Rascunho 17

 

Homens

 

O primeiro a reagir ao ataque a Helena foi Heitor: Vou sangrar esse filho da puta em praça pública, vou espalhar suas tripas pela rua da cidade, só não vou beber o sangue desse desgraçado porque o sangue dele é de satanás! Assim, de olhos esbugalhados, Heitor falava para o nada… Para as palmas da macambira… Para os galhos secos da algarobeira… Para os ruminantes no curral… Ele riscava a faca no terreiro levantando poeira e seus olhos soltavam faíscas.

Páris foi mais comedido: Vou denunciá-lo em todos os jornais, rádios e TVs desse Estado de merda. Ô lugarzinho nojento esse em que vivo, meu Deus! Quero ir embora logo dessa porra! E seu inconsciente disse, quero ir embora logo daqui com Helena.

Padre Agostinho ajoelhou-se diante da imagem crucificada, ensangüentada e violentada de seu semi-Deus e rezou, rezou com fervor para afastar aquele ódio que lhe subia pela garganta. Para afastar aquele desejo de assassinato que lhe subia pelos punhos e lhe dava vontade de esganar. Rezava também para afastar aquele desejo insuportável que subia de suas entranhas.

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Rascunho 16

 

 

Criação

 

A mulher é o pilar da criação. Sem ela não há humanidade. Nas culturas antigas, a mulher sempre manteve uma posição de primazia diante do homem. Ela é a deusa da fertilidade, a sacerdotisa, a mantenedora da família primordial. O homem apenas caça. Mas no auge da antiguidade, quando as religiões masculinas ganharam o poder, a mulher foi relegada ao segundo plano. Nem mesmo o marianismo teve forças para a recolocar no lugar de direito. A mulher é o princípio do prazer e da dor. Sua fragilidade é sua força.

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Rascunho 15

 

Tragédia

 

“Hei de falar punhais, mas sem usar nenhum!” Foi com este verso de Hamlet que Helena acordou na manhã seguinte após o assédio. Foi então que ela lembrou que tinha ali, bem à mão, o livro A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca, de L. S. Vigotski. Ela abriu na página marcada com uma gravura representando um provável William Shakespeare e leu:

“Em toda a tragédia por trás do frenético turbilhão de paixões humanas, de impotência, amor e ódio, dos quadros de ardentes aspirações e fracassos, percebemos o eco distante de uma sinfonia mística que nos fala do antigo, do íntimo e do entranhável. Fomos arrancados do círculo como outrora o foi a Terra. A dor está nessa eterna separação, no próprio ‘eu’, no fato de que eu não sou tu, de quem nem tudo está a meu redor, em que tudo – o homem, as pedras, os planetas – está só no imenso silêncio da noite eterna. E por mais que qualifiquemos, de forma direta e imediata, como destino ou caráter do herói a causa do estado trágico, chegaremos de qualquer modo às fontes desse estado:ao isolamento infinito e eterno do ‘eu’, à constatação de que cada um de nós está infinitamente só”.

 

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Rascunho 13

 

Assédio

 

Depois de passar algumas noites mal dormidas numa rede estendida numa das dependências da delegacia, Achiles Staraci decidiu alugar uma residência nas redondezas da cidade. Escolheu uma casa bonita, avarandada, que dava para uma lagoa de médio porte bem próximo do centro, no caminho de uma das saídas da cidade, serra abaixo.  A visão que ele tinha dali era uma das mais privilegiadas para quem mora num altiplano em pleno sertão. Foi ali que ele resolveu receber a visita intimada de Helena Ramos para uma conversa mais séria sobre os boatos de envolvimento dela com o bandido Heitor dos Prazeres.

Ela chegou ao meio da tarde e foi recebida com um sorriso gélido e um copo de suco de cajá. Que calor é esse? Foi a primeira frase proferida pelo delegado, uma pergunta retórica a qual ela respondeu mentalmente, é o aquecimento global.  Mas ele foi direto ao assunto. Queria saber se era verdade mesmo que ela andava se encontrando com aquele malfeitor e em que local, precisamente. A resposta dela foi calma e fria. Sua vida sexual não era da conta de ninguém e não tinha interesse de revelar os locais que visitava, pois como cidadã tinha o direito de ir e vir.

