólvora, sendo tolerada até mesmo nas missões religiosas como ‘mata-bicho’”.

Jonas era o único natalense que mantinha em sua estante todos os livros de Cascudo. Isso vai virar mania para alguns intelectuais potiguares. Através dos anos e com muitas manobras, ele conseguiu a obra completa do mestre, até mesmo muitos originais dos quais conseguiu cópias, não se sabe de que maneira, já que não se tem notícia de que Cascudo utilizava papel carbono e os meios de reprodução desta época não eram muito confiáveis. Porém, ele se orgulhava de ter em sua biblioteca nada menos que tudo que o grande homem produzira até o momento. Mas havia uma coisa que Jonas não gostava muito de comentar: as ideias políticas do grande homem. Não permitia que se falasse na sua frente do envolvimento de Cascudo com o Movimento Integralista. Ora, muitos intelectuais brasileiros entraram nessa, resmungava, até Dom Helder Câmara! Admitia, sim, para poucas pessoas, que Cascudo tinha uma séria tendência a apoiar pensamentos de direita.

O pesquisador Marcos Silva, organizador do Dicionário Crítico Câmara Cascudo ressalta esse traço da personalidade do homem. “Suas opções teóricas e políticas foram marcadas por um recorte conservador, do monarquismo explícito dos anos 1920 e 1930 à liderança integralista no Rio Grande do Norte, ao longo da última década, desdobrando-se no convívio cordial com o Estado Novo (1937-1945) e a ditadura militar dos anos 1960-1980”. Mas o professor alerta em seguida a análise dessa faceta de sua identidade “requer especial cuidado para não ser transformada em tópico dedutivo ou chave explicativa de toda uma obra”.

Todos estavam vivendo uma época terrível. O tempo do Ato Institucional nº 5, que dava poderes totais aos militares. Este governo, que tanto combatia o comunismo, implantara no país um modelo de informação idêntico ao soviético, todo ele baseado na delação e na paranoia coletiva. Nunca os medíocres se sentiram tão à vontade para destruir carreiras brilhantes.

E quando Jonas viu que sua filha estava envolvida demais no movimento estudantil, percebeu que o futuro da moça corria perigo. Esse negócio de se envolver com política parecia ser um mal de família, pois Vera decidiu radicalizar. Entrou para um grupo que defendia a luta armada. Ele, então, não pensou duas vezes: telefonou para seu amigo Helmut, que agora vivia calmamente em seu apartamento em Berlin Ocidental, e perguntou se seria possível receber alguém da família que queria estudar na Europa.

A resposta foi imediata: pode mandar a menina, amigo, aqui nós cuidaremos do resto. Foi difícil convencer Vera de que ganhara uma bolsa para participar de um intercâmbio cultural com a Alemanha para aprender outra língua e se especializar na sua profissão. O ano estava chegando ao final e ela já se preparava para a colação de grau. A ajuda e a compreensão de Cândido foram fundamentais para que Vera embarcasse alguns dias após a festa de formatura, sem despertar as suspeitas dos órgãos de repressão do Estado.

Ela, porém, fazia apenas uma objeção: só viajaria depois de casada com Cândido. Isso foi um choque para Jonas, porque ele queria que o casamento fosse realizado depois que ela voltasse dessa viagem, mas não com Cândido e sim com o filho de um político que ele iria apoiar para o Congresso Nacional.

Quando Firmina e Florentino souberam da decisão do patrão, fecharam-se ainda mais em seu mutismo habitual. Eles compreendiam a situação, moça rica não casa com rapaz pobre, isso é muito raro. O patrão estava com a razão. Cândido, por sua vez, tentou resistir, enfrentar o homem, mas foi ameaçado com demissão sumária e preferiu ficar quieto no seu canto, remoendo sua raiva.

Na semana seguinte, Jonas viajou acompanhado de Vera e o amigo Ciço a Recife para embarcá-la no aeroporto e só respirou aliviado depois que viu o avião decolar. Os dois homens se entreolharam e compreenderam que a dor provocada por uma distância como essa só poderia ser suportada pelo medo de perdê-la para algo mais escuro. Tomaram umas cervejas no bar da rodoviária e voltaram para Natal.

No caminho, Ciço pensou ter ouvido o velho repetir algumas vezes a frase, não vou perder mais ninguém para estes animais. Mas bebera cerveja demais para ter certeza. Adormeceu ouvindo uma música de Roberto Carlos que rimava inverno com inferno. Natal estava insuportável com o clima geral de desconfiança.  Foi quando ficou comum a figura do dedo-duro, aquele sujeito que delatava alguém para poder conseguir vantagens no emprego, ganhar algum dinheiro, ficar amigo dos militares. Era uma coisa horrível de suportar.

Por todos os lugares estavam aqueles sujeitos babosos, cheios de salamaleques para os militares, rondando as repartições públicas em busca de cargos para eles e para os parentes, sempre querendo trocar um favor. Muitos prosperaram com tal atividade e construíram alguma fortuna. De uma hora para outra aquele sujeito medíocre que nunca havia conseguido nada na vida, aparecia de carro novo, morando em uma mansão nos bairros nobres da cidade. “Ó glória vã dos ímpetos humanos! Quão pouco dura o verde no cimo, se não for seguido de época medíocre!”.

17

Jonas quis ficar longe dessa sujeira toda e decidiu se mudar de vez para o sítio de Macaíba. Vendeu a casa da cidade para não ter com conviver mais com as lembranças dolorosas dos pais. Deitado na rede do alpendre do sítio, só recebia a visita de pessoas próximas. Ia pouco ao armazém principal, deixava tudo agora aos cuidados do gerente. Um dia, lá por meados de 1969, chamou Cândido para perto. Naquele dia estava deitado na rede do alpendre e bebia um copo de suco de cajá. Florentino e Ciço estavam mais adiante, sentados em tamboretes, bebericando água de coco, enquanto Firmina e Rosário conversavam na cozinha.

Foi quando ele começou aquele discurso estranho. Falava de uma coisa e de outra, fazendo rodeios, sem querer chegar logo ao centro da questão. Cândido parecia que não ouviu nada daquilo. No entanto, ouviu muito bem quando Jonas falou que ele precisava entender que não tinha nada contra ele, mas já havia prometido a moça para o filho do Senador, que ele podia ficar tranquilo que ia ser sempre protegido na empresa e coisa e tal. O rapaz conteve o ódio que borbulhava em seu peito e disse apenas que ele não precisava se preocupar. Não iria atrapalhar a vida da moça, era um homem honrado apesar de pobre. Mas garantia que só ele poderia fazê-la feliz. Ele ouviu aquelas palavras sem dar muita importância. Não acreditava mais no amor, fazia tempo. Não se importava nem um pouco com sentimentos alheios. Os negócios eram mais importantes.

Mesmo assim, Cândido pediu para que ele pensasse mais um pouco, pelo menos um ano, até as coisas ficarem mais tranquilas, até ela poder voltar. No ano que vem faço 70 anos, disse Jonas, não fica bem um velho andar por aí se metendo em assunto de jovens. Cândido ainda tentou contra-argumentar, o senhor é um jovem ainda, tem muito para viver. Mas não completou o discurso, pois Jonas parecia cochilar um pouco. Depois veio o silêncio. Da cozinha, Firmina e Florentina ouviam a tudo em silêncio o peito oprimido por uma pedra.

A política vivia seus momentos mais agitados na história recente do Rio Grande do Norte. O governador Aluízio Alves teve seus direitos políticos cassados. Agora governadores e deputados seriam eleitos por Colégios Eleitorais, de forma indireta e os prefeitos seriam nomeados. O país estava vivendo uma fase de euforia econômica que ficou conhecida depois por “milagre econômico”. Neste momento chegou às mãos de Jonas um livro interessante. Chamava-se Viagem ao Universo de Câmara Cascudo, de Américo de Oliveira Costa, que apesar do estilo empolado e de estar cheio de citações em francês, era o mais completo documento sobre a vida intelectual do mestre potiguar. Ah, que horas maravilhosas passou lendo este livro, no quintal da sua casa, sentado em uma espreguiçadeira, à sombra das árvores. Dava até para esquecer os problemas da política nacional. Mal sabia que o pior ainda estava por vir.

Em breve tomaria posse o presidente Emilio Garrastazu Médici e Jonas agradeceria muito, tempos depois, à providência divina ou à pura sorte por ter tirado a filha do Brasil, bem antes da posse deste homem. O que veio a seguir entrou para a história como o período mais sangrento da história de embates entre a esquerda e a direita no país. No Rio Grande do Norte, o governador indicado foi Cortez Pereira, advogado brilhante e de posições políticas moderadas. Era um administrador fora dos padrões habituais, entendia pouco de política e muito de desenvolvimento.

Alguns de seus projetos colocaram o Estado com o pé no futuro. Realizações como as Vilas Rurais da Serra do Mel, que revelou ao país as delícias do caju potiguar e subprodutos como a castanha; Boqueirão, que tornou nobre a plantação do coco, fazendo com que a água de coco seja um excelente substitutivo para o refrigerante americano; bicho-da-seda, uma ideia simples que faria do estado uma versão tropical da Ásia; camarão, até hoje o produto mais cobiçado da cozinha potiguar. Porém, não sabia separar a administração pública da vida familiar e isso o destruiu por completo, levando-o anos depois à cassação dos direitos políticos por suspeita de corrupção.

Ironicamente, foi um dos poucos políticos potiguares que ganharam a capa da revista Veja. Mas como suspeito de corrupção. O prefeito indicado para Natal foi o engenheiro Ubiratan Galvão, pouco depois substituído por Jorge Ivan Cascudo Rodrigues. A partir deste ano a cidade começou a se expandir nos sentidos norte e sul. Vários conjuntos habitacionais começaram a ser construídos.

Novos bairros surgiram, como Bom Pastor, Nova Descoberta, Lagoa Nova, Capim Macio e conjuntos habitacionais como Neópolis, Ponta Negra, Candelária e Felipe Camarão. Que coisa curiosa, pensou Jonas, um bairro com o nome da ilustre família do guerreiro Camarão, e ninguém sabe que nós existimos. A tribo de Felipe, Poti, o imperador dos camarões, já estava dizimada há tempos, mas ganhava agora o nome do grande guerreiro.

Este bairro, que no futuro iria ganhar a duvidosa honra de ser o mais violento de Natal, foi a última homenagem ao seu tataravô. Jonas Camarão riu com a ironia do destino. Agora, ele acompanhava tudo pela imprensa com um travo na boca. Gostava de ler a Tribuna do Norte, porque estava na oposição; A República, porque era governo; e o Diário de Natal porque oscilava de um lado para o outro. Foi num desses jornais que viu com horror a fotografia do presidente Médici inaugurando uma estrada que ligava Natal a Fortaleza. E leu outro dia, com alívio, a notícia da morte de Costa e Silva. Numa dessas leituras de jornal, leu que o cartunista Henfil trocara São Paulo por Natal para cuidar da saúde.

Então, depois de muita resistência, Jonas comprou uma televisão, essa maravilha dos tempos modernos que trazia o mundo para dentro de casa. A princípio, havia relutado com a ideia de comprar um troço desses. Gostava de ouvir o rádio, ler jornais, para que trazer esse trambolho para dentro de casa? Acabou cedendo. Como a maioria dos brasileiros, também se apaixonou pelo novo veículo de comunicação e agora passava as melhores horas do dia diante da TV.

Mas, como um homem de seu tempo, ainda amava as modinhas antigas. A conversa no alpendre do sítio ainda entrava pela noite, a despeito da novela que a comadre Firmina gostava de assistir na televisão, uma novidade que a TV Tupi apresentava ao país. Porém o que todos esperavam ansiosos mesmo era a Copa do Mundo, que se realizaria no meio do ano. Apesar de tudo ainda sentia muita saudade de Mara. Por isso procurava espantar a dor distraindo a mente com tais divertimentos.