Isso provocou em Staraci uma fúria que foi subindo do estômago para a garganta como uma convulsão, uma ânsia de vômito. Ela ficou olhando para aquela explosão de fúria calmamente, como se observasse uma experiência científica. Depois de algum tempo ele se acalmou e perguntou se ela acreditava nos poderes da lei. Sim, ela acreditava sim. Mas já havia lido suficientemente A Última Década de Tito Lívio, do grande Maquiavel, para saber dos limites entre os poderes e deveres do Estado.

Aquela guinada filosófica, intelectual, de Helena, foi como alguém soltar uma brasa na língua do delegado. De repente ele mudou a expressão de fúria para algo mais sutil. Um leve baixar de sobrancelhas, um brilho mais intenso nos olhos com a língua passando suavemente pelos lábios anunciou nova catástrofe. A senhora por acaso obedece a alguma coisa, a senhora de alguma forma teme a providência divina.

A mudança de tema pegou Helena de surpresa. Ali ela queria discutir tudo, menos religião. Olha, seu delegado, se o senhor me chamou aqui para discutir teologia, vá me desculpando, mas prefiro falar nesses assuntos com padre Agostinho. Isso ela disse sem tirar os olhos dele e já esboçando um movimento de saída. Foi aí que ela viu uma mão pesada como aço se fechar em torno de seu pulso. O gesto veio acompanhado de uma profusão de palavras de baixo calão do tempo, então, sua putinha, você só gosta de bandidos e de padres, né? Pois então venha provar de um homem de verdade.

Ele foi soltando essas palavras e a arrastando para o quarto onde ela foi atirada na cama de sopetão e ele foi arrancando suas roupas com força, rasgando-as em alguns pontos . Helena estava vestida com uma fina blusa indiana mostrando o sutiã por baixo e saia do mesmo estilo. Aquilo se rasga muito fácil, pois em poucos segundos ela já estava quase completamente nua, só de calcinha e aquele homem forte deitado pro cima tirando suas próprias roupas e arremetendo entre suas pernas.

Foi nesse momento que ela percebeu todo o perigo que estava correndo e lançou de uma estratégia antiga, quando havia passado por momento semelhante no alojamento da faculdade. Parou de se debater, abriu bem as pernas e ficou estática, esperando o ataque final, dura e fria como um cadáver, olhando fixamente para o rosto de seu agressor e dizendo, é assim que você quer? Então tome, sou toda sua! Você gosta de boneca inflável, seu bosta? Então aqui está uma! Isso funcionou com uma balde de gelo na libido do delegado.

De repente ele percebeu que o fraco ali era ele, não aquela mulher indefesa. De repente ele percebeu que seu cargo não condizia com aquele tipo de atitude. De repente ele lembrou que era um homem puro, exemplo máximo de sua congregação religiosa. Aí tudo parou, o tempo parou, o ar ficou rarefeito. Ele se recompôs, esperou que ela se vestisse novamente e pediu com uma voz trêmula que El o desculpasse. Perguntou se ela ia prestar alguma denúncia, que ele tinha como provar o contrário, que ela rasgara as roupas de propósito para comprometê-lo, que ela não tinha moral para acusar um homem como ele.

Ela olhou para o homem à sua frente, vestiu as roupas e foi saindo calmamente, sem olhar para trás. Ele sentiu um estremecimento quando o barulho da porta batendo chegou aos seus ouvidos.

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Rascunho 12

Céu

Não há nenhum trono lá fora. Não há nenhum reino no céu.

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Rascunho 11

A Idade da Terra

Sempre que vejo a imagem da terra filmada a partir do espaço, toma conta de mim uma inquietação, um estremecimento com a fragilidade de nosso planeta. Porém, o que me incomoda mais é saber o tanto que a Terra já viveu e se transformou nesses bilhões de anos. De seu nascimento até o nascimento de Jesus, este homem, este semideus, este símbolo (que provavelmente nunca ouviu falar na palavra grega Christo, porque durante toda a sua vida só falou aramaico) a Terra passou por milhões de transformações, assistiu ao nascimento de milhares de civilizações, com seus milhões de deuses e religiões que nasceram e morreram enquanto o planeta rodava solitário na imensidão infinita do Universo.