Cândido estava conseguindo juntar algum dinheiro e todo ano empreendia uma viagem para Recife, onde ficava o mês de férias fazendo contatos comerciais que seriam rentáveis no futuro. Secretamente nutria um plano que não revelava a ninguém. Esse talento para o comércio e o diploma de administração de empresas já lhe rendera a representação de várias importantes empresas alemãs no ramo de maquinaria pesada e outros componentes.

Neste ano, Jonas tomou a decisão de doar seus livros para a biblioteca da cidade. Uma biblioteca que iria ganhar o nome de Câmara Cascudo. Todos os livros que acumulara até ali foram doados para as traças porque não ia demorar muito para que essa biblioteca fosse abandonada por todos os governantes que dominariam esta cidade de políticos ignorantes. Cidade dos Reis, pois, pois…

A biblioteca é sempre o grande labirinto de qualquer homem. Nela qualquer um se transforma no Minotauro. Nela qualquer língua será a construção da torre de Babel, o lugar em que Jorge Luís Borges dançará uma milonga. Mas terão todas as bibliotecas o destino da de Alexandria? Américo de Oliveira Costa viu os habitantes de sua biblioteca. Cascudo a denominava de Babilônia, o paraíso das traças.

Jonas mandou ampliar a casa do sítio, criando uma ala inteira só para si, onde ficava quase o tempo inteiro lendo, ouvindo rádio, assistindo televisão. Vez ou outra saía para caminhar, olhando as árvores, os animais, o trabalho dos empregados. Os dias de maior alegria eram quando chegavam cartas de Vera. Aos domingos, ficava aguardando ansioso pelos telefonemas da filha. Cortou, assim, alguns laços que ainda o uniam a Natal. No dia do seu aniversário de 70 anos foi procurado por um repórter. Era da revista RN Econômico, uma publicação que dava espaço a homens de negócios locais, para dar uma entrevista.

Só aceitou depois de muita insistência e a garantia de que não seria incomodado depois. Falou dos livros, de seu amor pelo trabalho de Cascudo, do perigo que o comércio estava correndo com aquele plano econômico mirabolante, de como a cidade estava crescendo alucinadamente, do descaso para com as dunas, as lagoas, os rios, da Natal provinciana e dos políticos espertinhos que sempre legislavam em causa própria. Isso foi o bastante para suscitar alguns ódios.

Um colunista social famoso bradou de sua coluna: Quem era esse comerciantezinho de merda para vir falar da Capital Espacial do Brasil? Chamar Natal de província! Um sujeito que mal saíra de Natal todo esse tempo, quem era ele para falar de ecologia, quando o que a cidade mais precisava era de progresso, e coisa e tal, quem era ele, para falar de política? Logo um sujeito suspeito daqueles, que tivera a mulher presa pela gloriosa revolução e mandara a filha embora para não ser presa. Aí quando ele leu essa frase que falava de Mara e da filha ficou possesso. Queria que Ciço fosse buscar a espingarda para dar um tiro naquele sujeito, o cipó de brocha para lhe dar uma surra que ele jamais esqueceria. Estava furioso.

Foi preciso muita conversa e suco de maracujá feito às pressas pela comadre Firmina, para o homem se acalmar. Olhe, comadre, essa foi a última vez que falei para jornal. Pode escrever isso aí. E além do mais, não sou um comerciantezinho, sou um negociante, negociante, entendeu?! E deu o caso por encerrado. Então a Seleção Brasileira de Futebol foi tricampeã do mundo e as ruas de Natal se cobriram de verde e amarelo. Ele, porém, não quis fazer parte da festa. Não tinha o que festejar, dizia para os amigos. Construíram um grande estádio de futebol na cidade e colocaram o nome de um presidente militar cearense. Era o cúmulo da mediocridade, da bajulação, da falta de caráter dos políticos locais, dizia entre dentes.

A partir daí foi perdendo de vez o gosto pelas coisas da sua terra. Não se pode viver no meio de tanta burrice, meu Deus. Por muitos anos o estádio ficou conhecido como Castelão. Mesmo depois mudaram o nome para Machadão, em homenagem ao locutor esportivo João Machado. Neste período, ele leu no jornal que o município resolvera dar um terreno para Pelé em Ponta Negra. Pensou, será que vão dar algum terreno para os grandes jogadores potiguares? Alberi já despontava como craque absoluto no cenário nacional.

No rádio, Jonas já não ouvia suas queridas cantoras, Dalva de Oliveira, Linda Batista, Emilinha Borba, Ângela Maria, e a versão local de todas elas, Glorinha Oliveira. Na década anterior, surgira um tipo novo de música, uma mistura de samba com jazz que chamavam de bossa nova. Ele gostou dos sambas de um rapaz chamado Chico Buarque e achou interessantes as canções do Movimento Tropicalista, comandado por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Torquato Neto e Rogério Duprat. Era uma música nova, cheia de vitalidade, com letras inteligentes que pareciam poemas. Em Natal surgiam nomes interessantes também: compositores como Mirabeau Dantas e Dailor Varela faziam canções falando de água de coco e ruas do Alecrim. E a voz de menina de Terezinha de Jesus surgia refrescante como um banho de mar. E esses nomes só não se tornaram efetivamente nacionais, como de fato mereciam, pela absoluta incapacidade que a terra potiguar tem de se comunicar com o resto do país. E disso nós já sabemos.

Ele até comentou isso com Ciço, mas o amigo não estava muito interessado naquele tipo de música. Na verdade, estava mais preocupado com a decadência visível do outro. Pobre homem, pensava ele, vai trocar sua alma por dinheiro. Quando morrer não vai levar nada para o túmulo, mas fica aí agarrado em centavos, tenho pena de sua alma.

Vez ou outra Jonas ouvia ou lia no noticiário denúncias de tortura e desaparecimento de presos políticos. Muita gente foi torturada, assassinada e jogada dos aviões da Aeronáutica no alto mar. Alguns militantes de esquerda sumiram para sempre sem que ninguém soubesse dar conta de seus paradeiros ou foram simplesmente assassinados na rua, nos presídios, nos porões de torturas acobertados pelo governo militar. É o caso de Luís Maranhão, Virgílio Gomes da Silva, Hiran de Lima Pereira, Lígia Salgado Nóbrega, Emmanoel Bezerra, Silton Pinheiro, Anatália de Souza Melo, Bergson Gurjão Farias, Edson Neves Quaresma, Gerardo Magela da Costa e Zoé Lucas de Brito. Outros foram presos e torturados, como o jornalista Luciano Almeida, o professor Juliano Siqueira, o estudante Maurício Anísio, a estudante Maria Aparecida dos Santos, e a lista se estende quase a perder de vista.

Foram tantos! Mas ninguém falava nada. Havia, entretanto, vozes corajosas na Igreja Católica. Dom Hélder Câmara, arcebispo de Recife e Olinda, era a voz mais audível no Nordeste. A cada vez que ouvia falar nos atos arbitrários do governo, Jonas agradecia secretamente ao anjo que lhe deu a ideia de tirar Vera deste inferno. No meio de tanta desgraça, os jornais ainda noticiaram o falecimento do ex-prefeito de Natal Djalma Maranhão, de parada cardíaca, no exílio, em Montevidéu. Uma tristeza ver o corpo daquele grande homem sendo sepultado no cemitério do Alecrim.

O tempo parecia voar para Jonas. Essa era uma característica da velhice que aprendera a apreciar. Quando vemos que o tempo que nos resta é pouco, a velocidade aumenta. Na adolescência, uma semana tinha a duração de um mês para passar. Quanta angústia havia passado à espera de uma viagem no final de semana para ver aquela lagoa, aquele rio, uma beira de praia…

Agora não havia o que esperar. No entanto, o tempo parava quando pensava na espera do dia em que Vera poderia voltar. Ah, dias amargos.

Mas, pelo menos, seu ídolo conseguira lançar vários livros em editoras no sul do país. Foram livros que terminara de escrever na década anterior, mas só agora chegavam ao conhecimento do público. Agora era um homem consagrado no Brasil e no mundo. Mas Cascudo mantinha sua simplicidade, quase sempre de pijama, cercado de admiradores, recebia qualquer pessoa com toda a amabilidade que lhe era peculiar. Mesmo assim, Jonas manteve-se à distância. Não queria incomodar o homem com sua conversa de negociante, dizia aos amigos.

18

De vez em quando pegava um táxi e convidava o compadre Ciço para dar uma voltinha pela cidade. Passava primeiro na Ribeira para olhar os antigos prédios que começavam a se deteriorar ou ser substituídos por construções modernosas. Que povo sem memória, meu Deus. Depois ia até a Praia do Meio, que agora era chamada de Praia dos Artistas (por causa das filmagens de Boi de Prata, do cineasta potiguar Augusto Ribeiro, um seguidor das ideias de Glauber Rocha). Ia até Areia Preta e depois voltava até o Forte dos Reis Magos para olhar a Redinha do outro lado. Como tudo mudara! Novas ruas eram abertas, pavimentadas, asfaltadas. Natal estava ficando uma beleza.

A cidade, que antes terminava na Avenida 15, no cruzamento da Avenida Bernardo Vieira com a Avenida Salgado Filho, agora se expandia para além, onde antes só havia sítios e fazendas. A estrada para Ponta Negra estava pavimentada e não era preciso gastar mais de vinte minutos para ver o Morro do Careca. Ah, mas que pena, o hábito das pessoas subirem o morro estava causando sua devastação. Ele percorria tudo isso com o olhar de quem vira tudo tão diferente. Aí voltava para casa, satisfeito, e ficava procurando na estante qualquer livro que ainda não havia lido.

No dias que se seguiram foram surgindo novidades no mundo literário da província e isso deixava Jonas muito agitado. A Fundação José Augusto lançou o surpreendente Prelúdio e Fuga do Real, um livro que o próprio Cascudo não reputava como trabalho sério. Para ele, era apenas brincadeira de quem tem muito tempo para pensar. Na verdade, uma potente viagem de erudição e beleza no universo da natureza humana. Um dia, Cascudo, provinciano incurável que era, sonhou que estava no Rio de Janeiro, na companhia do Barão de Münchausen. Falavam calmamente no saguão do hotel sobre a necessidade da mentira para que a vida fosse suportável. E o barão no meio na amena discussão, no calor do conhaque e do charuto teria dito: “A humanidade inteira nasceu de uma mentira”. Ao acordar do sonho, Cascudo correu para a escrivaninha e compôs este belo livro com esta e outras histórias. O pesquisador Jomard Muniz de Britto viu ali “projeções ou reencarnações pelo nosso autor em transe na terra de muito sol e mar e musicalidade”. E viu muito mais. “Câmara Cascudo penetrou de corpo e alma – e não apenas surdamente como Drummond – no reino das palavras e dele nunca mais desejou fugir para outras ilhas de documentação ou arquipélagos de vã sabedoria”.

Este era, para Jonas, o melhor de todos os livros de Cascudo, contrariando a opinião de admiradores e estudiosos da obra do mestre. Parecia mais uma brincadeira, um descanso intelectual em meio a tanta seriedade. É como se Cascudo estivesse brincando um pouco com as ideias, com a distorção da realidade, confundindo os conceitos de verdade e mentira. Jonas gostava disso e, sempre que podia, deitava em sua rede para ler mais um pouco do que já havia lido tantas vezes.

Na política também havia coisas novas acontecendo: tomou posse um novo presidente da República, agora o general Ernesto Geisel, que já vivera um tempo em Natal. Como homem forte próximo ao governo militar, o senador Dinarte Mariz começou a articular, junto ao general Golbery do Couto e Silva, a indicação do médico Tarcísio Maia para o governo do Estado, que assumiu no ano seguinte e indicou Vauban Faria para a prefeitura de Natal. Desde Alberto de Albuquerque Maranhão que não se ouvia mais falar de oligarquia no Estado. Pois Tarcísio Maia deu início a uma nova oligarquia, e o que é pior, que ameaçava atravessar o milênio sem dar sinais de cansaço.

Ora veja, era só o que faltava, diziam as pessoas mais sensatas no reservado de suas casas. E tem mais, o homem assumia com um estilo revisionista que lembrava os velhos tempos de Aluizio Alves. Tudo estava sob suspeita. Esse modo de governar vai se tornar um padrão a partir daí. Todos que assumem só pensam em desfazer o que o antecessor deixou de bom. É a alma potiguar em ação. É o fantasma do velho astuto Felipe Camarão defendendo seu quinhão de mesquinharias. E para completar, o astuto dublê de político e médico alimentava sonhos mirabolantes no campo da exploração mineral e da fauna marinha. Sonho que virou um pesadelo chamado indústria da barrilha, em Macau, e gerou um trambolho jocosamente denominado pela imprensa nacional de Palácio da Seca.

A partir de seu governo, a educação pública começou a sofrer um processo de estagnação e decadência, menos por sua própria culpa e mais pelo modelo educacional implantado pela ditadura militar, todo calcado no esvaziamento da inteligência individual e no incentivo à burrice coletiva.  Aí o compadre me pergunta, teve alguma coisa boa nisso tudo? Teve, teve, homem. O governador mandou construir a Via Costeira, uma moderna estrada que liga Ponta Negra a Areia Preta abrindo para a cidade um dos mais belos recantos do litoral. Porém, estudos posteriores revelaram que os terrenos negociados para a construção de hotéis foram vendidos pela metade do preço de mercado.

O governador bem que tentou construir no local uma Residência Oficial, mas foi impedido pelo clamor da imprensa. Pelo menos nisso, parecia estar certo. Teria sido uma grande economia para o Estado que continua pagando, todos os meses, aluguéis absurdos apenas para abrigar governadores. Depois ele tentou construir uma estrada ligando Ponta Negra a Praia do Meio e foi mais uma vez combatido pelos ambientalistas. O melhor de tudo é que, depois de uma acirrada campanha do Diário de Natal, levada à frente pelo seu diretor, o temido e odiado jornalista Luiz Maria Alves, a cidade conseguiu preservar o Parque das Dunas, uma área de preservação ambiental ao longo da Via Costeira que leva seu nome.

Mesmo assim, pouca gente sabe disso, viu, compadre? Pois este homem chegou a Natal no tempo do doutor José Augusto. Vinha contratado pela Western Telegraph, fugindo da fome provocada pela quebra da borracha em sua terra, o Pará. Estabeleceu-se quando o Diário de Natal contratou seus serviços de repórter. Entrevistou Tyrone Power, Evita Peron, imagine. Assumiu a direção do jornal e o dividiu em dois, tal qual se conhece, Diário de Natal no meio da semana, O Poti, aos domingos. Era um caudilho da velha imprensa. Cometeu acertos e alguns erros imperdoáveis, um desprezo sistemático pela ética. Morreu esquecido.

Sem querer, Jonas imitava seu velho professor no hábito de contar histórias para quem se dispusesse a ouvi-las. Ciço era um que gostava muito daquilo. Qualquer dia vamos lá dar uma voltinha para ver o mar, né, compadre? É, compadre, vamos sim, vamos sim.

Os tempos colheram o Rio Grande do Norte de surpresa com sucessivas aplicações do Ato Institucional nº 5. Políticos e altos funcionários públicos tiveram os direitos políticos cassados. Jonas lia com tristeza essas notícias no jornal e depois saía para seu passeio diário pelo sítio.

Uma vez por mês, ele pedia um táxi e ia ao cemitério do Alecrim. Pagava a um jardineiro para limpar e florir os túmulos dos familiares e depois ficava horas conversando baixinho com o túmulo de Mara. Quem passasse pelo local poderia pensar que aquele homem grisalho estava ficando maluco. Quem iria imaginar que alguém pudesse manter uma conversa com os mortos? Sabe, minha querida Mara? Descobri que não gosto de religião. Não sou católico. Espero que você me desculpe, mas não posso acreditar em uma coisa que foi forjada por um sujeito esperto, um judeu, antigo perseguidor de cristãos, fortemente influenciado pelos dominadores romanos, São Paulo, que soube utilizar como ninguém o vácuo deixado pelo judaísmo após a morte do Cristo. A palavra Cristo nem é judaica, é grega, sabe? Vejo São Paulo como um desses executivos de empresas multinacionais. Eles têm um enorme poder de expansão. Uma grande capacidade de adaptação. Por isso venceram o Império Romano. Não posso acreditar em uma religião que deu origem às Cruzadas, à Inquisição, aos Papas que abençoavam exércitos. Não posso acreditar em algo que mais parece um grande negócio. Disso eu entendo, querida. Sua filha está longe, na Europa, mas um dia vai voltar. E eu aqui estarei para ampará-la. No entanto, sinto um vazio. Essa filha que não tem meu sangue correndo nas veias e que eu amo tanto! Minha descendência vai morrer comigo. Sou o último dos guerreiros potiguaras. O último da estirpe de Camarão Grande, do malandro Poti, negociador de leros. E o pior: não acredito na vida após a morte. A velhice chegou, o que é a velhice? Essa coleção de achaques? Esse acúmulo de experiência ao que chamam sabedoria? Para mim a velhice é, mais do que nunca, este aroma da juventude, da minha juventude, não a dos outros. Das pequenas lembranças que guardo comigo. Como aquele dia que você chegou no sítio e eu não estava esperando. Sua pele macia, penugem dourada, seu hálito de frutas cítricas. Lembro sua silhueta contra a luminosidade da porta, a curva da cintura, o arco dos seios desafiando a gravidade, sua respiração ofegante. Ah, o cheiro de pêssego nos seus cabelos, nós dois ali, sozinhos de pé, como se tivéssemos feito uma fatia no tempo. Para nós, sexo e amor eram a mesma coisa. Agora a vida é só o cotidiano passando, as horas que escoam. Não sinto angústia com isso, Mara. Vivo tranquilamente cada minuto e aguardo com calma o fim de tudo isso, quando minha carne vai virar pó e se misturar com a sua.

Em casa, nas noites de ventania, voltava a pensar em Mara. Em seu peito não havia mais tristeza, só uma solidão monolítica de quem está perdendo aos poucos a razão para viver. No entanto, sentia uma imensa paz dominando tudo. Pela janela aberta olhava o céu estrelado, ouvindo o ruído dos grilos lá fora e os sons pareciam vir das estrelas. Na noite insone procura um livro e lê, na penumbra do abajur, um trecho de Safo: “Alguns dizem que o que há de mais belo na terra é um esquadrão de cavalaria; outros um exército de guerreiros apeados; outros ainda, uma esquadra de navios; mas o mais belo é ser amado por quem o coração suspira”.

Os dias transcorreram cheios de solavancos, de avanços e recuos. Natal, porém, não viveu o medo dos atentados a bomba às bancas de jornal, uma característica do período. Começava a se falar na sucessão do presidente Geisel. Surgia o nome do general João Batista Figueiredo. Em seguida, chegou às livrarias de Natal a edição do livro Navegos, de Zila Mamede, com toda sua produção poética até o momento. Podia-se ver com clareza até que ponto ela chegara. Qual seu salto mais arriscado e o que temera fazer? Para o resto do país, ela só será lembrada, vez ou outra, pelo trabalho de bibliotecária na organização da obra de João Cabral de Melo Neto e de Câmara Cascudo. Sua poesia ficará para poucos que saibam compreender. Jonas sabia e por isso guardou com cuidado o exemplar daquele livro.

Este período foi também de grandes debates na política nacional. Falava-se em abertura lenta e gradual. Falava-se, finalmente, em anistia ampla e irrestrita. Ótima notícia para Jonas, que começou a sonhar com a volta da filha. O senador Dinarte Mariz tinha um projeto de anistia que excluía delitos de sangue, luta armada, assaltos a bancos, manifestações públicas ou privadas, sem direitos a vencimentos atrasados, salários, proventos, nenhuma vantagem de ordem pecuniária para quem sofreu punições do regime militar. Não era bem com uma anistia que sonhava o velho coronel da política potiguar. O governo enviou ao Congresso uma proposta de emenda à Constituição que restabelecia direitos políticos, revogava atos institucionais, abolia o banimento, pena de morte e prisão perpétua. Geisel passou o governo para João Figueiredo com uma grande responsabilidade histórica sobre os ombros.

Essa passagem de poder, repleta de lances dramáticos, típicos de um país sem democracia, não foi muita tranquila. E o novo presidente, apesar de sério, parecia nutrir um estranho gosto pelo ridículo. Suas frases de efeito iriam ficar na memória nacional por mais tempo do que o desejado. Mas os primeiros meses de seu mandato foram de grande alegria para quem tinha parentes banidos do Brasil. A chegada dos primeiros anistiados políticos ao Brasil era motivo de festa em todo o país. Mais ainda na casa do sítio em Macaíba, que se encheu de alegria e festa. As imagens de Luís Carlos Prestes, Hércules Correia, Giocondo Dias, Leonel Brizola, Miguel Arraes, Francisco Julião, Wladimir Palmeira e Fernando Gabeira chegando aos aeroportos do país, cercados pelas multidões, eram de encher os olhos de lágrimas. Jonas segurava nas mãos trêmulas o telegrama de Vera avisando o dia em que iria desembarcar em Recife.

Desta vez ele tomou sozinho o rumo da capital pernambucana para receber a mais esperada de todas. A cena prosaica de uma família de pessoas comuns recebendo um ente querido que chega do estrangeiro não é suficiente para descrever o turbilhão de emoções que tomou conta daquelas duas pessoas naquele momento. A dor do exílio não é compreensível para quem não foi impedido de ver os seus.

De longe só dava para ver um velho abraçando uma mulher jovem e, depois, os dois seguindo calmamente para o carro que os aguardava. De volta ao sítio, viveram uma noite de conversas intermináveis, bules de café, bolos e goles de conhaque. Quando o galo cansou de cantar e uma sinfonia de passarinhos anunciava o dia é que, aos poucos, ela foi se retirando para dormir, deixando o velho sozinho na mesa, seus olhos pesados de lembranças.

Depois, o Governo do Estado passou para as mãos de Lavoisier Maia, representante da mais nova oligarquia, que de pronto indicou o sobrinho José Agripino Maia para a prefeitura da cidade. Jonas dizia já não se incomodar com os fatos da política. Sempre que perguntavam sua opinião sobre o assunto, mudava de conversa, perdera o interesse. Tanto faz.

Sua preocupação agora era com o casamento arranjado da filha, a montagem de um consultório, sua colocação em um hospital público, pois ela não queria se acomodar como dona de casa. O casamento foi anunciado assim, de chofre, e ela mal teve tempo de conversar com Cândido sobre o assunto. Aliás, ela estava achando estranho seu distanciamento agora. Mal se falaram na chegada. Além disso, ela gostou muito de conhecer aquele rapaz bonito, filho do Senador, e aceitou seus presentes.

No mês seguinte, Vera, uma mulher no vigor dos trinta e poucos anos, anunciou que iria casar. Nove meses depois anunciou que estava grávida e no final do ano teve um casal de gêmeos, ao qual queria dar os nomes de Fernando e Isabel, em homenagem aos reis de Espanha, uma admiração dos tempos das aulas de História. Mas Jonas vetou veementemente os nomes, pois ainda lembrava com arrepios o nome do sócio. Decidiram então que as crianças iam receber os nomes dos bisavós Abelardo e Heloísa.

Para festejar o grande acontecimento, Jonas comprou uma tapeçaria do artista plástico Dorian Gray Caldas, representando o nascimento do menino Jesus, tendo o Forte dos Reis Magos e o casario da cidade como cenário, e deu de presente à nova mãe. Pode-se dizer que ele estava quase feliz ao se aproximar de seus 80 anos e tudo o que queria era viver essa nova emoção, uma sensação estranha de ser pai novamente, sem ser pai de fato, a estranha magia de ser avô.