Este mesmo planeta, que continuará rodando no espaço por mais bilhões de anos até ser engolido pelo sol, quando se expandir e explodir em seus momentos finais. Quantas civilizações ainda nascerão e morrerão neste intervalo de tempo? Quantas religiões surgirão e desaparecerão para sempre? Quantos Sócrates, Shakespeares e Michelângelos ainda nascerão e morrerão?

Os ciclos de nascimento, vida e morte se eternizarão?

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Rascunho 10

Continuação…

Aí Helena diz a Padre Agostinho: Espere, aí Padre, você não quer me convencer que acredita  que há alguma ligação direta entre a sua Igreja e aquele judeuzinho atrevido, que só queria mudar sua própria religião, o Judaísmo, e ensinar uma ou duas coisas sobre, humildade, perdão, amor, essas coisas boas que todo mundo diz que gosta, mas não pratica… Ora padre, sua Igreja tem muito mais a ver com a idéia que São Paulo tinha de criar uma religião forte o suficiente para derrubar o império romano. Sua Igreja tem muito mais a ver com os próprios imperadores romanos, ou você vai me dizer que não conhece a história dos Papas? Os antigos acreditavam nessa história de Deus, porque eles olhavam para cima e só viam o sol, as nuvens, o azul do céu e à noite o esplendor das estrelas. Só podiam imaginar um sujeito barbudo, como seus avós, sentado em seu trono (porque eles só conheciam reis como figuras de autoridade) cercado de anjinhos. Eles temiam as tempestades (os raios, os trovões deviam assustar muito…), os terremotos, as erupções vulcânicas e precisavam colocar algum sentido nisso tudo. Nada como um Deus para organizar as coisas. Quando os seres humanos olharam para o céu, além da atmosfera terrestre, viram que lá fora havia um caos e Deus nenhum para organizar. Deus também não apareceu para explicar as catástrofes, as guerras, o genocídio. Ele só conversou com os patriarcas hebreus, que se julgavam um povo escolhido, os únicos da terra a merecer a atenção de Deus. Somente eles puderam falar diretamente com Ele. Isso sem falar que as guerras foram todas travadas em Seu nome. A Bíblia está repleta de sangue e iniqüidades praticadas pelo próprio povo de Deus. É tudo uma história de poder, Padre. Não me venha com essa. Aí chega Jesus falando em um reino dos céus, que ele era filho de Deus, que podia curar doenças, podia ressuscitar os mortos, etc. parecia mais uma pessoa surtada, com graves problemas psicóticos. Nos dias de hoje seria internado num hospício imediatamente. Claro que muita coisa escrita ali no Novo Testamento foi inventada, manipulada com o passar dos séculos, veja que há discrepâncias entre um Evangelho e outro… Não sou tola, não… E a mulher, essa figura oprimida desde os primórdios da criação? Por que as deusas dão lugar a um Deus poderoso e onipotente? Por que os cristãos mantêm desesperadamente o culto a uma mãe que é ao mesmo tempo virgem? Não vou nem falar aqui dos muçulmanos, esses misóginos hipócritas, que merecem uma análise à parte. Como é que você quer que eu freqüente lugares em que eu tenho que ficar de joelhos para louvar essa farsa, Padre?  Jesus não tem nada a ver com o cristianismo, meu amigo. Ao que o padre respondeu calmamente: é muito difícil falar dessas coisas de fé, Helena. Eu li sobre tudo isso que você falou durante minha permanência no seminário. Mas nós descobrimos nossa vocação a partir de um mistério chamado fé. Nós acreditamos primeiro, depois investigamos para assim podermos rebater todos os seus argumentos. Da forma como você colocou a discussão, não podemos avançar em nada, porque você não crê.  Mas eu respeito sua opção, apenas não aceito que você a queira me impor. Acredito na liberdade do ser humano ter suas próprias escolhas. Defendo a diversidades de credos. Cada um acredita no que quiser. O que eu respeito em você é essa força com que você defende a liberdade de pensamento, o direito da mulher de ter a sua plenitude. Não pense que eu concorde com meus pares sobre a submissão das mulheres aos homens. Não me julgue tão mesquinho. Agora vamos ali tomar um suco de cajá que o dia hoje está quente como o diabo. Helena riu e disse, que é isso, padre, está blasfemando?

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