Ainda na maternidade, Jonas chamou a filha em um canto, queria propor algo. Por que não ocupavam uma boa casa que comprara no Tirol? Até aí ela morava em um apartamento emprestado pelo sogro. Vera titubeou, alegou que não queria incomodar, etc. Mas no íntimo já estava pensando nas vantagens da mudança. Então, ele providenciou tudo antes da filha sair da maternidade. Aquela foi uma noite de festa no novo apartamento da filha, mas no sítio só a solidão de sempre e a agora incômoda presença de Firmina e Florentino.

O compadre Ciço era dez anos mais moço que Jonas e era dono de uma saúde dos que têm a cor de sua pele. Aparentava sempre ser mais jovem do que realmente era, negro quando pinta, três vezes trinta, dizia o ditado popular. E por isso os dois sempre queriam abusar na quantidade de uísque. Mas Rosário ficava sempre atenta para que não passassem da terceira dose.

Ciço ria com os dentes arreganhados de satisfação, olhe, compadre, já temos uma nova ninhada para criar e parece que a gente não envelhece nunca. Não, compadre, eu já me sinto bastante velho, a natureza está me pregando uma peça, eu já deveria ter ido me juntar aos meus. Que é isso, compadre, não fale assim, dona Heloísa não ia gostar de ouvir isso. E assim iam tocando a noite naquela conversa de toca boiada, o cheiro de mato, o mugir do gado, uma viola tocando baixinho num velho toca-discos.

O costume de dormir tarde ainda era mantido, mesmo que continuasse acordando cedinho como antigamente, quando o fazia por obrigação. Jonas dormia pouco, alternando sonecas no correr da noite e durante o dia. Costumava dizer que comia quando sentia fome e dormia quando sentia sono. Então, não tinha hora para as duas coisas.

Outro dia ele estava lendo o jornal quando recebeu a visita da filha e comentou que o governador Lavoisier Maia tinha ampliado os quadros do funcionalismo público, aumentando a oferta de empregos. Mas não quer aumentar os salários dos professores de escolas públicas, disse Vera com azedume, essa gente não vai valorizar nunca a educação. Ele não precisa de votos. Ciço, que raramente entrava nesses assuntos, disse, olhe, compadre, um dia eles vão precisar, viu? E eles deram razão ao compadre, é mesmo, um dia eles precisarão e não terão nada.

Ninguém desconfiou que toda a administração do novo governador era direcionada para a eleição do primo, Agripino Maia, já que as próximas eleições seriam pelo voto direto. E o adversário seria o lendário Aluízio Alves, o homem da Cruzada da Esperança, o cigano, o feiticeiro, o prestidigitador de votos, que recuperara seus direitos políticos. Puxa, acabavam sempre entrando no assunto da política, mesmo quando queriam evitar. Natal está ficando uma cidade tão bonita, arriscou Vera. É, mas tem mais carro do que gente, resmungou Jonas. A conversa seguia noite adentro sem que ninguém desse conta do tempo. Quando cuidaram, o galo já estava cantando lá fora.

Parecia que Jonas estava chateado com alguma coisa, porém aquele não era um dia para ficar chateado, ponderou. Havia algo que o estava incomodando, não sabia o quê. Vera percebeu que o que incomodava nada mais era que os achaques da velhice. Ele resmungava, só queria que Mara estivesse aqui para ver isso. Ela ficava em silêncio, não queria perturbar aquela conversa consigo mesmo. A solidão é, talvez, a mais cruel de todas as condições que somos levados a tolerar. Existem pessoas que vivem solitárias, mesmo quando estão rodeadas de gente. Outros vivem sozinhos porque assim escolheram viver. Vera ainda comentou qualquer coisa sobre o aumento nas tarifas de importação e aí todos perceberam que já era hora de ir dormir.

Na manhã seguinte, Jonas manifestou o desejo de conversar com o gerente. Na verdade, há muito Jonas vinha percebendo uma certa inquietação no ar, um permanente ar de preocupação em Cândido. Por isso resolveu chamá-lo para uma conversa particular numa tarde em que tinha pouca gente no sítio. Florentino cuidando do gado, Firmina, na cozinha.

Sentaram sozinhos na varanda e Jonas fez a pergunta fatídica, o que está acontecendo? Toda a aparente firmeza de Cândido veio abaixo, ao olhar no fundo dos olhos negros daquele velho de feições indígenas. Olha, seu Jonas, as coisas não andam muito boas, não. A praga do bicudo acabou com a rentabilidade do algodão. Os desacertos da economia estão deixando muitas empresas em dificuldades… É o caso da nossa. Estamos há meses no vermelho e sem perspectivas de melhora. Eu não queria trazer essa preocupação para o senhor. Já tentei de tudo, mas não vejo solução. Depois de ouvir isso, ele não teve dúvidas, o barco estava perdido e bem carregado.

Nos dias seguintes determinou uma auditoria na empresa para ver até onde ia o estrago. O gerente, simplesmente, fizera uma administração repleta de riscos, gastos desnecessários, desmandos, irresponsabilidade, arrogância, prepotência e incompetência, levando a empresa ao desastre total. Foi como se uma cortina abrisse repentinamente sobre a personalidade de uma pessoa que aparentava ser tão equilibrada. Então Jonas conheceu a verdadeira pessoa de seu funcionário, um rapaz que pensava conhecer desde criança. Mas não fez alarde, não queria que Florentino e Firmina soubessem do desastre. Foi na casa da filha e a colocou a par da situação. A empresa estava falida. Tudo o que ele construíra nestes 60 anos de trabalho fora jogado fora.

Vera quis entrar em desespero, mas ele foi frio no controle da situação. Agora não se podia fazer nada. Cuidou em silêncio do afastamento de Cândido, providenciando para ele uma demissão justa, pagando todos os direitos. Mas não podia fazer isso com o restante dos funcionários e o barulho da bancarrota foi feio. Os advogados começaram então o processo de falência da empresa, cuidando para que tudo fosse feito na mais estrita legalidade. Ele temia que os auditores rastreassem suas antigas falcatruas juntamente com Fernando Andorinha. O dinheiro da botija evaporara como água de açude. Ele então vendeu todo o patrimônio físico, os prédios de Parnamirim, Macaíba, Alecrim e Ribeira. Diante dos fatos, Vera, que esquecera os arroubos esquerdistas da juventude e agora tinha preocupações burguesas, cuidou para que a falência do pai não afetasse seu casamento. Então aconteceu o pior.

Cândido chegou ao sítio com olhar grave e disse que queria falar com Jonas. O senhor me desculpe, mas eu arrematei esta propriedade em um leilão, peço que se retire em um mês. Saiu sem dizer uma palavra. Jonas quis virar bicho, convocou o compadre Ciço para que ambos dessem um fim aquele rapaz arrogante, pediu a interferência de Florentino e Firmina, mas só ouviu de volta o imenso silêncio que cerca as pessoas que perdem tudo. No Brasil, ou se é rico ou se é pobre, meu caro. Não tem meio termo. Riqueza e miséria convivem no mesmo abismo em um lugar em que a distribuição da riqueza é a mais injusta do planeta.

19

Os dias seguintes começaram para Jonas com uma série de surpresas das mais desagradáveis: foi levado pela filha para o abrigo Juvino Barreto. O compadre Ciço acompanhava essa mudança do velho amigo, dando o apoio necessário, principalmente físico, pois a essas alturas, ele já demonstrava certa dificuldade para transpor obstáculos, subir escadas, etc. Mas não podia fazer nada, era pobre como sempre fora. Ele aceitou o destino com resignação. Via tudo como uma espécie de castigo por tudo que fizera, mas não conseguia verter uma lágrima. Dividia o quarto com outro miserável abandonado pela família que passava o dia esperando a hora das refeições. Para Jonas, a melhor hora do dia era ficar diante da televisão para ver o noticiário.

O assunto do momento era o resultado surpreendente das eleições diretas para governador, que elegera o candidato José Agripino com grande margem de votos sobre o adversário Aluízio Alves. Aparentemente, a magia antiga do feiticeiro de arrebanhar votos havia se acabado. Não compreendera as sutilezas do mundo moderno. Foi nomeado o prefeito Marcos Formiga. Este período deu ensejo à criatividade popular: um bloco intitulado Gauleses passou a sair durante o carnaval com uma alegoria em forma de tamanduá gigante, confeccionado em pano e papelão. Diziam que era hora de engolir a formiga. Natal ainda era alegre e inocente. O início da administração de José Agripino foi marcado por mais um período de seca, o que promovia um verdadeiro inchaço populacional em Natal, causado pela leva de famintos que chegava diariamente à cidade.

A seguir, o país foi invadido por uma onda amarela chamada de Diretas Já. Era um movimento democrático pelas eleições diretas para presidente da República. A praça Gentil Ferreira, no Alecrim, palco tradicional de grandes comícios, foi tomada pela cor amarela. Grandes nomes da política nacional, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Leonel Brizola, Franco Montoro, Teotônio Vilela e Luís Inácio da Silva, o Lula, tomaram a palavra. Artistas famosos como Chico Buarque, Milton Nascimento e Fafá de Belém animavam a festa. Nunca mais o país tomara um porre tão grande de civismo. Nunca mais as ruas haviam ficado tão cheias de gente apenas para festejar. Os comícios gigantescos realizados no Rio de Janeiro e São Paulo contagiaram o país com suas imagens transmitidas pela televisão.

Jonas recebia aquelas notícias com alívio, até uma certa alegria. Queria sair, ver as ruas, olhar para as pessoas. Aos domingos, Vera ia visitá-lo com os filhos e de vez em quando levava-o para ver as praias. A Praia do Meio e Ponta Negra começavam e receber barracas de lona à beira-mar, onde eram vendidas bebidas e comidas, nem sempre com um padrão razoável de higiene. Lá estava o velho Morro do Careca, cada vez mais calvo. Ele temia pela morte do morro, maltratado pelas pessoas que continuavam subindo sua encosta e promovendo o desmatamento. Mantinha uma relação sentimental muito forte com aquele morro. Sempre que ia ali, voltava a lembrar de sua primitiva caminhada em um momento de grande dor. Curiosamente, essa lembrança agora só causava conforto e saudade.

A campanha das Diretas Já fracassou, os deputados votaram contra. Fracassou em termos, porque o povo tomou gosto pelas manifestações públicas e um líder de grande apelo popular despontara naquele período. Chamava-se Tancredo Neves. Logo, tomaria posse na presidência da República, eleito por um colégio eleitoral que derrotou Paulo Maluf. Mas a tragédia abateu-se sobre o país. Na véspera da posse, Tancredo Neves foi internado com um problema intestinal grave. Assumiu interinamente o vice, José Sarney, um político matreiro, velho companheiro de líderes como Carlos Lacerda e Aluízio Alves.

A doença de Tancredo Neves prolongou-se mais do que o esperado e o país viveu dias de amargura e indecisão. Pessoas choravam nas ruas sem compreender o que estava acontecendo. Então, morreu Tancredo Neves e o país silenciou em suspense. Fafá de Belém cantou o Hino Brasileiro em cadeia nacional de televisão. E nós entramos na era Sarney. A amizade de José Sarney com Aluízio Alves o fez convidar o político potiguar a fazer parte do governo como ministro da Administração.

Todas as tardes ele gostava de tomar um café e sair para caminhar um pouco nos arredores do abrigo. Ficava pensando na vida como se fosse parte de um poema. Talvez, num instante como aquele, a poeta Zila Mamede caminhasse pelas alamedas de uma biblioteca, acariciando as lombadas dos livros e pensando. Seus olhos marejavam ondas do mar. Em um canto qualquer repousaria o poema que ela esqueceu sobre a mesa. Chama-se, assustadoramente, Partida, como um presságio.

Um vento mais forte entraria pela janela e faria a folha solta voar pelo aposento, como as folhas das árvores lá fora, pois seria outono, talvez. Mais tarde alguém apanharia aquela folha com palavras manuscritas e leria: “Quero abraçar, na fuga, o pensamento da brisa, das areias, dos sargaços; quero partir levando nos meus braços a paisagem que bebo no momento. Quero que os céus me levem; meu intento é ganhar novas rotas; mas os traços do virgem mar molhando-me de abraços serão brancas tristezas, meu tormento. Legando-te meus mares e rochedos, serei tranquila. Rumarei sem medos de arrancar dessas praias meu carinho. Amando-as me verás nas puras vagas. Eu te verei nos ventos de outras plagas: juntos – o mar em nós será caminho”. Em dezembro de 1985, ela saiu, como sempre fazia, para nadar no Rio Potengi, entre o Forte dos Reis Magos e a Redinha. Não voltou mais para cuidar de seus livros amados.

Por incrível que possa parecer, a vida de Jonas ganhou mais sossego depois da falência de sua empresa, ao contrário do que se podia imaginar. Após perder todo o patrimônio que acumulara, sentia como se estivesse caminhando nu pelas ruas. Ficou pobre. Algumas pessoas que já foram pobres e depois ficaram ricas não se acostumam nunca com a nova situação. A súbita pobreza era incômoda demais para ele.

As visitas da filha agora eram agora seu único alento. As reclamações, os aborrecimentos, as farpas eram comuns nas conversas. Cândido tivera a sua vingança, repetia para ela que fingia não ouvir. Achava que o pai estava perdendo o juízo. Isso ia gerando um grande desgaste nessa relação familiar. Para piorar as coisas, Vera que sempre ficara do lado do pai, estava cada vez mais distante. Sua vida era uma farsa completa. O marido passava mais tempo com as amantes e no jogo de baralho com os amigos ricos. Seu consolo agora era só o trabalho e os filhos.

Vera estava começando a achar essa vida tola demais quando conheceu um jovem jardineiro da casa com quem iniciou um tórrido romance. Já que o marido pouco se importava, ela passou a fazer disso seu melhor modo de viver. Começou também a beber champanhe nas festas elegantes e isso virou um vício do dia-a-dia. Apesar disso ainda era respeitada como médica. Às vezes ela achava sua vida muito parecida com aquele filme com Robert Redford e Mia Farrow, qual era mesmo, meninas, perguntava gargalhando nas festas chiques. Aquele baseado no livro O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald.

Para Jonas tudo parecia tão escuro e, para piorar, soube pelos jornais que Câmara Cascudo estava doente, com problemas renais, abatido com a idade de 87 anos. Àquela altura já era um homem consagrado universalmente e idolatrado em sua terra. Ainda em vida virou nome de rua, prêmio cultural, nome de biblioteca, museu de antropologia e referência a qualquer coisa que fosse sinônimo de inteligência. Sua casa era visitada por pessoas famosas em visita à cidade (algumas deixaram sua assinatura na parede) e até mesmo por curiosos. Mas ele não resistiu por muito tempo, apesar de todos os cuidados. Faleceu de um ataque cardíaco após meses de enfermidade.

Essa foi uma péssima notícia para Jonas, que ficou deprimido como poucas vezes ficara em toda a sua vida. Mesmo assim vestiu um velho paletó preto e pediu para que a filha lhe levasse ao enterro do grande homem. Uma multidão se comprimia na frente da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. Depois o cortejo seguiu até o Cemitério do Alecrim, onde o corpo foi sepultado. Jonas ficou por ali mais tempo até que todos foram embora e depois foi visitar os túmulos de seus entes queridos. Despediu-se com respeito do homem que admirara a vida inteira, sem nunca ter lhe dirigido a palavra.

Fazendo um breve balanço consigo, e conferindo nos poucos livros que salvara da insolvência de seu patrimônio, Jonas ia percorrendo a obra do homem que tanto admirava. São dezenas de livros, alguns áridos, de difícil leitura e falta de interesse. Outros brilhantes, geniais, que fariam sua glória percorrer o mundo. A começar pelo Dicionário do Folclore Brasileiro, uma espécie de síntese de seu trabalho de pesquisador da cultura popular. Vejamos o que diz a pesquisadora Martha Abreu. “Sem deixar de oscilar entre o entusiasmo pela nacionalidade – se bem que em tom bem pouco ufanista – e a pesquisa sobre a cultura popular, Câmara Cascudo realizou uma obra impressionante, de uma riqueza inesgotável para o trabalho de pesquisa e consulta daqueles interessados pela cultura produzida pelos setores populares”.

Civilização e Cultura é o resultado de suas pesquisas como professor de Etnografia Geral da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. “As informações sobre etnologia geral reunidas nesse livro tanto são resultantes da sua experiência de professor e pesquisador – etnógrafo, como gostava de dizer, pois coletava documentação –, como também da sua performance de leitor de obras clássicas como a Bíblia, o Alcorão e uma plêiade de teóricos clássicos da área de conhecimento em questão”, afirma a pesquisadora Vânia Gico.

História da Alimentação no Brasil, um verdadeiro tratado sobre os hábitos alimentares dos brasileiros, é uma leitura de dar água na boca. “Assim foi que, de experimentos surgidos da necessidade de intercâmbio, se fez a ‘primeira’ cozinha brasileira. Unindo ingredientes, mesclando práticas culinárias e elementos de culturas distintas, a saber dos indígenas, negros e europeus, a cozinha ‘tipicamente’ brasileira desponta no cenário tropical”, diz a pesquisadora Paula Pinto e Silva.

Rede de Dormir é um exemplo clássico de como é possível escrever textos acadêmicos sem a sisudez e aridez habituais. Perseguindo as origens e funções do prosaico instrumento de descanso do brasileiro, ele executa um trabalho da mais fina erudição. “Leitor famélico e arguto, Cascudo extrai com o máximo proveito as informações desejadas das suas vastas fontes bibliográficas. Também, utiliza como ferramenta de trabalho a epistolografia, a vivência diária e informações pessoais”, nos informa o pesquisador Nássaro Nasser.

Meleagro é um mergulho vertiginoso no universo do catimbó, feitiçaria, macumba, espiritismo e candomblé. Segundo o pesquisador Roberto Motta, “Meleagro é livro fundamental para o conhecimento do folclore, da magia, da religião, e da medicina popular em nosso país”.

Eis aqui alguns poucos exemplos de uma obra que por si só já explica sua grandeza.

Depois do falecimento de Cascudo, nosso herói voltou à sua rotina e toda vez que era perguntado por fatos de sua vida mudava de assunto. Falava em política, por exemplo. Estava tudo pronto para as novas eleições. O governador José Agripino pedira licença para assumir uma vaga no Senado e assumira em seu lugar o comerciante Radir Pereira. Sua função era garantir a eleição do candidato João Faustino. Então Aluízio Alves apresentou Geraldo Melo como opção de oposição. Nem tanto assim, pois Geraldo Melo viera das bases de José Agripino como vice de Lavoisier Maia. A política potiguar começou a ganhar contornos de um grande acordo de revezamento no poder.

Depois de uma campanha acirrada, venceu Geraldo Melo, com pequena diferença de votos. Nas ruas, algumas pessoas comemoravam o fim da oligarquia Maia, sem compreender que era só uma troca de favores entre cavalheiros. As pessoas não perceberam, também, que os políticos mais poderosos estavam comprando meios de comunicação e criando uma armadilha fatal para jornalistas e a liberdade de expressão. O brilhante tecnocrata deveria ter sido a grande redenção do povo potiguar. Mas, sua primordial condição de consumado senhor de engenho falou bem mais alto.

Em seu governo deu preferência aos ricos, ao turismo e à segurança pública, marginalizando funcionários públicos do baixo escalão, como os professores de escolas públicas. Seu maior feito foi a duplicação da Ponte de Igapó. O prefeito de Natal, Garibaldi Alves Filho, um político muito habilidoso que iria alimentar o sonho de Aluizio Alves de formar sua própria oligarquia, assumiu a administração da cidade como um populista, fazendo grandes promessas de progresso. O projeto de oligarquia pode ter morrido com a impossibilidade de transformar Henrique Eduardo Alves, filho de Aluízio Alves, em uma liderança de forte apelo popular. Porém, a trajetória política de Garibaldi Alves ainda o iria levar mais longe, ao governo do Estado, ao Congresso Nacional. Em política, quem não segue as velhas lições de Nicolau Maquiavel sempre acaba se dando mal. É preciso manter o poder a qualquer custo.

20

Foi mais ou menos por essa época que Jonas recebeu a visita do jornalista Gabriel Marcos, um jovem simpático que lhe pediu uma entrevista. A princípio relutou muito, pensando em dizer não, inventou desculpas, disse que não se lembrava de mais nada, que estava cansado, mas o rapaz tinha um jeito tão sincero de falar que ele acabou cedendo. Marcaram a entrevista em um bar no centro da cidade. O próprio jornalista se ofereceu para levá-lo e Vera permitiu.

Gabriel pediu uma cerveja e Jonas um cálice de vinho. E aí começaram a falar sobre quase tudo. Jonas deixou logo claro que não dava mais entrevistas depois de uma experiência desastrosa ocorrida tempos atrás. O rapaz, porém, garantiu que queria só conversar um pouco com alguém que tinha tanta experiência, que conhecera a Natal dos tempos antigos e coisa e tal…

O fato é que depois de uma longa conversa, o jornalista o convenceu de que, na verdade, estava escrevendo um livro sobre a cidade e precisava muito de seu depoimento. Ele achou a ideia interessante e prometeu passar algumas informações para o rapaz. Foi uma tarde agradável em que Jonas sentiu que ainda valia a pena viver.

Assim passaram a se encontrar todas as semanas, sempre no mesmo dia, no mesmo horário e mesmo local. Os encontros eram sempre para tomar alguns goles de cerveja e vinho e, principalmente, falar da vida. Gabriel morava num quarto e sala na Cidade Alta e, apesar de jovem, conhecia muito da história da cidade, a ponto de sonhar escrever, qualquer dia, uma biografia da cidade. Já trabalhara em vários jornais, passara por algumas redações e encontrara sempre alguém disposto a impedir seu modo de trabalhar. O aspecto desleixado, a franqueza, aliada a uma alegria incontida, faziam dele um estorvo para as aves de rapina do jornalismo local. Um cara desses não oferecia confiança para quem pretendia descolar um troco sem observar muito bem a ética ou as formas corretas de exercer a profissão. Além do mais, Gabriel era um boêmio, um tipo em extinção no modelo de jornalismo que estava sendo implantado com a informatização dos jornais.

Nesses novos tempos tudo tinha o ritmo da indústria, da velocidade das máquinas, dos automóveis, do pensamento digital. Horários tinham que ser cumpridos com rigor. Mas em Natal, a revolução industrial ainda vivia seus primórdios. Aqui ainda se pensava em empresas como os primeiros capitalistas ingleses do século XIX. Sendo assim, não havia lugar para a criatividade. O que importava era a quantidade de horas trabalhadas, não o conteúdo do que foi produzido. Ficou mais interessante ter um medíocre burocratizado na redação de um jornal, do que um inquieto e, às vezes, mais criativo funcionário que estava sempre tendo novas ideias de como fazer melhor o trabalho.

Neste ambiente Gabriel ficou marginalizado e agora vivia fazendo bicos em pequenos jornais, nas agências de publicidade, nas assessorias de comunicação. Sempre à beira da miséria, aceitava qualquer tipo de emprego temporário. Encarava a vida de forma resignada, aceitando o que lhe era dado, oscilando entre as velhas escolas filosóficas, do hedonismo ao epicurismo. Pode-se dizer que era um sujeito relativamente feliz. Sempre sobra algum dinheiro para os livros e umas cervejas, dizia cinicamente a quem perguntava a ele como ia a vida.

No encontro seguinte, Gabriel passou a usar um bloco de anotações e depois de alguns meses já usava um pequeno gravador, o que deixava Jonas bastante encabulado. Discutiam sobre isso e Gabriel sempre acabava convencendo Jonas de que aquele procedimento era necessário para que nenhuma palavra se perdesse. Lá pelo final do ano, Gabriel teve uma grata surpresa: recebeu vários cadernos de anotações de Jonas. São meus livros de contas, sabe? Tem muito número aí, mas no meio você vai ver que são observações, lembranças, frases, coisas que você pode aproveitar no seu livro.

Foi o melhor presente que ele recebeu naquele ano. Em troca decidiu se abrir com o novo amigo. Lera em algum livro que “os comerciantes são mais sensíveis às necessidades e humores dos outros do que os poetas, músicos ou eruditos”. Contou a história triste de sua vida, de sua última decepção. Era o lançamento de um livro de Ariano Suassuna, no Palácio da Cultura, o novo nome do Palácio Potengi e ele viu aquela mulher branca, cabelos muito negros, vestido vaporoso como de uma cigana espanhola. Era uma noite quente e Gabriel resolveu sair para tomar uma cerveja e se refrescar um pouco.

Na saída passou por ela, que estava sentada em uma cadeira antiga, e lembrava uma dama de outra época. Ela sorriu e ele ficou encantado com aquele sorriso. Os dias passaram e ele a encontrou outro dia em uma livraria. Ela estava com outro vestido, igualmente vaporoso, e ele se aproximou e passou bem perto até sentir o cabelo dela roçando em seu rosto. O perfume, sim, o perfume foi a coisa mais marcante naquele instante. Ele guardou aquela fragrância em sua memória olfativa e foi para casa dormir. Mas não dormiu logo e sonhou a noite inteira com uma ópera que assistira entes de pegar no sono em seu vídeo-cassete. A ópera contava a história de uma cigana que seduz um soldado e depois o trai com um toureiro. No final ela é assassinada pelo soldado. Gabriel conhecia bem aquela ópera, mas nunca conseguia entender porque um sujeito precisa matar alguém que o despreza. Sempre haverá outra mulher, ele dizia para Jonas em suas conversas semanais.

Então, um dia ele foi comprar um jornal na banca mais próxima e quando levantou a vista ela estava do outro lado olhando as revistas. Ele sorriu e ela também sorriu. Ele a convidou para tomar um café e foi com surpresa que a viu concordando. A primeira coisa que veio em sua cabeça foi: essa mulher não é para mim. Mesmo assim ficaram conversando até altas horas da madrugada. Eles marcaram um segundo encontro no mesmo lugar e aí ele tocou seu rosto e ela o olhou com seus olhos negros de pálpebras semicerradas, como se uma nuvem cortasse ao meio a lua do olho. Então trocaram longos beijos.

Viveram a partir daí um amor estranho, de idas e vindas, de avanços e recuos, com momentos de suprema felicidade e outros de insuportável tristeza. Foi quando descobriram que eram completos estranhos um para o outro. Um dia ela chegou e disse para ele que não estava mais apaixonada (aliás, nunca estivera, tudo não passara de uma breve ilusão) e por isso deveriam acabar com aquilo de uma vez por todas. Ele aceitou a decisão, como costumava aceitar tudo em sua vida. Mas nunca mais foi feliz como costumava ser.

Jonas agradeceu a confiança do amigo e lhe deu muitos conselhos para que pudesse superar aquela história. Todos sofrem perdas no decorrer da vida, umas grandes, outras sem importância, mas o elementar é não deixar que tais perdas nos tornem mais amargos do que o suportável. Os amores vêm e vão ao sabor do destino. Todo grande poeta já falou sobre isso. Basta ler alguns livros para se consolar. Gabriel ficou contente de ouvir aquelas palavras. Sua experiência de vida lhe dava uma autoridade que só os mais velhos sabem ter. Essas conversas eram fonte de muita alegria para os dois.

Outro grande prazer era receber os netos, aos finais de semana. Os gêmeos estavam crescendo bonitos e saudáveis e isso era tudo para ele. O único tom destoante nessa quase felicidade era ver a tristeza estampada no rosto de Vera. Um dia estava lendo um exemplar do Rei Lear, de Shakespeare, presenteado por Gabriel, quando Vera entrou com a maquiagem desfeita por lágrimas. O marido pedira o divórcio. Ia morar sozinha com os filhos agora. O bom era que ela ficara com o apartamento e uma pensão. Ele estava se candidatando a deputado e ia se mudar para Brasília. Ele tentou consolar a filha, pelo menos agora você está livre para fazer o que quiser. Ela concordou enxugando as lágrimas e retocando a maquiagem e então perguntou com pesar, qual das filhas eu sou neste livro aí? Ele preferiu não responder.

Era inverno e o mato exalava um cheiro gostoso de floração por toda a cidade. Nessas horas, Jonas agradecia por ter vivido tanto. Era o meio da tarde e Gabriel chegou para levá-lo até a rua Princesa Isabel. Ele se apressou a se vestir. Não queria perder as poucas horas de conversa com o amigo Gabriel, um arcanjo que entrara em sua vida disposto a ouvir tudo que ele quisesse falar, sempre atencioso, educado, inteligente e agudo nas perguntas.

Bem diferente dos poucos jornalistas que conhecera. Bom sujeito, esse Gabriel, pensava Jonas enquanto tomava um copo de água de coco bem gelada e via o amigo secar mais uma garrafa de cerveja. Por que bebem tanto, esses jornalistas? Dava conselhos ao rapaz, se você quer vencer em Natal, precisa ser mais esperto, Gabriel, não pode demonstrar que sabe muito, nunca, isso assusta os gaviões que estão acima de você. Mostre apenas que é sabido, matreiro e nunca, jamais, fale em princípios. Seja absolutamente sem escrúpulos, essa é a única linguagem que conhecem. E, principalmente, comece a aprender a bajular. Somente dominando a arte da bajulação é que você poderá conseguir os grandes cargos. Conviva com os poderosos, e finja sempre gostar dos que eles conversam, mostre interesse pela política de bastidores, das picuinhas, dos golpes baixos. Esteja sempre disposto a vender a própria mãe. Não, não, você é bom demais para isso, meu rapaz.

Gabriel ouvia a tudo rindo e repetindo baixinho, mas eu não quero vencer, Jonas, não quero vencer, quem disse que eu queria? Olhe, Jonas, tem muito jornalista decente em Natal, sabia? Sei, sei, pessoas decentes não gostam muito de aparecer. Gabriel ria, você precisava ter conhecido a jornalista Myriam Coeli, ela não é da minha geração, mas já ouvi falar muito dela. Foi boa poeta também, sabe? Olhe, vou recitar uns versos: “Mungubeira tece tapete no chão. De flores, o fio, tecido no estio, sabendo a canção”. Gostou? Singelo. Estão acabando com as mungubeiras de Natal. Essa moça tinha brio. Você diz que gosta de poucos romancistas potiguares, né? O que acha de Eulício Farias de Lacerda? Acho bom, principalmente do romance O Rio da Noite Verde, tem inventividade, equilíbrio, mas padece da influência dos regionalistas, da presença forte de João Guimarães Rosa. Não tem culpa disso. Muitos escritores brasileiros sofrem com isso. Gosto também de Cabra das Rocas, de Homero Homem, e também de alguns poemas que falam de Natal. E assim ia escoando aquela tarde natalense, uma entre tantas que se perderam no tempo.

Depois de conversar com Gabriel, o que Jonas mais gostava era caminhar pelo centro da cidade, observando as mudanças, vendo o velho ser substituído pelo novo. Eram momentos de grande paz e felicidade, em que as mágoas do presente eram facilmente esquecidas. Apesar de tudo, vivia a velhice com resignação. Lera Sêneca o suficiente para saber que nada era mais importante que a serenidade.

Olhando para trás, a vida parecia uma longa estrada percorrida em pouco tempo. Já lera Shakespeare o bastante para tirar alguma experiência disso. Os ardores da juventude, o amor que os jovens transformam em superlativo, só compreendera depois, lendo os exageros de Romeu e Julieta. A capacidade que os jovens têm de fazer um grão de areia virar uma tempestade no deserto. E aquela vocação para a tragédia, quando este amor é contrariado. A idade traz sabedoria, mas destrói a beleza do corpo. Este foi o supremo castigo do criador. Aos jovens ficou a obrigação de agir, de tomar decisões drásticas, quando poucos sabem tomá-las. Aos velhos ficou a obrigação de compreender e perdoar esse desejo de ação. Veja que esta lição está também nas obras do Bardo. Nem mesmo a extraordinária inteligência de Hamlet fora suficiente para salvá-lo do final trágico. Afinal, todas as situações definidoras do caráter humano estão nessa grande obra.

O verão chegou com a novidade das primeiras eleições diretas para Presidente da República. Deus do céu, quem poderia imaginar o poder da televisão? Uma série de reportagens mostrando o jovem governador de Alagoas, Fernando Collor de Mello, em sua suposta caça aos marajás do serviço público, foi o suficiente para alçá-lo à condição de forte candidato. Um sujeito sem qualquer tradição de luta política. O país teria que adiar seu sonho de estabilidade e da possibilidade de ter um governo de esquerda para viver dias de horror.

O candidato derrotado foi o sindicalista Lula, que foi simplesmente massacrado na televisão, vendo sua vida privada ser mostrada em público sem nada poder fazer. Collor de Mello assumiu o governo pouco depois e, no dia seguinte à posse, infligiu ao país o mais covarde confisco de que se tem notícia em nossa história recente. Muita gente foi pega de surpresa. Quem tinha algum dinheiro na poupança ficou na mais completa miséria da noite para o dia. Mas os amigos do presidente foram avisados com antecedência e muitos ficaram milionários.

Todo dia Jonas ligava a televisão e ficava aguardando as últimas notícias. Agora o cenário político se complicara: Aluízio Alves trouxe para suas hostes o tio do antigo adversário, e seu candidato ao governo era ninguém menos que Lavoisier Maia. Ora, montado na insatisfação popular para com o governo Geraldo Melo, o matreiro José Agripino se preparava para mais uma vitória esmagadora. Foi o que aconteceu nas eleições, e no ano seguinte assumiu seu segundo mandato no governo do Estado. Fez uma administração idêntica à anterior, sem grandes novidades e assim caminhou a humanidade por estas latitudes. Acontecera um fato inusitado: uma mulher assumira pela primeira vez a prefeitura de Natal. A professora Wilma Maria de Faria, que surgira como secretária de José Agripino, fora casada com o ex-governador Lavoisier Maia. Agora despontava como uma surpreendente liderança no cenário político potiguar. Parlamentar brilhante e dona de estilo bem pessoal na administração dos negócios públicos, ela mudaria de uma vez por todas a face da luta pelo poder no Estado, embaralhando ideologias, enganando velhas raposas como Aluízio Alves, José Agripino e todo aquele que atravessasse seu caminho.

No campo da cultura, a cidade passara por altos e baixos desde sua efervescência maior nos anos 60. Muitos artistas surgiram e desapareceram na voragem dos dias. O ator Jesiel Figueiredo marcou a história do teatro natalense com sua trupe sediada em um pequeno palco, no Alecrim, antes de ser colhido por uma morte trágica no trânsito. O artista plástico Assis Marinho enterneceu a cidade com suas imagens de santos e pescadores de olhos tristes. O pianista Oriano de Almeida morreu esquecido no Hotel Sol sem que o povo conhecesse sua genialidade. As poetisas maiores e menores cantaram suas dores de amores. Os poetas maiores e menores cantaram a cidade de formas variadas. Muitos foram aplaudidos por poucos ou apedrejados por alguns. O povo potiguar insiste em brilhar como uma gema de ovo ao sol, uma fatia de jerimum fumegando sobre a mesa, uma estrela branca no azul do mar. Mas ninguém presta muita atenção no resto do Brasil.

O Brasil do sudeste, o Brasil que dera certo, preferia ignorar o valor daquela gente simples. Natal era só um balneário, bom para passar uns dias à beira-mar, quando os turistas passavam a caminho de Fortaleza. Bonita, mas sem graça, sem qualquer atrativo além das belezas naturais. Perguntado sobre o que achava da cidade, quando esteve em Natal para dar uma palestra, o escritor Carlos Heitor Cony foi sincero: “É uma cidade sem livrarias”. Pobre Natal. Suas poucas livrarias haviam se transformado em papelarias, especializadas em livros didáticos. Uma ou outra ainda tentava resistir, oferecendo boa literatura para um pequeno, porém fiel, público de letrados. Algumas delas eram Cooperativa Cultural da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e a Potylivros. As obras de Cascudo quase que desapareceram das prateleiras. Vez ou outra, uma editora de grande porte ou a editora da universidade editava um livro mais famoso do mestre. Aqui e acolá, um jornalista de grande jornal do sudeste tentava diminuir sua importância. Eram declarações de perversidade inútil. Os verdadeiros estudiosos da cultura brasileira continuavam respeitando-o, colocando sua obra no lugar certo.

Não foi com alguma surpresa que Jonas viu um programa especial na televisão, com o músico Chico Buarque, no qual dizia que lera muito Câmara Cascudo para compor algumas das suas mais belas canções. Mas aos poucos Natal ia esquecendo seu grande escritor. O velho comerciante observava a tudo isso sem ilusões. Natal é assim mesmo, dizia, “não consagra nem desconsagra ninguém”.

O período seguinte na cidade foi embebido em forte religiosidade devido à inusitada visita do papa João Paulo II a Natal. Só a notícia de que tal acontecimento estava para se realizar já deixava toda a população católica em sobressalto. Mesmo quem não era muito religioso, como Jonas, acabava se contagiando com tanta euforia. Esta deve ter sido, pelo menos, a segunda vez, depois da Segunda Guerra, que Natal figurou novamente no mapa do mundo. Para alegria dos religiosos, o Papa viria mais uma vez a Natal na década seguinte. A cidade sempre fora um centro irradiador do catolicismo no Brasil.

Logo no início do ano, o governo Collor lançou um segundo plano econômico visando estabilizar a economia. Outro fracasso retumbante. Foi a partir daí que começou a perder a popularidade. Não tinha mais o respaldo da maioria dos políticos, como antes, e não cumprira as promessas de acabar com a inflação e implementar o desenvolvimento. De uma hora para outra seu nome começou a ser vinculado a escândalos como tráfico de influência e corrupção. O nome de um sujeito obscuro, que era uma espécie de secretário particular do presidente, PC Farias, começou a ganhar as manchetes dos jornais. Era um camarada que, supostamente, percorria o país em seu jatinho apelidado de Morcego Negro, portando uma misteriosa maleta para negociar propinas com importantes políticos do país. Contam as más línguas que o funesto avião teria pousado, pelo menos uma vez, no Aeroporto Augusto Severo, em Parnamirim. Mas, isso não quer dizer nada, não é, gente? Não significa que nossos políticos são corruptos. Jonas procurava ironizar a situação para divertimento dos netos.

A imagem do presidente, um desequilibrado mental completo, foi se desgastando com o passar dos meses. Coisas escabrosas iam sendo divulgadas pela imprensa, incompatíveis com o cargo que ele ocupava. Ninguém conseguia perdoar um sujeito que avançara sobre a poupança de grande parcela da população, que não resolvera a questão dos marajás, que não domara a inflação, que não resolvera o problema da economia. As pessoas nem paravam para pensar nos pontos positivos, na modernização do país iniciada por ele. Não, todos só conseguiam ver as festas escandalosas na Casa da Dinda, os olhos esbugalhados do presidente e as mentiras escancaradas. Em meados de 1992 foi desencadeado o processo de impeachment de Fernando Collor. Depois de muita pressão dos parlamentares, do clamor popular, ele pediu a renúncia. Assumiu no seu lugar o apagado Itamar Franco, um político mineiro oportunista que pulara do barco antes dos ratos.

Foi um ano cruel, em que começaram a ser notificados em Natal os primeiros casos de cólera. Mas como, depois de séculos, essa doença medieval desembarcou no mundo moderno? Ninguém sabe explicar direito. O fato é que algumas pessoas redobraram os cuidados com a higiene dos alimentos. Nem todos, pois Firmina e Florentino foram os primeiros a apresentar os sintomas da doença. Todas as providências foram tomadas, o casal foi imediatamente internado, medicado, mas a idade já avançada não lhes deu muita chance. Depois de uma noite de agonia, Cândido foi informado pelos médicos que ambos haviam falecido, um após o outro, sem muito sofrimento. Mais um duro golpe em sua vida. Jamais imaginara perder assim os pais, de uma só vez. E uma coisa que muito lhe perturbou foi ver Jonas chorando ao lado do caixão amparado pelo velho amigo Ciço. Para ele, o maior consolo era saber que os dois se amaram muito e ficaram juntos até na morte, viveram um amor em tempo de cólera. A vida lhe pareceu bastante amarga depois disso. Mas o destino ainda lhe proporcionaria uma grande surpresa.

Depois de meses de luto, Cândido estava deitado em uma rede no alpendre, quando viu chegar um carro e descer uma mulher. Era Vera, que chegava elegantemente vestida de preto. Ela, que nem fora ao enterro dos velhos. Chegou, puxou uma cadeira e ficou ao seu lado sem falar por um longo tempo. O narrador vê essa cena como uma imagem que se distancia, e por pudor ou respeito, não quer ouvir o que foi conversado ali, depois que a mulher foi se debruçando sobre a rede e os dois trocaram um longo beijo. Não queira, caro leitor, entender os caminhos complicados que tomamos na vida. Aqui está uma cena que mostra a vida como ela é. Sem os recursos do fantástico nem do absurdo.

Os dois passaram a se encontrar quase todos os dias e era como se o reencontro do amor fosse uma centelha de luz nos dias turvos que atravessavam. Nesses momentos de grande paixão e fervor sexual eles nunca falavam sobre os problemas do passado. Estavam ali para celebrar seus corpos e seus sentimentos, como se estivessem cobrando da vida o que ela lhes devia. Jonas nunca soube deste relacionamento.

Os tempos, porém, não trouxeram só as delícias do amor, trouxeram também as desgraças. Foi a época da implantação do Plano Real pelo governo de Itamar Franco, que ficara marcado por fatos folclóricos e não apenas pela modernização do país, privatização de estatais, reforma administrativa e combate à sonegação de impostos. O que mais ressaltou foi a volta do velho fusca às ruas e estradas brasileiras e a fotografia do presidente ao lado de uma certa modelo, no carnaval do Rio de Janeiro, em que a moça mostrava muito mais do que permitia o decoro presidencial.

Em Natal, as coisas caminhavam calmas. Sob a administração de Wilma de Faria, a cidade ganharia um toque feminino, com a criação de jardins nos principais pontos. Jonas já estava andando com alguma dificuldade, precisando do auxílio de uma bengala e não podia ver todas as mudanças. No entanto, gostava de olhar os canteiros bem cuidados quando passava de táxi pelas ruas na companhia de Gabriel. No abrigo, se deleitava ouvindo um cassete com chorinhos escolhidos de K-Ximbinho, presente do amigo jornalista que garantia, este você pode escutar com gosto, é massa!

Numa dessas vezes em que estivera conversando com Gabriel, disse, sabe, rapaz, você é o filho que não tive. Frase que deixou o jornalista bastante encabulado, pedindo mais uma cerveja e tossindo para esconder a emoção. Que é isso, Jonas, eu bebo e você é que fica melado! Havia um elo de admiração, indiferente ao abismo do tempo, que ligava os dois homens. Aliás, nessas horas pareciam ter a mesma idade, conversavam as mesmas coisas, gostavam das mesmas coisas, quase um século os separando. Olha, Gabriel, você não devia perder tempo com pessoas como eu. Se você quer ser mesmo um bom escritor, mire-se em autores como Jorge Amado. Ele escolheu escrever para o povo e sobre o povo. Pegue, por exemplo, a vida de uma pessoa como a comadre Dalila, aquela que vendia ginga com tapioca no mercado da Redinha. Viveu boa parte deste século e acumulou muitos conhecimentos sobre a vida de pessoas simples, pescadores, carpinteiros, aguadeiros, bêbados… Essas pessoas é que dão boas histórias, Gabriel. Mas ninguém foi lá conversar com ela, fazer anotações. Toda essa riqueza se perdeu. São pessoas assim que rendem bons personagens. Foi com uma cozinheira que Jorge Amado fez sua obra-prima. É, Jonas, você tem razão nisso, tenho remorsos por não ter despertado cedo para este fato. Outro dia estava lendo um belo livro de Patrick Chamoiseau intitulado Texaco. E ele dizia que não admitia que se falasse mal de Jorge Amado na sua frente, uma mania dos intelectuais brasileiros. O escritor caribenho não admitia isso. Mantinha um profundo respeito pelo escritor baiano e sua opção por escrever fácil, aplainando o caminho para que as pessoas comuns pudessem ler o seu texto. Os esnobes, os acadêmicos de planto, queriam que ele escrevesse de forma mais culta, como muitos escritores brasileiros estavam fazendo naquele momento. Não, não pode ser assim. O escritor precisa escrever o que mais lhe toca o coração, cada um a seu modo.

Eram tardes inteiras de boa conversação que deixavam Jonas satisfeito, feliz, indiferente às notícias que enchiam os jornais. O assunto do momento era a política. O presidente Fernando Henrique Cardoso foi eleito na onda do Plano Real, que ajudara a montar como ministro de Itamar Franco, derrotando o candidato Luís Inácio Lula da Silva. O governador José Agripino havia se afastado para concorrer a uma cadeira no Senado, assumindo o vice, Vivaldo Costa. A oposição apresentou o nome de Garibaldi Alves Filho contra João Faustino. Desta vez, o projeto de Aluízio Alves de montar uma oligarquia no Estado chegou perto de se concretizar com a vitória de seu sobrinho. Seu plano era preparar o filho Henrique Eduardo Alves para a sucessão, colocando-o na prefeitura de Natal. Garibaldi Filho assumiu com esta missão, mas acabou trabalhando para sua própria reeleição, pois Henrique Alves foi derrotado pelo candidato de Wilma de Faria, o obscuro engenheiro sanitarista Aldo Tinôco.

A partir deste ano Jonas parou de sair de casa. Suas pernas já não aguentavam longas caminhadas, escadas, obstáculos urbanos. Todos os dias, como um anjo, Gabriel pegava um ônibus e ia visitar o amigo no abrigo. Foi aí que a amizade dos dois ficou mais forte do que nunca. Eram horas e horas de conversa, café e água. O mundo lá fora tinha pouca importância para o trabalho que estavam realizando. Remontar a vida de alguém a partir de depoimentos nem sempre é uma tarefa muito fácil. Muitas lacunas vão se abrindo no decorrer do tempo e o escritor, às vezes, perde o caminho no meio do labirinto. Nem todo mundo tem o talento de Proust, para contar uma história interminável, sem perder nunca o fio da meada.

Nos finais de semana, Jonas continuava recebendo a visita da filha e dos netos. Bom mesmo era quando o compadre Ciço vinha com a mulher. Aí era uma festa, horas e horas de conversas, lembranças e risadas. O amigo gostava da companhia daquele velho índio de cabelos grisalhos que perdera tudo, mas continuava ainda altivo. Valeu a pena ter servido a um homem assim por tanto tempo. Ele ainda apresentava um aspecto bom, apesar da idade. Estava magro, e suas mãos ossudas repousavam sobre os joelhos, enquanto lançava o olhar ao longe, parecendo ver algo que ninguém conseguia ver. Talvez avaliando os seus muitos erros, seus pecados cometidos em nome da ganância, do egoísmo, seus crimes. Estava ainda com a visão perfeita, lia sem dificuldades desde que houvesse claridade suficiente. Os problemas de saúde eram os corriqueiros, reumatismo, tontura, uma certa fraqueza no andar. No mais estava bem. Ia tocando o barco da vida, dizia sorridente ao compadre.

De vez em quando sentia uma tristeza inexplicável, a qual creditava à ausência dos amigos, dos parentes, de Mara… Um dia, estava deitado em sua cama escutando o rádio, quando Vera entrou subitamente. Estava mais magra, mas bonita, a pele parecia uma seda. Ela disse que havia parado com a bebida e as festas, estava mais calma agora, cuidando do trabalho e dos filhos e voltara a ler, um costume que aprendera com o pai. Aí ela olhou para a parede e viu um cartaz colado abaixo do retrato de sua mãe que dizia: “Escutai, ó céus! Atenção, terra, é o Senhor quem fala: Filhos, fiz crescer e prosperar, eles porém, se rebelaram contra mim”. O que significa isso, papai? Perguntou nervosa. Ele respondeu calmamente, é uma frase do profeta Isaías que eu pedi para Gabriel imprimir com o tal de computador, essas coisas podem ser feitas em minutos, sabe filha? Ela parecia não ouvir mais nada. Seu rosto ficou transtornado, os lábios trêmulos… Saiu em prantos.

Quando Gabriel chegou, mais tarde, o encontrou bastante triste, abatido, mas não comentou nada com o amigo. Sabe, Jonas, ser artista nem se fala, mas ser jornalista em Natal é uma maldição. Todas as empresas de comunicação foram criadas para serem meras plataformas políticas de um grupo qualquer, seja empresarial, seja familiar. Então, não existe profissionalismo. A maioria esmagadora é paga miseravelmente para que fique à mercê dos aproveitadores. A saída é tentar vender a força de trabalho ao Governo ou entrar para alguma assessoria de imprensa. Os mais espertinhos usam suas colunas para obter algum proveito, sempre em troca de favores. São os traficantes de influência que acabam se dando bem no jornalismo potiguar. Preste atenção que todos eles são seguidores de algum político importante. No final, a grande vítima é a verdade, a liberdade de expressão. O público é diariamente enganado e não sabe de nada. Acha que está comprando informação de qualidade, porque o pacote todo é bem apresentado. Esta é a grande piada. Por isso, as oligarquias se revezam no poder, sem ninguém para enfrentá-las, você sabia disso? Não. Pois é, e eu não quero entrar neste jogo. Eu não sigo nenhum político. Sou livre para dizer o que eu quiser, mas pago um preço muito alto por isso.

Depois do desabafo Jonas perguntou ao amigo, por isso você vive assim tão mal? É. Por que não sai daqui e vai tentar a sorte no sul? Porque não tenho ambição, gosto desta fazenda iluminada, deste fim de mundo, desta província de merda, e além do mais adoro essas praias. Mas você nem vai à praia! Gosto de saber que elas estão aí, bem perto. Você é um sujeito esquisito, Gabriel. Você também. A conversa parecia estar esquentando, mas aí eles caíram na gargalhada e tomaram mais uma xícara de café.

Nesses encontros, um dos dois sempre tinha um livro, uma novidade para ser lida, um trecho interessante, uma frase, um verso. A literatura era um rio de água transparente em que se banhavam por mero prazer, nunca por vaidade ou soberba. Olha, Gabriel, a arte é um mistério. O que teria acontecido se o amigo de Kafka tivesse seguido suas ordens e queimado seus livros? A humanidade seria um bocado mais pobre. Imagine o que se perdeu com o incêndio da biblioteca de Alexandria. Não quero nem pensar nisso. Pois é, eu olho para imensidão dos tempos e fico imaginando quantos escritores se perderam ao sabor das chamas. É, Jonas, mas muitos se perderam por que eram ruins mesmo, não tinham talento. As prateleiras das bibliotecas estão abarrotadas deles. Escrever um livro é como um artesão manipulando materiais para construir um objeto. Por um motivo, que pouco sabemos explicar, alguns destes objetos viram arte e outros não. Quando os egípcios estavam preparando as tumbas de seus soberanos, sabiam que estavam fazendo arte? Quando os etruscos criavam seus vasos para guardar azeite, o que estavam fazendo? Quando Benevenuto Celini estava confeccionando seus saleiros de ouro, sabia que estava fazendo arte? E assim vai. Os conceitos de arte mudam com o passar do tempo. Quando alguém escreve frases sentimentais, comentários sobre o tempo, dinheiro, diversão e coloca em forma de versos, pensa que está fazendo poesia. Na maioria das vezes, não passam de anotações pueris, pensamentos de adolescentes, sem qualquer valor literário. Mas muitos gastam toda sua energia para ver isso publicado. É uma questão de vaidade, de satisfação pessoal, então que seja feita sua vontade.

Para analisar isso existem os críticos, os leitores especializados, que sabem separar o joio do trigo. Depois vem o tempo e depura tudo. E aí, só permanecem os melhores. Infelizmente para muitos, essa é a realidade. Espere aí, Jonas, replicava o amigo, existem os autores que nunca serão bons, outros que são ruins, mas que mudam com o passar do tempo e ficam melhores. Existem os que já nascem bons, como Rimbaud, Shakespeare, Dante. Esses são os gênios e a genialidade é um fenômeno que não tem explicação lógica. O problema é que muita gente quer fazer arte sem o conhecimento que se exige para isso. Ninguém quer passar pela dolorosa fase do aprendizado com os erros para chegar a dos bons resultados com os acertos. Picasso aprendeu, antes, toda a técnica do desenho e da pintura para poder transgredir e mostrar seu gênio. Shakespeare conheceu primeiro todos os segredos do palco antes de criar um mundo. Beethoven estudou cada nota antes de preparar suas sinfonias. Veja bem, Jonas, mas aí vem Mozart e começa a compor desde menino e aí tudo se complica… Era aquilo que eu estava tentando lhe dizer: genialidade não tem explicação.

Assim eram as conversas que ambos teciam no meio da tarde, feito as malhas de uma rede de pesca que não tinha previsão para terminar. Para Jonas, isso era um dos bons bocados que a vida lhe reservara na velhice. Nem mesmo as notícias na televisão provocavam mais qualquer emoção. Fernando Henrique Cardoso fora reeleito presidente da República derrotando Lula. E aí o velho Jonas começou a achar que não veria um operário no poder. No Governo do Estado, a cena de repetiu e Garibaldi Filho foi reeleito. Quando alguém perguntava a Jonas o que achava daquilo tudo, dava com os ombros, tanto faz. E seguia em frente.

Quando ele sentiu mais profundamente o peso da idade, chamou os netos que já eram rapaz e moça, em plena beleza da juventude, para uma conversa. Vera escutava ao lado. Jonas olhou no fundo dos olhares inquietos dos jovens e disse, vocês já ouviram falar em botija? Eles riam achando que era mais uma história extraordinária que o velho queria contar. E era. Quando menino, meu avô me contou uma história incrível sobre botijas, sabe? Era a história de uns náufragos que enterraram tesouros ao redor de Natal. Pois bem, mas isso não vem ao caso agora. Quero que vocês prestem em atenção no que lhes dizer. Nunca acreditem em estórias de botija. Elas são uma maldição e desgraçam as vidas de todos que têm o azar de encontrar uma. Os jovens se entreolharam rindo e silenciosamente acharam que o velho estava ficando biruta mesmo.

Jonas dormiu profundamente naquela noite, fato raro em sua vida recente, nem mesmo conseguiu se lembrar, na manhã seguinte, do que sonhou. Sentia-se feliz, realizado, dono de seu destino. Mas faltavam ainda algumas coisas para resolver. Esperou Gabriel chegar à tardinha e o convidou para uma xícara de café. Disse, olhe, rapaz, não aceito recusas. Será como uma ofensa para mim. Quero que você escreva um livro com a minha história e não esconda nenhum segredo que vou lhe contar. Você vai encontrar um editor interessado em publicá-lo aqui mesmo em Natal. Este livro não interessa ao resto do Brasil. É só para o povo potiguar mesmo. Depois, meu filho, saia desta cidade. Vá ganhar a vida em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Lá você será valorizado, aqui você nunca será nada. O jornalista pensou estar ouvindo o Réquiem, de Mozart.

Gabriel saiu do abrigo quando a noite começava na cidade dos Reis Magos. Pegou vários ônibus e ficou bebendo pelos botecos da cidade até o dia amanhecer, celebrando a despedida. À sua frente olhava as letras daquele calhamaço que trazia em uma pasta e elas dançavam ao sabor das lágrimas. Nunca ninguém fora tão decente com ele como aquele velho. Dormiu com uma puta num cabaré de Capim Macio e acordou com o sol que entrava por uma fresta da telha. Pegou mais um ônibus e foi direto à rodoviária comprar uma passagem para São Paulo, não tinha dinheiro para a passagem de avião. Passou pelo jornal e pediu as contas, deixando o diretor embasbacado sem saber ao certo quais os motivos. Depois foi visitar um editor que conhecia há tempos e mostrou uma cópia do livro que mandara imprimir numa copiadora da Rua Princesa Isabel. Saiu de lá com um sorriso no rosto e o sol parecia mais brilhante, as nuvens mais brancas e o céu mais azul. O vento sacudia seus cabelos e a Avenida Rio Branco parecia mais bela naquele dia, apesar de seus prédios feios, fachadas falsas e vestígios de árvores arrancadas. Então ele decidiu ir até Ponta Negra para ver o Morro do Careca pela última vez. Quando o ônibus partiu, ele não viu a cidade se afastando na distância. Dormia a sono solto.

Gabriel soube depois, através de telefonema, por um amigo, que um jornal natalense mandara alguém entrevistar o alquebrado Jonas, em seu quarto no asilo, pelo século de vida. Ficou sabendo também que ele despachara o repórter com um recado curto: procure Gabriel, ele sabe mais sobre minha vida do que eu mesmo.

Os dias foram passando lentamente para Jonas, como se adivinhassem o prenúncio de uma etapa que se encerra. A velhice pode ser uma coisa triste para quem vê e seus achaques podem ser um aborrecimento extra para quem a vive, mas é também algo que merece sua dose de alegria pela certeza de que o tempo transcorrido não foi nada diante da eternidade que permanece inalterada. Apenas o corpo denota suas marcas de deterioração enquanto a alma se regozija em sabedoria e resignação diante da morte inexorável para todos. Assim ele foi entrando nos seus 100 anos de vida, sem se preocupar muito com o amanhã. As árvores, os bichos, a felicidade de poder continuar lendo ainda, além do convívio com a família, todas essas coisas eram bastante para ele. Os dias para trás e para frente eram os mesmos vividos ou por viver. O quinhão de amor que a vida lhe deu fora suficiente. Assim como o sofrimento, a dor e a alegria de alguns momentos seriam o somatório ao final de tudo.

Poucos dias depois, o velho chamou o compadre Ciço e pediu um favor. Diga a Cândido que eu o perdôo, eu teria feito o mesmo que ele. O amigo disse que daria o recado e saiu triste do abrigo naquele dia. Sabia que o fim estava próximo. Ele mesmo vivera um bom quinhão desta vida, toda ela na mais absoluta pobreza e nunca pedira nada a ninguém.

O velho Jonas completara seu ciclo de sanidade e ameaçava partir deste mundo com algumas manchas em sua biografia que se confundia com a história da cidade. No fim das contas, o saldo até que não era dos piores. Descontando tudo, quem se importa? Tudo estava consumado, o último dos guerreiros potiguares atirava seus apetrechos de guerra ao fogo. Não restava mais nada a dizer. Mesmo assim, em seu último segundo de vida, sussurrou algo que só as paredes do quarto ouviram. Uma nesga de luz da lua vazava pela fresta da janela. Que noite… Seu corpo magro parecia flutuar sobre as nuvens em suave repouso. Aquela longa vida se encerrava ali como uma frase perdida de um livro clássico da antiguidade. “Um sono de plumas cerrou seus olhos, e suas pálpebras se fecharam para a noite eterna”.

Ponta Negra, Natal, outubro de 2003.

3 respostas para Cidade dos Reis

  1. Pingback: Os números de 2010 | Feriasnoinferno's Blog

  2. Eneas disse:

    “Vão darem, porra!”
    Parabéns frescão, que Vicente ou qualquer cupincha dos Alves não leiam isso, se não estarás na rua de novo. Um abraço.

  3. De nada vale ouro, incenso e mirra se nenhuma estrela me leva ao coração do Rei – desta cidade.

    Nem sabia que você tinha blogue.
    Bjs!

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